Já passou uma semana desde o lançamento caótico de Cyberpunk 2077, talvez um dos jogos com mais hype dos últimos anos, mas desde há algum tempo que indiciava que algo não estava bem. Foram feitos os adiamentos possíveis, um deles mesmo depois do envio da Gold para a fábrica, e o jogo acabou por sair a 10 de dezembro. Desde então, nunca mais deixou de espalhar tinta.

A esta altura já deves saber da polémica em torno das versões PS4 e Xbox One, mas esta análise é apenas para PC e já inclui a atualização 1.04 que melhorou bastante a experiência, ainda antes da anunciada 1.05. E até houve problemas com os processadores AMD, cujos Threads só estavam a ser usados pela metade. 

Mas deixem-me que digam que ainda assim o jogo continua com problemas de otimização, sobretudo para quem queria testar o jogo em 4K e com os efeitos de Ray Tracing ligados. Porque só desta forma vão conseguir observar a ambição de recriar uma Night City vibrante e cheia de vida, e nisso, a CD Projekt não falhou.

Curiosamente, a versão Stadia é a mais estável de todas, considerando que têm uma ligação consistente, não terão um único soluço, os loadings são rápidos. E ironicamente é a versão que não precisam de ter um computador da NASA, uma consola de última geração. Basta ter um tablet, smartphone ou portátil “podre” para desfrutarem do jogo com uma qualidade impressionante.

Estamos perante um jogo de ambição de nova geração, um novo título que serve de benchmark para futuros PCs, e claramente a gritar por versões dignas para a PS5 e Xbox Series. Isso vai acontecer, mas desde sempre que os planos passavam para uma data posterior. O estúdio iria continuar a trabalhar nessas versões depois do lançamento inicial, ao mesmo tempo que chegavam mais consolas às casas das pessoas no próximo ano. 

Cyberpunk 2077 baseia-se no RPG de caneta e papel criado por Mike Pondsmith em 1988, que teve uma participação muito ativa no desenvolvimento deste jogo. E este oferece-nos realmente um vislumbre de um futuro distópico onde a Humanidade abraçou a tecnologia biomecânica, os implantes do corpo, os processadores neurais e até a vida para além da morte no ciberespaço. São temáticas que vimos em outras obras, desde Blade Runner ou Tron, mas o jogo em si lembra-me bastante Deus EX, obviamente pela sua temática, mas a perspetiva na primeira pessoa.

E tudo isto é uma novidade para a CD Projekt RED, que arriscou num ambiente explorável na primeira pessoa, procurando oferecer uma experiência de ação como um poderoso FPS, mas afetado por algumas regras dos RPG. Isto significa que a personagem terá acesso a diferentes builds, em árvores de habilidades que se dividem entre características com impacto no mundo, como no tipo de armas que utiliza, sejam espadas melee ou metralhadoras. 

Ou se preferirem, podem expandir as opções furtivas, assim como utilizar habilidades de hacking dos dispositivos dos inimigos, drones ou câmaras de vigilância. Investir na força pode abrir caminhos por portas empenadas, mas em tecnologia pode-se ter acesso a locais trancados eletronicamente.   

Há realmente muitas opções e liberdade de escolha no desenvolvimento da personagem, mas acima de tudo, como um shooter funciona muito bem. Desde os modelos das armas e respetivas animações de carregamento de munições, mas é sobretudo o impacto dos tiros que o jogo se distingue e claro, a acústica do som é do melhor que anda por aí. 

Mas já que falamos da ação, deixem que vos diga que a inteligência artificial não existe neste jogo. E sim, a CD Projekt RED já afirmou que tem isso na lista de melhorias. Basicamente os inimigos mal reagem, são pura carne para canhão, sendo necessário aumentar a dificuldade para que possam, de forma artificial, serem mais duros de eliminar e darem mais dano. Se fizerem asneira na cidade, como atropelar alguém, é uma lotaria: ou este levanta-se como se nada se passasse, ou fica inerte no chão e faz disparar a estrela das autoridades. E não importa onde cometem o crime, a polícia vai fazer respawn bem perto de vocês. Acreditem. 

