Com Assassin’s Creed Origin a Ubisoft transformou definitivamente a série. Com o ano de hiato para arrumar a casa e repensar o caminho de uma das séries de maior sucesso das últimas décadas após dois desaires, AC reergueu-se do sono como um open world RPG, com todas as glórias e pecados que esse rótulo acarreta.

Quem leu os meus artigos sobre os dois AC anteriores vai reconhecer um ponto em comum: apesar de gostar de ambos os títulos, a sua excessiva longevidade e obsessiva polvilhação de pontos secundários retirou-me por completo a vontade de os explorar mais do que fiz. E quando digo que os jogos são excessivamente longos, refiro-me ao facto de que os mapas são gigantescos – e impressionantes – mas parecem estar cheios de nada.

Assassin’s Creed Valhalla é maior que os dois antecessores e por incrível que pareça, é dos três aquele que apenas tangencialmente cai na monotonia. O segredo para isto não é surpresa, apesar de ser tantas vezes descurado por grande parte dos criadores AAA: este é um dos AC mais bem escritos que me lembro. Seja no enredo principal ou nas interacções com os muitos personagens que preenchem a gélida paisagem dos países nórdicas (e da Grã-Bretanha), os diálogos são interessantes e contribuem para uma história que poderia facilmente ser a base de uma excelente série de TV. E antes que me lembrem de potenciais semelhanças com Vikings, aproveito para avisar que, no meio das milhentas séries que já vi, essa continua na minha watchlist, e não sei até quando.

Este Assassin’s Creed Valhalla conta-nos a história interessante de Eivor (que já todos sabemos que pode ser jogada como homem ou mulher, e até podemos saltitar entre os dois géneros a meio do jogo, se assim o quisermos). Eivor é uma guerreira descendente de um dos líderes de clãs vikings, apanhada em criança no meio da tempestade de traições e fusões daquilo que viria a ser a unificação da Noruega. O seu irmão adoptivo, Sigurd, deveria ascender ao trono, não fosse essa mesma unificação ter-lhe retirado quaisquer pretensões reais. 

Dadas estas impossibilidades, Sigurd e Eivor apontam machados a Inglaterra, terra de Saxões, enquadrando este Assassin’s Creed Valhalla durante as invasões vikings à Grã-Bretanha. A necessidade de irem criando alianças com outros clãs na sua terra-natal contribui para uma subdivisão mecânica do mapa: cada região habitada por cada clã é uma linha de enredo em si mesma, com pequenos contributos para o enredo inter-regiões.

Mas Eivor é constantemente assolada pela amargura: seja pela memória do pai a permitir-se ser executado sem honra, como pelas profecias em que se vê, algures num futuro próximo, a trair Sigurd.

Estas ligações sobrenaturais não se ficam por aqui, ou não fosse este um jogo de Assassin’s Creed da nouvelle vague. Eivor tem uma ligação estranha a Odin, com o qual interage em transes que o levam aos caminhos míticos dos reinos da mitologia nórdica.

Outro dos segredos de Assassin’s Creed Valhalla em relação aos seus antecessores é o papel central que a nossa aldeia tem, do ponto de vista narrativo, mecânico e até emocional. É aqui que vamos conhecendo e travando amizade com os nossos camaradas de clã, sendo que com alguns deles, como esperado, vamos poder travar relações amorosas. 

Mas há uma camada muito mais interessante na nossa aldeia, que se vai desenvolvendo à medida que o tempo e os recursos vão surgindo. E a quantidade de actividades e utilidades que lá temos tornam-no sempre um porto obrigatório para regressar após cada incursão fora de portas. Sejam os concursos de emborcar hidromel em cornos (que me deram uma saudade tremenda de olhar para o meu próprio corno de beber que ficou este ano de 2020 no estaleiro), o pequeno board/dice game que temos para jogar, ou mesmo o meu favorito: flyrting, uma espécie de batalhas de rima entre vikings. Qualquer semelhança com as hilariantes batalhas de insultos do nosso Monkey Island pode ou não ser uma mera coincidência.

Flyrting, para além de ser mais uma valente dose de criatividade nos diálogos de Assassin’s Creed Valhalla, contribui mecanicamente para o nosso carisma, abrindo, potencialmente, novas linhas de diálogo com o nosso interlocutor se formos versados o suficiente na arte de falar. Mesmo os momentos em que as nossas escolhas têm consequências no seguimento da história são mais pungentes que nos anteriores.

Explorar Assassin’s Creed Valhalla é uma tarefa deslumbrante. A diversidade de ambientes e a qualidade dos cenários (diria que um pouco menos polvilhados com pontos secundários) acaba por ir impedir o loop de cair na monotonia dos antecessores. Para isso contribui a pouca ou nenhuma necessidade de grind para nos equipararmos ao patamar de cada região.

A existência de mini-quests é mais contida e bem mais criativa. Na primeira hora de jogo, se explorarmos a escarpa certa de uma montanha, vamos encontrar um camarada nosso sonâmbulo a dirigir-se para um precipício, e temos de evitar a sua morte a todo o custo. A solução.. Não vou dizer. Porque a Ubisoft soube fugir de muitas das fórmulas de quests para fazer algo verdadeiramente diferente.

O combate está semelhante aos anteriores, dando-nos a liberdade de escolher combinações de armas que se ajustem ao nosso estilo de jogo. Sem grandes diferenças para o anterior são as Valhalla Assaults a fortificações alguns dos elementos diferenciadores deste título, na qual nos juntamos ao nosso clã para tomar de assalto castelos inimigos. Armados de arietes, temos de derrubar os portões das fortificações para depois, junto dos nossos camaradas, as tomarmos de assalto.

São mais de 60 horas apenas no conteúdo base, que nos trazem uma história interessante e uma grande atenção ao detalhe, evitando que o loop mecânico caia na monotonia. Assassin’s Creed Valhalla é, até agora, o apogeu da série, com um equilíbrio difícil entre manter uma interligação com as suas origens, com o seu reboot, e com a inovação. Nesta passagem de geração, Assassin’s Creed Valhalla é um excelente jogo a surgir numa época permeável a muitos lançamentos concorrentes. Mas é, ainda assim, não só um excelente título, como possivelmente o melhor AC que a Ubisoft já lançou.