Pensar no universo de H. P. Lovecraft é imaginar toda uma mitologia repleta de monstros, ambientes negros e total insanidade. E todas as obras inspiradas no mestre do horror seguem essa direção. Mas e se pensássemos em algum terror psicológico, mas com ambientes altamente coloridos e repletos de luz, passado sobretudo numa ilha paradisíaca, ainda que esconda um grande  mistério?

Foi esse exercício que a espanhola Out of the Blue Games fez em Call of the Sea, uma aventura jogado na perspetiva da primeira pessoa, focada essencialmente na resolução de puzzles. Lembra-me bastante a série Myst, pela sua solidão, mistério e os desafios propostos para avançar na história. Tem um ritmo lento, ausente de ação, mas a sua misteriosa história incentiva a continuar a avançar. E não se trata de um jogo longo, bastam umas quatro horas para finalizar, considerando o tempo que ficarem presos a resolver cada puzzles. 

A aventura transporta-nos para os anos 1930, e o jogador assume Norah, uma mulher que parte à procura de Harry, o seu marido desaparecido, um arqueólogo que foi de viagem numa expedição e que deixou de dar notícias. Norah segue para o último paradeiro do marido, uma ilha no sul do Pacífico, um cenário paradisíaco, mas aparentemente deserto. O acampamento da expedição foi abandonado, sem qualquer sinal de vida. 

A história, tal como é habitual neste género, é contada sobretudo a partir de documentos, neste caso diários escritos pelo marido da protagonista e dos elementos da tripulação. Há bobines de áudio e fotografias que dão pistas do que se está a passar, mas aparentemente, à medida que se direcionam para o centro da ilha, começam a enlouquecer. O que se passa? Terão de descobrir.

A ilha é realmente muito agradável, um ambiente envolvente, florestal, onde o mar tem um papel importante, como já puderam perceber pelo título. A direção artística é excelente, conseguindo quebrar a monotonia típica deste género de jogos, onde não existem diálogos, ações ou animações. Tem um aspeto cartoon, cel-shading, mas com os elementos naturais bem realísticos. 

E à medida que Norah vai desvendando alguns dos mistérios da ilha, vai igualmente dando a conhecer-se ao jogador. A personagem sofre de uma doença rara degenerativa, que se manifesta através de manchas pretas na sua pele. 

Mas apesar da exploração da ilha, a aventura não é apenas um walking simulator, o cenário é de livre exploração e a narrativa divide-se em capítulos. Apenas um reparo para os movimentos da personagem que são muito lentos, tornando-se por vezes aborrecido andar de um lado para o outro demorando uma eternidade. 

Os puzzles são bastante inteligentes, sendo desafiantes mas sem serem frustrantes. Há observações a serem feitas, que Norah regista no seu diário como pistas. Há estátuas para rodar, formar constelações de estrelas, assim como desafios de timing. Há itens escondidos para encontrar e utilizar em locais. Sempre com o objetivo de abrir caminho. Ao que parece, Harry está sempre um passo à frente, até ao derradeiro encontro. E quanto mais se avança, mais a inspiração Lovecraftiana vem ao de cima, tornando-se mais negra. 

Call of the Sea é uma aventura agradável, com uma história competente, com monólogos da protagonista muito bem vocalizados. Ainda que muitas das suas deixas parecem forçadas pela necessidade de dar ao jogador mais feedback e contexto da história.