Toda a gente tem aquele amigo que fala alto. Eu tenho um de longa data, e do qual conheço a família quase toda: pais, irmãos, sobrinhos. Ele é do interior, e aquilo não é de todo falta-de-educação, muito pelo contrário, é uma característica da alegria daquela gente maravilhoso. E tenho outro, o Marco Janeiro. Com a sua voz delicada de taberneiro da Baixa dos anos 1950. Na versão “cantar em plenos pulmões” 

É possível que os membros do estúdio Billy Goat Entertainment também tenham amigos assim. E/ou que tenham amigos com uma voz tão irritante que mais parece um bode a balir. Quero acreditar que foi essa a inspiração por trás de Supermarket Shriek. Que a convivência com esses amigos tenha sido a base mecânica para um dos jogos mais absurdamente divertidos lançados num ano que de divertido teve muito pouco.

Para vos explicar Supermarket Shriek, imaginem que essa característica que no mundo real é uma “fragilidade” social, a de falar excessivamente alta e/ou de forma estridente, até ajudaria num jogo. Não falo do voice chat de jogos online onde essa voz volumosa dá outro ênfase a tecer-se alguns comentários aos outros jogadores que envolvam gastronomia e as suas mães. Digo um jogo que todos os vizinhos vão odiar, porque o vão poder jogar aos gritos. E até devem fazê-lo.

Falo de Supermarket Shriek, um jogo de obstáculos, com um homem, um bode e um carrinho de supermercado, e vá, plenos pulmões dou dois dedos, dependendo da plataforma. Mecanicamente, este Supermarket Shriek é muito simples: um botão controla o grito do homem e vira o carrinho para a esquerda, outro botão controla o grito do bode e para a direita.

Mas para plataformas que tenham microfone disponível, a maneira perfeita de o jogar é em formato mãos livres, acompanhado por alguém em co-op local, e cada um munido da sua caixa vocal. Podemos substituir o botão e controlar os gritos do homem e do bode… com os nossos próprios gritos.

Num jogo absurdo com obstáculos típicos de desenhos-animados, podem imaginar que esta gritaria é a receita perfeita para o desastre. Um party game gritante – literalmente – que nos coloca numa corrida contra o tempo ao longo de 38 níveis temáticos. 

Supermarket Shriek é um jogo divertidíssimo, original e absurdo. Com a dose certa de absurdo para nos manter distraídos do mundo real, já que este, apesar das boas novas, continua a não estar recomendável.

Por outro lado é o party game ideal para a situação em que vivemos: um jogo apenas para dois. Já que estão num carrinho de supermercado, adicionem-lhe umas quantas garrafas de álcool e deixo-vos uma garantia: os vossos vizinhos vão mesmo adorar. Ou talvez não.