Ainda assim, existem alguns momentos que oferecem boas sessões de ação, permitindo explorar um pouco do arsenal poderoso disponível ao longo do jogo. Sobretudo quando enfrentamos bosses ou líderes de gangues, são normalmente embates mais intensos.

Ah, e no que diz respeito às armas, a nossa personagem é um autêntico sucateiro, ainda mais que no Fallout ou The Elder Scrolls. Dá para apanhar centenas de logs com textos sobre este mundo, comida, as armas largadas pelos inimigos que deixa qualquer shooter looter envergonhado. Muito raramente vão ficar com a mesma arma depois de um encontro, porque certamente vão encontrar uma pistola que dá mais 0,1% de DPS que a que têm equipado, e por isso, a anterior já não serve. Procurem armas raras, épicas e até únicas neste mundo. Há muito para gerir no inventário, incluindo as roupas e armaduras.  

E por isso, o inventário tem de ser revisto constantemente, entre o deitar para o lixo, desmanchar equipamento ou simplesmente vendê-lo para angariar dinheiro. E o dinheiro em Night City tem muita importância. Nada é de borla. Os poderosos implantes que podem colocar são muito caros, e necessitam de visitar os Ripperdocs da cidade para os implementar. As atualizações das armas necessitam de matérias-primas raras. E claro, os veículos poderosos que podem ser adquiridos também obrigam a juntar muito dinheiro, incluindo motas. 

De qualquer forma, o protagonista V é um mercenário, e recebe ofertas constantes de trabalhos com recompensas monetárias, entre eliminar gangues, investigar crimes ou mesmo roubar algo. O telefone nunca para de tocar com chamadas para trabalhos ou mensagens, e é bem possível que acumulem dezenas de gigs e missões paralelas para fazer. 

V pode ser caracterizado livremente pelos jogadores, num dos mais poderosos editores de personagem de um RPG. Tudo dá para alterar, desde o sexo, aos pormenores faciais e até as partes intimas, claramente um troll do estúdio a quem realmente se importa com as questões estéticas das personagens. 

Ainda no que diz respeito às personagens, a CD Projekt tem atualmente alguns dos melhores artistas da indústria. Já tínhamos observado o trabalho incrível em recriar Geralt, Yennefer ou Triss Merigold em The Witcher 3, e os detalhes faciais das novas personagens conseguem ser superiores a jogos como The Last of Us 2 ou Ghost of Tsushima. As expressões faciais, o body language, os olhares íntimos, e claro, o traço estético, tornam os diálogos mais cativantes. 

E nem estou a falar da personagem Johnny Silverhand protagonizado por Keanu Reeves, que é uma das grandes surpresas da aventura, mas que não podemos falar para não estragar a surpresa. Posso dizer que é um misto entre estrela do rock e terrorista extremista. Personagens como Panam, Judy ou mesmo o nosso companheiro de armas Jacky Wells e o japonês Goro Takemura ficam rapidamente na nossa lista de memoráveis. 

Mas o principal protagonista deste Cyberpunk 2077 é mesmo Night City. Invés de apostar num mundo vasto aberto à exploração, o estúdio criou uma metrópole futurista com tudo aquilo a que temos direito dos melhores filmes de ficção científica. Blade Runner, Total Recall, Robocop, Quinto Elemento ou mais recentemente a série Altered Carbon, são grandes comparações e inspirações para uma cidade que mistura elementos retro-futuristas visíveis nos seus veículos, nas máquinas, misturado com as projeções de luz, hologramas, muita cor de néons, placards eletrónicos de publicidade e muitos ecrãs que nos inundam com noticiários, talk shows e outros programas hilariantes. 

