De há alguns anos para cá que a editora Slitherine tem habituado o mercado a detalhados wargames de qualidade dentro do género 4X. Shadow Empire, recentemente disponível no Steam, é dos mais detalhados, complexos e, por inerência, ambiciosos projetos da editora britânica, sob a alçada da sua marca Matrix Games.

Ah, e praticamente foi um gajo sozinho que fez o jogo todo.

Shadow Empire coloca-nos no papel de um líder (eu escolhi ser o “Querido Líder“, mas vocês podem lá escolher o que quiserem) de uma pequena cidade-estado num planeta inóspito, outrora promissor mas devastado por várias efemérides pós-apocalípticas (não, não é Cyberpunk). Imaginem uma estética de um Civilization II com o invólucro espacial de Sid Meier’s Alpha Centauri, em que devem conduzir o vosso planeta de volta à glória.

Recém-eleito ao poder, comecei apenas com um pequeno contingente militar e meia dúzia de hexágonos. Em contraste, comecei ainda com largas dezenas de menus e botões e sem fazer ideia como jogar, enquanto tinha várias notificações dos meus conselheiros na base do “Querido líder, que devemos fazer?” ou “Querido líder, posso-lhe explicar como se faz isto?“. Ficava a perceber a parte técnica daquele pormenor na imensidão de opções de gestão de Shadow Empire, mas sem entender por onde deveria começar. Foi então que fui chamado à atenção para a existência de um manual.

Juro que não fui eu

Ah, o manual. Doce nostalgia dos tempos em que jogos vinham em caixas e um pequeno bloco detalhava os aspectos chave do jogo – sempre gostei de ler tudo antes sequer de começar a jogar. A diferença com Shadow Empire é que o manual não é um bloquinho e tem 365 páginas. Confirmei as minhas suspeitas de que a curva de aprendizagem em Shadow Empire é bastante alongada. Pela sua complexidade, Shadow Empire vai apelar ao já-é-tão-extenso-que-não-lhe-posso-chamar-bem-nicho de jogadores de 4X e não às massas, mas recomendo vivamente a qualquer adepto do galinheiro a leitura das 18 páginas que compõem todo o lore do jogo e que explica como chegámos à ópera espacial pós-apocalíptica (e ao próprio nome do jogo, que seria spoiler explicar aqui).

Muitos menus, muitos hexágonos.

Aguçado o interesse pela história de fundo que sustenta as nossas acções durante o jogo, o início de cada mapa é também ele mais detalhado do que um qualquer Civilization: dentro de muitos ou poucos parâmetros que escolhamos personalizar, encontram-se o tipo de planetóide (terráqueo, desértico, vulcânico… planetóidico), características de clima, vegetação, recursos, vida alienígena, etc. Também se pode carregar num botão e começar a jogar de imediato, mas nestes jogos profundos em que me perguntam se quero simplificar fico sempre a pensar que estou a perder parte da experiência. Optei por escolher apenas algumas opções de personalização, nas quais me senti muito mais imiscuído neste planeta que ajudei a criar do que se me tivesse caído algo aleatório no colo. Afinal, é suposto passarmos algumas dezenas de horas com cada campanha, onde as possibilidades de imersão são imensas. Importa referir que mesmo ao personalizar todos os pormenores possíveis, o algoritmo do jogo irá tentar sempre gerar um planeta único, com a sua própria história e características, para que todas as campanhas sejam únicas.

Embora vocacionado para a expansão militarista, Shadow Empire apresenta opções mais diplomáticas ou económicas de alcançar a vitória, um sabor sempre presente nos cardápios de 4X mais abrangentes dos dias que correm. Aqui a entrada faz crescer água na boca, o prato principal é um daqueles bifes grandes para os quais nos temos de preparar e a sobremesa logo escolhem, consoante a vontade que tiverem.