Valhalla é o terceiro jogo da nova geração de Assassin’s Creed, desde que os estúdios de Montreal fizeram uma remodelação total à jogabilidade e até ao seu formato, transformando-o num RPG mais vincado. Apesar de Odyssey seguir o mesmo conceito, foram introduzidos elementos que muitos fãs não apreciaram, como as quests aleatórias, um mapa estupidamente confuso e recheado de coisas para fazer e visitar. 

A certa parte da aventura não se conseguia manter o ritmo do avanço na narrativa, obrigando-nos a fazer grind para ganhar experiência e fortalecer a personagem para ultrapassar algumas partes mais complexas e inimigos mais fortes. E foi isso que me fez abandonar prematuramente o jogo. 

Valhalla assume toda a herança dos mais recentes títulos, mas é um jogo bem mais definido, arrumado, sem perder a gigantesca escala dos anteriores. É complexo e com muito para fazer, mas fez algumas correções e mudanças na sua estrutura. Em primeiro lugar é possível jogar apenas a estrutura narrativa, que por si é muito longa, e não é necessário fazer grind, o aumento da dificuldade é acompanhada pelo desenvolvimento natural da personagem. E mesmo que certas áreas aconselhem a ter um certo nível para explorar, consegue-se praticamente completar com muitos níveis abaixo. 

As quests aleatórias foram embora, agora existem esporadicamente as chamadas world events, que são quests assinaladas e divertidas, com recompensas interessantes. E existem diferentes atividades espalhadas pelo mundo, mas altamente opcionais, incluindo “combates” de bebida, batalhas de rimas, inspirado em Monkey Island, partidas de jogos de dados chamado Orlog, que promete ser um vício ao nível do Gwent de The Witcher. Que aliás já tem promessa de jogo físico para o próximo ano. E estão disponíveis quests secundárias que podem concluir, associadas ao acampamento. E claro, há muito colecionável para encontrar. 

Valhalla é uma viagem ao tempo dos vikings, que está bem na moda devido à série do canal História focada em Ragnar Lodbrok. O jogador assume Eivor, um viking que participa nas invasões da Britânia durante o século IX. Desta vez a escolha do gênero da personagem é puramente cosmética e até podem mudar em tempo real, sempre que quiserem no jogo. Sim, é estúpido. O interessante é que vamos voltar a envolver-nos no conflito secreto entre os assassinos ou hidden ones, contra os templários. 

A estrutura da campanha é feita em diferentes mapas, desde as terras nórdicas de origem dos vikings, mas sobretudo os diversos condados da Britânia. E cada uma tem de ser adicionada à nossa causa, funcionando como storylines ou melhor, sagas independentes dentro da narrativa geral com a sua própria quest chain. Na exploração vão encontrando pistas dos elementos dos templários que devem descobrir e assassinar, incluindo os zealots, que são soldados poderosos que podem perseguir o jogador se tivermos uma bounty

A base de operações é o acampamento que construímos na chegada à Britânia. Temos acesso a um gigantesco mapa onde vamos escolhendo a próxima zona a explorar. O acampamento, ainda que não seja bem uma novidade, permite expandir lojas, estábulos e outros edifícios dando acesso a missões, recursos e a possibilidade de melhorar armas no blacksmith, para dar uns exemplos. 

E o sistema das armas é realmente uma das melhores mudanças na série. Invés de bombardear o jogador com loot de armas e armaduras como anteriormente, o jogador vai basicamente cingir-se ao seu equipamento desde o início da aventura, podendo melhorar em diversos níveis cada peça. Com minério e peles é possível melhorar logo no inventário, mas para passar a qualidade é necessário visitar o blacksmith

Claro que os recursos são escassos, e as peças de upgrade do blacksmith terão de ser encontrados em locais secretos pelo mundo. As diferenças é que agora as peças de armadura pertencem a sets específicos, com diferentes bónus, mediante os gostos do jogador. Nunca vão ter de deitar nada fora, pois um simples machado normal pode ser melhorado a tornar-se lendário. 

A diferença é que estão espalhados pelo mundo algumas peças de armas ou armaduras, assinaladas com um ícone próprio, estes podem ser armas já melhoradas e evitam assim de as atualizar. É um sistema muito simples, mas muito eficaz. E ainda falando no equipamento, há que realçar o detalhe dos escudos e dos machados, ou mesmo as armaduras das personagens, onde se podem ler as runas, ver o pêlo das peles e a textura dos couros. Se houvesse um Oscar para o melhor guarda-roupa nos videojogos, estes vikings seriam sérios candidatos a ganhar. 

O sistema de progressão da personagem está associado a uma gigantesca árvore de talentos, onde investem os pontos para melhorar estatísticas específicas, desde melhorar os ataques melee ou com flechas, a resistência física ou dos elementos. Nesse progresso podem desbloquear habilidades especiais que adicionam nos atalhos, neste caso gastam barras de adrenalina, ou podem encontrar pergaminhos para os desbloquear diretamente. 

