Por Rui Pedro Leite

Há bastante tempo que ponderava comprar um set de VR. Queria muito aceder a este novo capítulo do mundo gaming (e não só), no entanto, parecia-me que a tecnologia ainda estava em fase embrionária, os HMD (head mounted displays) eram grandes, pesados, requeriam a montagem de sensores e, pior de tudo, eram caros, mesmo muito caros.

Houve no entanto um evento particular em novembro de 2019 que me convenceu que estava na altura de ponderar seriamente comprar um, um anúncio do retorno de um franchise que me é muito querido: Half-Life, em particular, Half-Life: Alyx.

Era o sinal que precisava, se a tecnologia foi suficientemente convincente para o nosso Lord and Saviour Gabe Newell arriscar o capital da Valve, de forma a catapultar o mundo do VR e a relançar a saga Half-Life, então é porque valia mesmo a pena.

E assim foi, com pandemia à mistura, que deixou tudo numa espécie de estado catatónico, adiei a minha decisão para o final do Verão de 2020 e, na realidade, foi a melhor coisa que fiz.

Em 16 de Setembro de 2020 Mark Zuckerberg anunciou o lançamento do Oculus Quest 2, uma hora e pouco depois a minha pré-reserva estava feita na Amazon. E era impossível não a ter feito: 1832 x 1920 de resolução por cada olho, WiFi 6, 90hz de refresh rate, 503 gramas (mais leve que o Quest 1, Index, Vive Cosmos e Reverb G2), tracking integrado, híbrido, com comandos, e tudo isto por 354€? Mais barato do que qualquer consola de nova geração (não, a Xbox Series S não é de nova geração)! A decisão foi instantânea.

Acabei por adicionar duas coisas à cesta, uma Elite Strap, tendo em consideração que a incluída pareceu-me demasiado básica, e ainda um cabo oficial Oculus Link (já vamos explorar esta decisão), aumentando a conta total para 500€. Ainda assim, com estes dois acessórios, o HP Reverb G2 que será lançado brevemente ficaria 200€ mais caro, e claro, sem funcionalidades stand alone sendo apenas um (incrível) PCVR normal.

A decisão mais difícil foi então a compra, ou não, do cabo oficial Oculus Link. Este cabo é utilizado para ligar o Quest 2 (e 1) ao PC, podendo usufruir-se do HDM como um PCVR dedicado, tendo acesso a jogos VR no Steam e à biblioteca do Oculus Rift. Mas são 100€ por um cabo, ouch! Fiz uma pesquisa rápida e cheguei à seguinte conclusão: os cabos third party, sejam eles da Anker, Amazon, ou de uma marca aleatória chinesa, funcionam desde que tenham um bandwidth alto (pelo menos 5gbps), mas, com algumas nuances. Consultando as avaliações dos cabos, alguns falhavam pontualmente, outros não conseguiam manter a carga do dispositivo, vários gigas de dados e eletricidade em simultâneo são muita areia para o camião dos cabos mais acessíveis. A título de exemplo, um dos cabos mais vendidos na Amazon norte-americana (Wirotech 90-Degree USB C3.1 Gen2 cable com 3 metros) custa 30€, mas ao fim de 3 horas de jogo a bateria do Quest 2 ronda os 15%, já para não falar que apenas tem 3 metros. Por outro lado, as alternativas com 5 metros são pesadas, têm amplificadores de sinal e rondam os 40/50€. Com tanta dúvida e complicação, e “apenas” pelo dobro do preço, acabei por optar pelo original: 5 metros, leve, com fibra ótica para dados e cobre para eletricidade, tudo funciona garantidamente, e eu gosto dessa segurança.

Outra decisão foi se optava pela versão de 64 GB ou de 256 GB (a diferença é de 100€), mas depois de uma pesquisa rápida percebi que 64 eram mais do que suficientes: os jogos mais leves, como por exemplo o Beat Saber ou Superhot VR, têm cerca de 500/600 MB, os mais pesados, como o Vader Imortal ou Arizona Sunshine 2/4 GB. Resumindo, 64 GB dão tranquilamente para instalar 20/30 jogos leves e sobram 40/30 GB para jogos mais pesados.

Feita a pré-reserva veio a parte mais difícil, a espera. O Quest 2 era lançado a 13 de Outubro e data de entrega era entre 21 e 26 de outubro – ia ser um mês longo – felizmente, e para minha grande surpresa, no dia 13 de outubro recebi um aviso que a minha encomenda estava a caminho e, no dia seguinte, confirmou-se a sua chegada.

