
Se eu disser roguelite e dungeon crawler espanto logo de imediato algumas pessoas que se sentem saturadas com esses subgéneros? E se eu disser que o roguelite dungeon crawler do qual vou falar atira para as urtigas todos os clichés de guerreiros em masmorras e coloca-nos no papel de uma estagiária em ambiente de escritório.
E se disser que em Going Under, o novo jogo publicado pela Team17, a nossa missão, em honra do grande deus-capital e da corporação que nos aceitou em estágio não-remunerado? Limpar os pisos térreos do edifício de tudo o que são startups e empresas que não geraram lucro. E fazêmo-lo ao murro e ao pontapé. Quem disse que a vida de escritório era fácil?

Com um enredo divertidíssimo, Going Under é uma tremenda sátira ao mundo empresarial. E andar de piso em piso a distribuir pancadaria em empregados e empreendedores falhados é o sonho molhado de alguns neoliberais, que têm aqui a forma de apaziguar os seus instintos mais carniceiros.
Podemos utilizar qualquer objecto como arma, mas Going Under não seria um excelente roguelike se não nos permitisse ir comprando upgrades permanentes entre runs, ou deixar-nos a meio de uma dungeon, aliás, escritório de uma startup, de comprar equipamento para permitir que os magotes de empresários e estagiários que nos rodeiam não nos vençam na pancadaria.
O problema das armas que apanhamos e equipamos é que têm durabilidade, e aquela espada maravilhosa que ceifa empreendedores como se não houvesse amanhã eventualmente vai partir-se, e obrigar-nos a comprar outra. É o capitalismo em estado puro, no meio de um dungeon crawler que decorre num prédio de escritórios.

Como toda a estrutura empresarial obriga, é possível que consigamos ir ganhando alguns favores de colegas seniores da nossa empresa, que nos vão dando habilidades que nos permitam subsistir nesse ambiente hostil que é a escalada social de uma corporação. Ou neste caso, de sobreviver ao dungeon crawling corporativo.
Going Under tem uma direcção artística deliciosa que remete para uma estética de ilustração contemporânea, com figuras coloridas com cores planas e contrastantes, e que tornam toda a sátira empresarial numa experiência ainda mais divertida.

Este é o roguelite dungeon crawler mesmo para quem está farto do género, num dos mais originais jogos a saírem este ano e que prova, uma vez mais, que é possível reinventar os clichés com pequenos grandes momentos de genialidade.
[Disponível para Nintendo Switch, PS4, Xbox One, PC]