E mesmo aqui há divisões sociais, os locais ricos e industriais, que contrastam com as favelas com os mais pobres e isso se pode ver também na arquitetura em geral. Os ciclos noite e dia refletem-se no movimento das cidades, de dia o trânsito e as pessoas na sua vidinha, ainda que sinta que muitos dos comportamentos sejam mais simples que o The Witcher 3

Mas claro que muito do ambiente bebe dos visuais fantásticos que a CD Projekt criou, dos efeitos especiais, o HDR, o Ray tracing, em que os reflexos parecem foto-realísticos, caso consigam obtê-los no PC. É um jogo em que cada passo por esta cidade é de abrir a boca, o ambiente noir da chuva a bater nos néons é de pura nostalgia. E o jogo faz questão de se exibir em algumas sequências, estragando-se apenas pela inconsistência constante do framerate

Mas muitos devem estar a perguntar sobre a história? A história é outro dos pontos altos deste jogo, mesmo que seja curta e direta, caso se concentrem apenas na mesma. E começa com um grande assalto que corre muito mal para os protagonistas, e a partir daí tudo se torna uma montanha-russa, repleta de perseguições, crimes, e personagens que sabemos que a qualquer momento nos podem trair.

O jogo oferece três backgrounds distintos, que afetam o começo da aventura, a relação inicial com algumas personagens e certas opções de diálogo ao longo da campanha. Mas de resto o fio condutor é o mesmo e as nossas decisões não têm um grande impacto no seu decurso geral, mesmo que o desfecho tenha diferentes possibilidades. Mas senti que The Witcher 3 a nossa forma de estar tinha muito mais impacto no mundo em redor, do que este Cyberpunk

E depois existem assuntos sensíveis abordados no jogo que podem deixar muitos jogadores aborrecidos. A xenofobia como choque de culturas entre ocidente e oriente espelha um pouco da guerra comercial que se está atualmente a viver entre Estados Unidos e China. Ou mesmo a misoginia, abusando da mulher como objeto sexual muitas vezes presente neste tipo de futuro distópico, nos diversos cartazes ou clubes noturnos. 

A cidade apresenta muita exploração vertical, com muitos edifícios a oferecerem camadas exploráveis. E  isso até chega a tornar o mapa um pouco confuso inicialmente, para encontrar certas coisas. Para além da história existem muitas atividades para completar, desde encontrar grafites e outros colecionáveis, como carros e armas únicas, assim como corridas de rua, crimes aleatórios e confrontos entre techno gangues e outros. Há sempre alguma coisa para fazer na esquina, ainda que o jogo falhe a catalogar tudo o que fazemos, de forma a aumentar o sentimento de completionist

Muito haveria para dizer deste jogo, que pretendia tornar-se um marco icónico da cultura pop nos videojogos, que um Blade Runner fez no cinema. Mas sabemos que o seu potencial vai ficar para sempre marcado por este lançamento incompleto. Se me perguntarem mais diretamente se deviam jogar este jogo? Com certeza que sim, mas não agora, apenas quando estiver mesmo concluído, seja no próximo ano ou daqui a dois anos. 

E a nota que vão ver a seguir reflete exatamente um produto do presente, já lançado, e não a sua premissa do futuro como muitos tentaram ilustrar. Pode tornar-se um dos melhores jogos do ano para muitos jogadores, outros será o seu maior pesadelo. E por  isso é complicado querer gostar de algo e tentar desfrutar do mesmo quando se luta contra bugs, mal otimização e erros que talvez o estúdio nunca tenha cometido no passado. Ou se calhar cometeram, mas não aprenderam com isso. É um diamante em bruto, que requer muito trabalho para brilhar. Certamente que vai, mas ainda não sabemos para quando e qual o custo. 

Uma coisa é certa, o lançamento de Cyberpunk 2077 pode ter mexido nesta indústria dos videojogos a um nível perigosamente próximo daquilo que foi o crash de 1983. Que para quem não se lembra, foi a perda total da confiança do consumidor nesta indústria. Isso é mau…