A caixa é bastante minimalista, uma sleeve simples com a identificação do dispositivo e uma caixa de cartão de alta qualidade com o HDM e comandos com pilhas incluídas. É de realçar que depois de 10 dias de uso intensivo os comandos continuam com a bateria a 100%, com apenas uma pilha AA por comando! Dentro da caixa podemos ainda encontrar algumas infografias sobre a utilização do dispositivo, folhetos de garantia, um carregador USB-C e o respetivo cabo de alimentação que é deveras pequeno. Ainda vem incluído um spacer para encaixar no HDM, permitindo assim a quem usa óculos utilizar o Oculus Quest 2 sem qualquer problema.

A configuração é simples, inicia-se pelo download da app da Oculus para o nosso smartphone (ligado à rede WiFi da casa), faz-se login com o Facebook, pesquisa-se o dispositivo e voilà, fica tudo integrado e emparelhado. Podemos agora usar a app para fazer browse na Oculus Store, comprar jogos instalá-los remotamente no Quest 2, etc. Simples, eficaz e cómodo.

Antes de colocar o headset devemos ter atenção a um pormenor: os dispositivos de VR mais avançados, como é o caso do Quest 2, têm ajuste de IPD (interpupillary distance – distância entre as pupilas), este ajuste permite mover as lentes de VR até encontrar a posição mais confortável para os nossos olhos, permitindo uma imagem mais detalhada, clara e bem focada. O Quest 2 tem 3 opções de IPD, que se podem ajustar mexendo diretamente nas laterais das lentes para a esquerda e para a direita. A posição 1 corresponde a 58mm, sendo indicada para quem tem um IPD inferior a 61mm, a posição 2 a 63mm, indicada para quem tem entre 61 e 66mm, por fim, a 3, é de 68mm, destinada a quem tem um IPD maior do que de 66mm. Para medir facilmente o nosso IPD aconselho a aplicação GlassesOn na Play Store, é gratuita, extremamente eficaz e mediu o meu IPD com uma precisão fantástica (62.5mm). Assim, ajustei para a posição 2 e prossegui para a configuração.

Colocado o Quest 2, temos ainda de ajustar a fita até nos sentirmos confortáveis e com a imagem em foco, posto isto, o headset começa por nos mostrar uma série de passos de configuração de língua, WiFi, IPD, entre outros. Após algum tempo de configuração chegamos a uma das joias da coroa da Oculus: o sistema guardian. É uma feature que basicamente liga as câmaras exteriores de tracking para nos permitir desenhar no chão um sítio seguro para jogar, desta forma quando chegamos ao limite do guardian (porque por exemplo há uma parede) aparece-nos a imagem da parede virtual indicando que nos temos de chegar para trás. A sensibilidade é ajustável e o sistema tremendamente eficaz. O melhor de tudo é que eu já fiz um sistema guardian na sala, no hall dos quartos e no escritório, e o Quest 2 “lembra-se” sempre do guardian de cada divisão.

Seguidamente, o Quest 2 explica-nos como utilizar o sistema de hand tracking, que apesar de interessante aparenta ainda estar numa fase beta. Não me interpretem mal, ele funciona decentemente para navegar nos menus, na utilização do browser e afins, mas a realidade é que tive alguns problemas enquanto jogava o Elixir, um dos jogos que é de utilização exclusiva desta tecnologia.

Por fim, somos aconselhados a experimentar o First Steps, uma app/jogo concebido para introduzir pessoas ao mundo virtual. É interessante, divertido e eficaz.

De volta ao menu podemos escolher os temas da nossa home, desde uma casa solarenga até um apartamento retirado “diretamente” do Cyberpunk 2077. A navegação nos menus é simples, desde o acesso à store, definições, entre outros. E nas definições há que realçar um pormenor, existem uma série de experimental features que podem ser ativadas, ou não. Uma delas é das coisas mais úteis que o Oculus Quest 2 tem: fazendo um double tap na lateral do HDM a aplicação é pausada e ligam-se as câmaras exteriores, uma função ideal para nos reorientarmos. Outra é a de ativar os 90hz, tendo em consideração que ainda estamos em período de transição e a grande maioria dos jogos e aplicações ainda correm a 72hz.

Outra excelente feature do Quest 2, que ainda não abordamos, é a capacidade de fazer facilmente cast do que vemos para dispositivos à nossa volta. Assim, podemos estar na sala com amigos a jogar e eles podem assistir ao nosso gameplay na televisão (Smart TV ou Chromecast), ou no telemóvel. Esta funcionalidade é particularmente útil para auxiliar pessoas que estejam a utilizar VR pela primeira vez, permitindo-nos guiar os newbies e auxiliar todo processo através do nosso telemóvel.

