Estamos em 2005, no meu final de bacharelato, e início de uma curtíssima carreira como DJ. Nas famosas festas de Belas-Artes, de cuja Associação era Presidente, submeti uma setlist de um duo de DJs mais negros para aprovação, de forma não identificada. Fomos aprovados desta forma, que eu nunca gostei de nepotismos. Foi então a estreia de DJ Bleeder (o meu caro amigo Miguel Gabriel) e do DJ Darkside (eu). A primeira festa correu bem, ainda com o nervosismo de perceber que isto de passar música é um bocado mais complexo do que eu imaginava. A segunda, uma festa de Belas-Letras já correu bastante pior e definiu a morte da nossa curta carreira de DJs.

Passados 16 anos lá estou eu de volta à misturadora e aos discos. Mas faço-o não com centenas de pessoas na pista de dança a berrar porque a disparidade de mudança de músicas era muito abrupta. Mas sim num sucesso que a NCSOFT teve ao trazer um simulador musical de DJing mais de uma década depois dos jogos de música perderem o apogeu que viveram no mercado de videojogos.

Há uma surpresa e um elemento óbvio quando começamos a jogar Fuser. A surpresa é que este jogo de DJing é verdadeiramente divertido e nos agarra de uma forma que eu não esperava que um jogo musical ainda agarrasse, perdidas no tempo que estão as memórias das guitarras de plástico e do Guitar Hero. O elemento óbvio para perceber porque é que gostei tanto deste jogo, é que foi criado pela Harmonix, a empresa responsável por criar essa mesma febre na década de 2000.

Ao contrário daquilo que os seus jogos nos habituaram, em que nos limitamos a seguir instruções no timing certo. Aqui temos uma componente criativa a somar ao cumprimento de carregar num botão na altura certa. 

Levamos uma cesta de discos para cada nível. O interessante dessa cesta (e possivelmente a justificação dos 59.99€ que Fuser custa, é que as músicas são todas licenciadas de géneros e períodos diferentes. Logo no início temos um acervo que inclui Rick Astley, Billie Eilish, Ace of of Base, Lady Gaga entre muitos outros artistas. Cada disco tem 4 linhas musicais: batida, baixo, guitarra/arranjos e voz. Cada uma destas linhas corresponde a um dos 4 botões do comando e é destacando um disco e carregando no botão correspondente que colocamos o disco a tocar num dos 4 gira-discos que temos à nossa frente. O resultado: divinal.

Não entrando no aspecto mecânico do jogo, só o resultado musical de estarmos a fazer misturas ao vivo da batida do badguy, com a guitarra do Never Gonna Give You Up, o baixo do The Sign com a voz do Lips Like Sugar dá-nos um resultado interessante. Musicalmente, falando, é claro. A separação que a Harmonix fez dessas 4 “linhas” em cada uma das muitas faixas vai permitindo estas misturas interessantes.

Do ponto de vista de game design, não nos limitamos a atirar discos para o gira-discos correspondente. À medida que avançamos, vamos percebendo que colocar uma nova faixa no upbeat ou no downtempo dão bonificações à nossa pontuação, e contribuem para o contentamento do público.

Semelhante a Guitar Hero, o contentamento do público tem que ser mantido a todo o custo. Introduzir discos foram do tempo, com passagens abruptas (como eu fiz na minha curta carreira real de DJ) são penalizados e apupos, e a nossa barra de contentamento cai.

Ao contrário de Guitar Hero que nos disparava notas para acertarmos no timing certo, Fuser pede-nos misturas específicas (ter que usar faixas pop, country, etc.) temos de cumprir e transitar no tempo certo.

Fuser tem ainda um sistema de aquisição de novos discos, tanto com currency in-game, como com DLCs que expandem o acervo musical.

É surpreendente a qualidade de Fuser e os elementos verdadeiramente equilibrados que tem nas sua mecânicas. O nível de imersão e diversão que Fuser nos traz relembra o tempo áureo dos jogos da Harmonix e torna-o um jogo obrigatório e um quase renascimento do género dos music/rhythm games.