Explorar estes itens no mundo é um pouco consumidor de tempo, porque apesar de assinalados no mapa, funcionam como puzzles, semelhantes a Far Cry. É necessário encontrar uma forma de entrar numa casa, encontrar um subterrâneo secreto, por vezes bem afastado do local, e assim adiante. 

Falar de vikings e não referir toda a mitologia nórdica não faria sentido. E a Ubisoft tem explorado bem os deuses e criaturas mitológicas dos jogos anteriores. A surpresa é que desta vez esses deuses como Odin, Thor ou Loki são bem humanizados e credíveis, com uma saga própria muito interessante. Para desbloquear é necessário construir a cabana da Seer, a feiticeira da tribo que surge a certa parte da aventura. A visita a Asgard é um dos locais bem interessantes da aventura. 

Mas o melhor no jogo é que a história é bastante boa e Eivor revela-se uma das personagens mais interessantes da série. Pode parecer um brutamontes nórdico, mas tem convições e honra. E a narrativa tem agora decisões e consequências, seja no desenrolar com algumas personagens que se podem juntar ao nosso grupo, como pode influenciar o seu próprio final. 

O sistema de combate está igualmente bem refinado, ainda que inicialmente não se entenda bem o que a Ubisoft queria fazer. Há um ataque forte e outro rápido, mas só o forte gasta stamina, pois os rápidos enchem a barra. A ideia é despejar golpes fortes para abater escudos inimigos ou a sua própria barra, e acabar com golpes rápidos para retomar. 

A personagem pode usar dois machados ou um escudo para se defender, mas outra mecânica que devem ter em conta nos combates é a esquiva. Se fugirem em timing, o jogo dispara uma espécie de bullet time que permite responder rapidamente com ataques, e esta é a tática para enfrentar os bosses. Mesmo que estes estejam a níveis bastante elevados é possível derrotá-los usando o vosso skill, mesmo que não deem tanto dano. é possível desequilibrar os adversários e pisá-los. Além de que as finalizações são brutalíssimas! 

E certas quests não nos dão a mão. As zonas precisam ser investigadas com a águia, ainda que não seja necessário apontar os objetivos ao pormenor. Acaba por ser mais útil para observar uma entrada ou assim. Numa das quests por exemplo, temos de investigar quem dos três guardas do líder era o traidor. Depois de recolher as provas fica ao nosso critério apontar o culpado, e caso escolham o errado terão de viver com a consequência. 

Claro que os vikings gostam de fazer raids e pilhagens a acampamentos inimigos, fortalezas ou castelos. Podemos seguir nos rios e atacar à vista, mas também utilizar aríetes para derrubar os portões das fortalezas, ou se quiserem, infiltrar para abrir no seu interior. As pilhagens significam também recursos preciosos para melhorar o acampamento. 

O vasto cenário da Britânia apresenta diversos locais de interesse, e tem cenários bastante diferentes, desde florestas densas, montanhas, mas também pântanos ou zonas costeiras, aldeias não faltando ruínas de aquedutos romanos e outros. Apesar de ser um jogo sobre os vikings, estamos perante a cultura britânica medieval, com reis e conspirações de poder que a série sempre soube fazer muito bem. Há personagens muito interessantes para explorar, incluindo figuras históricas como os filhos de Ragnar. E durante a exploração, parece que estamos em filmes como Highlander e Braveheart

A banda sonora de Jesper Kyd ajuda a criar esse ambiente fantástico, entre melodias de ambiente que salientam o aspeto cinematográfico, como outras que moldam a ação, destacando uma raid, ou os combates. O voice acting das personagens parece-me bem, apenas as faces já parecem bem datadas para os padrões atuais, deixando também a desejar o lip sync nos diálogos. 

Mas nem tudo é bom em Valhalla e a Ubisoft continua a cometer erros do passado, como a extensa lista de bugs que foi atenuada na correção que chegou ainda antes desta review. A inteligência artificial dos inimigos é muito pobre, muitas vezes ficam a olhar enquanto simplesmente os derretemos, outras vezes nem nos veem quando estamos a fazer “stealth” bem à sua frente. Mas no geral têm comportamentos erráticos. 

Depois existem problemas de clipping, assim como podemos ficar presos em partes do cenário e ter de carregar um nível, ou levar um ataque de um inimigo e sairmos disparados, para fora do cenário. A lista poderia continuar, mas penso que basta dizer que Assassin’s Creed está quase no patamar dos bugs incríveis de um The Elder Scrolls ou Fallout. Levem como um elogio… 

Muita coisa ficou por dizer nesta review, pois Valhalla é um jogo muito vasto e complexo, mas é bem mais divertido que os anteriores. E vai ficando melhor à medida que as horas passam. Desbloquear novas habilidades tornam o combate mais eficaz e a história desenrola-se de forma fluída, sem necessidade de grind. E a narrativa é muito interessante, com diferentes arcos com as respetivas quests chains, com reviravoltas inesperadas. E o jogo tem muito conteúdo para explorar, para quem no final da aventura ainda sentir vontade de continuar a viver nesta Grã-Bretanha medieval. Dizer que estamos perante o melhor Assassin’s Creed da série é difícil, mas certamente um dos mais interessantes e maduros desta nova trilogia.