A minha busca quase zen por jogos relaxantes que me façam acalmar da minha ansiedade natural e a acrescida pela pandemia volta e meia tem umas mudanças. É que ocasionalmente gosto de ir buscar jogos difíceis que me enervem, só para tentar queimar um bocadinho da cafeína que meto para as veias (não directamente) todos os dias. 

Um desses jogos foi um jogo que a Devolver Digital publicou que é uma simulador de fiambre da pá. Chamam-lhe Disc Room, mas podiam ter chamado Zona da Charcutaria do Continente, ou, Vida de Nobre (referência à marca, e não à aristocracia).

Disc Room é genial na sua simplicidade. Somos um humano simplíssimo sem quaisquer poderes ou habilidades (de início), e a nossa única (e difícil) tarefa é a de sobreviver uma sucessão de salas quadrangulares recheadas de serras.

Dou a mão à palmatória aos seus criadores: eu só teria criatividade para me lembrar de um ou dois tipos de serras para introduzir num jogo. Mas eles não. Foram longe. Cada sala tem serras com comportamentos diferentes, com habilidades distintas mas com um objectivo comum: matar-nos. E acreditem, ser fatiado é algo que nos vai acontecer muitas, muitas vezes.

A estrutura de Disc Room é interessante, especialmente pelo desafio que imprime a uma ideia tão simples: entrar numa sala, e sobreviver no tempo mínimo esperado. Fazê-lo abre a porta para a próxima sala, e assim sucessivamente, até chegarmos às boss fights, monstros que temos de combater sem termos armas para o fazer. Mas onde temos de apanhar umas bolinhas douradas que vão dando dano aos bosses.

É à medida que vamos avançando é que o nosso personagem vai ganhando acesso a algumas habilidades como o poder de desacelerar o tempo num raio à sua volta. Estas habilidades não tornam a tarefa de sobreviver substancialmente mais fácil, mas abrem a possibilidade de resolver algumas salas que previamente não conseguíamos. Um exemplo disso são aquelas que necessitavam de limiares muito baixos como morrer em menos de 1 segundo e afins.

Ah, sim, se bati palmas à criatividade dos criadores de Disc Room em desenvolverem muitas formas de nos matarem com serras e lâminas dançantes diferentes, também tenho de elogiar a sua capacidade de inventarem objetivos, quase todos ligados ao tempo, originais, e muitos deles muito difíceis de cumprir. 

Seja morrer com um determinado número de serras diferentes, ou sobreviver durante determinado tempo mas temos de descobrir o que fazer para que o cronómetro avance, ou objetivos ainda mais crípticos. 

Disc Room é maravilhoso na sua abordagem simplista, quase arcade, de pegar num conceito que tantas vezes vimos em outros jogos e explorá-lo ao máximo para fazer dele um jogo por si mesmo. E fá-lo de forma magistralmente criativa, apresentando-nos novas formas de sermos mortos, e desafios progressivamente mais difíceis. Disc Room é daqueles jogos hardcore que vão gostar muito mais do que imaginariam que iriam. Garanto-vos.