Na última sexta-feira a SIC lançou uma nova plataforma de videojogos. Advnce é o nome do projecto que tem programas de TV na SIC Radical e na SIC e tudo acompanhado com um site que tenta centralizar a comunidade de gamers em Portugal. Infelizmente a concretização desta boa ideia é péssima. O primeiro programa começa com uma apresentação com linguagem adolescente de Diogo Valssassina e onde são apresentados especialistas que nada mais são do que Youtubers e Streamers.

Longe vão os tempos da inovadora SIC Radical com programas de espírito jovem mas que eram para todas as idades. Longe vão os tempos do Templo dos Jogos, possivelmente o melhor programa de TV que apareceu em Portugal sobre os videojogos, que tinha apresentação profissional mas divertida de apresentadores como Rita Mendes, João Maia Abreu ou Cristina Möhler, entre outros.  Ao escolherem-se Youtubers/influencers claramente passa-se a mensagem que os programas são para crianças, para um público sub-14.

E por falar em especialistas, lembram-se do Paulo Dimas no Ponto por Ponto? A SIC para especialistas escolheu Youtubers e Streamers… Infelizmente é uma prática recorrente das marcas em Portugal, mas os grandes criadores portugueses de conteúdos nas plataformas online estão longe de poderem ser considerados especialistas no assunto e, pior ainda, alguns deles estão associados a negócios obscuros: alguns pediam dinheiro aos seus subscritores e outros têm “negócios” pouco sérios no Facebook com páginas de venda/leilões de videojogos. Ainda hoje é caricato pensar que o BPI se associou ao Tiagovski… Mas infelizmente as marcas não têm pudor ao associar-se a estes influenciadores. E porquê? Por causa da grande afluência do público jovem que é atraído por estas personalidades.

Ainda há pouco tempo pôde-se verificar em primeira mão este facto. Os dois grande eventos de videojogos em Portugal, Moche XL Games World e Lisboa Games Week tiveram uma mini-edição online. O Moche XL Games World com muitos Youtubers famosos conseguiu ter 10 vezes mais público que o Lisboa Games Week. Mas este facto pode ser justificado pois quem vê estes programas online é precisamente o público dos Youtubers.  Mas mesmos marcas como a Nintendo e a PlayStation também preferem escolher personalidades para promover os videojogos. É certo que uma Filomena Cautela ou um Nuno Markl a promover um jogo é um pouco mais interessante do que ver uma Pamufa ou um Bombnuker (mas pouco mais) mas será que a indústria portuguesa não consegue ser/fazer melhor ?

Outro aspecto negativo que igualmente a SIC não conseguiu fugir é a visão reduzida dos videojogos. Quando falam de videojogos é FIFA, CS, LoL ou mais um ou dois jogos… Se alguém fizer uma lista dos melhores videojogos, ninguém fala destes jogos mas mesmo assim as marcas não conseguem fugir a estes jogos do grande público. Por mês saem centenas de jogos, há muito mais jogadores a jogar jogos single-player do que jogadores a terem interesse nos Esports e no entanto estes  jogos que servem a grande maioria dos jogadores são esquecidos. Há uma diversidade imensa de jogos e o primeiro programa da SIC dedicado ao retro fala de FIFA?

Quando põem Youtubers a falar e quando só falam do mesmo, parecem que querem alienar as pessoas que gostam de jogos. É claro que quem sou eu para dizer o que as marcas devem ou não fazer, mas por uma vez, gostava que alguém pensasse que alguns de nós, a maioria de nós, quer jogos pelos jogos.

Será que ninguém consegue mostrar que videojogos é cultura, é arte, é ciência e por si só é mais que motivo para ter a devida importância ?

Será que ninguém consegue ver que os videojogos são para todas as idades ?

Não quero mais ver os Quim Barreiros do meio a falar de videojogos!