Tendo em consideração que o HDM chegou uma semana antes do Link Cable e da Elite Strap, tive essa semana para testar a 100% as capacidades de stand alone do Oculus Quest 2. Os primeiros jogos que comprei foram o Superhot VR e o Beat Saber. É simplesmente indiscritível jogar Superhot em VR, a experiência é fantástica, intuitiva e extremamente divertida. O tracking funcionou sempre perfeitamente e lá acabei rapidamente a campanha com um sorriso nos lábios e com uma mão dorida (sim, ao dar um soco virtual a um inimigo dei um soco na parede).

Quanto ao Beat Saber (jogo completamente novo para mim), dei por mim a ficar horas a suar em bica e completamente viciado, sendo também uma forma de fazer exercício aliado a horas de diversão.

Acabei por constatar que o Quest 2 tem autonomia para cerca de 2h / 2h30m de jogo, sendo que esta capacidade pode ser aumentada comprando o pack Oculus Elite Strap with Battery and Carrying Case, por cerca de 130€, redobrando a autonomia do dispositivo. Ou, alternativamente, com um powerbank colocado no bolso e ligado ao Quest 2.

Depois de uns bons momentos passados nestes dois títulos decidi testar as funcionalidades do Virtual Desktop, uma aplicação (paga) que permite fazer stream do nosso PC para o Quest 2, possibilitando ao utilizador aceder ao seu computador em VR, jogar jogos do Steam VR e do Sidequest (uma plataforma alternativa cujos jogos são, na sua grande maioria, gratuitos). Mesmo com o WiFi 5ghz da minha casa o Virtual Desktop funcionou muito decentemente, com pouquíssimas falhas e apenas 15/20ms de input lag (para mim impercetível). Não vou mentir, jogar Half-Life: Alyx é uma experiência do outro mundo, jogá-lo completamente wireless é absolutamente fantástico.

Passados alguns dias chegou o Oculus Link e a Elite Strap. O cabo, tal como prometido, é extremamente leve, flexível e com altíssima qualidade (continua a não valer 100€), ligando-o ao computador a app da Oculus começou a tratar o meu headset como um Oculus Rift e deu-me acesso à biblioteca deste último. Experimentei ainda no Steam o Star Wars Squadrons, Elite Dangerous e Skyrim VR, tudo impecável, sem artefactos ou qualquer latência. A tecnologia efetivamente funciona.

No que diz respeito à Elite Strap, em termos de conforto é da noite para o dia, era assim que o Quest 2 deveria vir de origem! Enquanto com a fita incluída sentia algum desconforto ao fim de 30/45 minutos de utilização, com a Elite Strap sinto que consigo aguentar horas e horas. Uma outra grande vantagem deste acessório é a facilidade em ajustar o headset, tendo em consideração que existe uma roda de ajuste na parte traseira.

No entanto, estou um pouco preocupado com esta última compra, visto que o Reddit tem sido inundado com testemunhos de utilizadores que já viram a sua Elite Strap partir-se em dois. Claramente um falha imperdoável na qualidade de produção, especialmente quando a mesma custa 50€.

Em suma, o Oculus Quest 2 é um dispositivo perfeito para entrar no mundo de VR, ou para fazer upgrade a HDMs mais antigos.

Não é um Valve Index, tenham isso em mente, mas na realidade não fica assim tão longe. Perde drasticamente na refresh rate (120/144hz versus 90hz), mas ganha na resolução (1440 x 1600 versus 1832 x 1920) e descomplicação. Ah, e claro, um custa 1079€ e o outro 354€.

Com títulos exclusivos, specs invejáveis e preço acessível, é quase impossível resistir ao Oculus Quest 2. Existe, claro está, o elefante GIGANTE no meio da sala: o login obrigatório pelo Facebook. Pessoalmente não tenho qualquer problema com isso, já faço login com o Facebook em todo o lado, gosto do conforto e rapidez que me proporciona, no entanto, entendo as preocupações de alguns utilizadores que estão mais reticentes em ceder a sua privacidade à gigante norte-americana. Mas sejamos francos, o dispositivo só custa o que custa porque nos obriga a fazer login desta forma, estamos literalmente a dar informação em troca de um cupão de desconto.

Não consigo deixar de recomendar este dispositivo, têm sido horas e horas de diversão intensa e de sorrisos rasgados. Com este preço e especificações, é bom saber que (finalmente) o mundo de VR tornou-se absolutamente mainstream.