Um enquadramento cronológico: joguei Election Year Knockout 2020: The Punch Out Style Presidential Debate (ft. Trump and Biden) (doravante chamado apenas de Election Year Knockout) dias antes da eleição norte-americana, ainda aterrorizado com a possibilidade de reeleição de Donald Trump. Uma decisão que serviu quase de calmante digital antecipadopara o nervosismo que as semanas seguintes trariam. 

Election Year Knockout trazia assim dois temas numa só embalagem: política (especialmente a americana a quem tenho dado tanta atenção nos últimos anos) e uma óbvia homenagem a Super Punch-Out, um dos mais memoráveis jogos da Nintendo (e um que há demasiados anos está sem ter direito a uma sequela).

No mundo paralelo de Election Year Knockout todos os debates políticos são resolvidos dentro do ringue, ao murro. Depois de ver a baixeza de alguns dos debates dos últimos meses, e da forma suja como se “joga” o jogo político, diria que existe uma elevação se o boxe fosse utilizado como tira-teimas político. 

Mas de volta a este jogo de arcadas: à semelhança da sua grande inspiração, o momento alto deste jogo é descortinar as vulnerabilidades e padrões dos nossos adversários. Com alguns a coisa é fácil, e directa, mas à medida que o jogo vai avançando há ideias originais a serem introduzidas. Se perdemos muitas vezes seguidas é o espírito de John McCain quem nos vem dar algumas dicas para que percebamos exactamente onde atacar, e como.

Uma das ideias mais originais é no combate com Bernie Sanders (Birdie Sanders, como é aqui chamado), ou o equivalente do seu nome em jogo. O pugilista inspirado no famoso senador do Vermont encontra-se em segundo plano, com um pássaro do Twitter em primeiro plano que nos ataca. A forma de o derrotar – e perdoem-me o spoiler – passa por conseguirmos desferir um uppercut no pássaro no timing certo como forma de deixar Bernie vulnerável aos nossos ataques. É neste tipo de identificação de pseudo-puzzes que reside a maravilha deste micro-género, e Election Year Knockout fá-lo tão bem quanto a sua musa inspiradora. 

O sistema de KO é idêntico ao de Punch-Out: vamos enchendo uma barra de ataque especial que quando desferido tem uma grande possibilidade de atirar o nosso adversário às lonas. Literalmente. Cada vez que um de nós é atirado ao chão, o mini-jogo para recuperar torna-se mais difícil, e se formos derrubados três vezes no mesmo assalto somos nocauteados. O mesmo se aplica ao nosso adversário.

Election Year Knockout tem um sistema de escolha de níveis acompanhando os estados norte-americanos (e não só, com uma surpresas que vão sendo desbloqueadas). Para quem conhece o cenário da política americana, é interessante de ver como é que os autores deste jogo parodiaram as figuras políticas, e como é que usaram a sua identidade real na construção mecânica das lutas. Elizabeth Warren, por exemplo, tem ataques de arqueira indígena. Mike Pence é uma espécie de figura divina que flutua. 

É sobretudo na originalidade dos adversários – e sim, eu sei que muitas destas boss fights são mecanicamente decalcadas de Punch-Out – que está todo o brilho deste Election Year Knockout. Um jogo que nos rouba um pequeno riso sempre que vemos os trocadilhos que fazem com cada político. A luta final é obviamente com Donald Trump, um adversário bem mais difícil de derrotar do que se esperaria (e que tem uma curva de dificuldade abrupta quando comparado com os combatentes anteriores).

Com customização de personagem e até do nome do partido (em cada combate desbloqueamos novas palavras para adicionar à nomenclatura), Election Year Knockout é um grande pedaço de humor contemporâneo e um bom jogo de arcadas a homenagear Super Punch-Out.