Não sei se é a sensação psicológica que o confinamento e a pandemia trouxeram, mas a minha percepção da passagem do tempo já deixou de ser credível há algum tempo. Não sei se a última vez que estive com amigos foi há 7 meses ou há 7 anos. Não sei se a última vez que entrei num restaurante foi há 8 meses ou há 15 anos. E depois de jogar Crash Bandicoot 4: It’s About Time não sei se estive a jogar a trilogia original pela primeira vez anteontem ou há mais de 22 anos.

Para perceberem o quão deslocado temporalmente estou: estava convicto de que tinha sido no início deste ano que a Activision tinha brindado toda a gente com uma honrosa versão remasterização da trilogia original de Crash Bandicoot, mas não. Desde o seu lançamento já passaram 3 anos e alguns pózinhos. Vêem o que vos digo? 

Para piorar esta confusão está o facto de que Crash Bandicoot 4: It’s About Time está tão imbuído com todos os elementos que fizeram da trilogia original criada pela Naughty Dog o marco histórico que é, que esquecemos rapidamente o facto de que entre o terceiro, e último da série principal, e este título, se tenham passado 22 anos.

Esta ironia é reconhecida pelo próprio estúdio que “pegou” na emblemática série, Toys for Bob, e que afirma que “já não era sem tempo” para libertar Crash do jugo dos péssimos spin-offs. Ora não fossem também eles os responsáveis por Crash Bandicoot N. Sane Trilogy, e seria difícil de perceber como é que um estúdio tinha absorvido tão bem a essência de Crash.

Há algo de interessante nesta sequela lançada 22 anos depois, que é o facto dos seus criadores quererem apresentar um título com desafio para toda a gente, e com camadas diferentes de dificuldades e usufruto. O level design, para além de estar em plena consonância em termos criativos e em termos de dificuldade com os seus antecessores, consegue permitir que diferentes tipos de jogadores usufruam ao máximo de Crash Bandicoot 4: It’s About Time.

Ainda há dias referi no podcast que decidi fazer a análise deste jogo com um elemento trazido da nostalgia pelo estúdio Toys for Bob: a componente multijogador de Crash Bandicoot4 : It’s About Time é o mais velha guarda possível – sempre que um jogador perde, passa o comando ao outro. Até as vertentes competitivas multijogador são jogadas da mesma forma, o que foi uma agradável surpresa de perceber que este Crash Bandicoot 4: It’s About Time se quis mesmo sentar no sofá da sala das nossas memórias. E fê-lo com exímia precisão.

Ao passar os muitos níveis de Crash Bandicoot 4: It’s About Time com o meu filho, num sistema de perde-passa-o-comando (e com vidas ilimitadas, ainda que contadas) senti que ele tinha uma abordagem diferente da minha, aproveitando camadas de jogo diferentes das minhas. Ou seja, quando eu estava com o comando eu tentava apanhar todas as caixas e frutas, estando disposto a perder uma vida se falhasse um salto ou um objectivo. Ele tem uma abordagem mais “solta”. Tenta alcançar o objectivo, mas chegar ao próximo checkpoint é a sua maior prioridade.

É nesta multiplicidade de abordagens que Crash Bandicoot 4: It’s About Time brilha. Tanto eu como o meu filho tentámos quebrar as dificuldades adicionais dos objectivos opcionais como as salas de bónus ou as cassetes VHS e os níveis a si ligados, mas com níveis de investimento distintos, e o jogo permite-nos tirar usufrutos dessas duas abordagens. Até, para um jogador menos treinado e/ou casual, a possibilidade de se focar exclusivamente em chegar ao fim de cada nível.

Narrativa e mecanicamente falando, a adição das Máscaras Quânticas dá um sabor diferente a Crash, mantendo o mesmo espírito em simultâneo. Sejam os segmentos em que uma máscara permite alternar a tangibilidade das plataformas ou outra que permite atrasar o curso do tempo, entre outras mecânicas que trazem um brilho mecânico diferente a um jogo que já é por si só um dos melhores e mais puros exemplos de 3D platforming deste ano.

Crash Bandicoot 4: It’s About Time é um jogo de plataformas maravilhoso e a sequela merecida a uma das mais influentes séries do género. Com uns sapatos difíceis de encher, o estúdio Toys for Bob prova que é definitivamente a casa ideal para seguir o excelente caminho trilhado por um gigante como a Naughty Dog. E quem ganha com tudo isto somos nós, que podemos ver Crash dentro do espectro de qualidade que ele merece, depois de um punhado de jogos banais que vão sair da memória histórica pela porta pequena.