Caçada Semanal #247

De um ponto de vista artístico, é interessante ver o que é que artistas e developers contemporâneos conseguem fazer com algo que, noutros tempos, era uma limitação técnica. As verdadeiras maravilhas que vemos hoje em muitos jogos (predominantemente indies) em relação a pixel art deixa-nos reconhecer o óbvio: o que outrora foi uma limitação, é hoje uma expressão artística por si só.

Os 3 jogos dos quais falamos hoje são brilhantes exemplos disso mesmo.

Shot in the Dark [PC]

Shot in the Dark está acabadinho de sair, e o risco de encontrarem o single dos AC/DC quando o procurarem ao invés deste jogo é muito grande. Este curioso western leva a pixel art mais longe, remetendo toda a sua paleta a 3 cores apenas: branco, preto e vermelho. 

É precisamente nesta ligação da sua direcção artística com paleta de cores limitada que os seus autores incorporaram alguns dos momentos de assumida injustiça mecânica em Shot in the Dark

Num jogo onde a precisão de salto e de disparo são reis, onde disparar e carregar nos obrigam a ficar estacionários, existem inimigos e obstáculos fatais que têm a mesma cor do fundo, tornando-se, por isso, invisíveis. 

Este aspecto de injustiça que em muitos jogos é dissimulada é aqui um ponto central. Shot in the Dark só é recomendado a quem for de espírito aberto e ciente dessa característica.

Nine Witches: Family Disruption [Switch, PS4, Xbox One, PC]

Os jogos point ‘n click estão bem e recomendam-se. Para quem não tinha percebido essa fácil constatação, Nine Witches: Family Disruption mostra-nos como é que uma pixel art magnífica se pode interligar com algumas tentativas de repensar um género com décadas.

Em Nine Witches: Family Disruption controlamos dois personagens distintos: Akira, que pode matar nazis, o Professor Krakovitz que fala com espíritos. Neste jogo há a inclusão de segmentos de acção que divergem o tom habitual de um point ‘n click. São nestas secções que utilizamos Akira, o assistente, para combater nazis, zombies e outras criaturas do sobrenatural. Para nossa infelicidade, os momentos de acção são menos divertidos do que o resto do jogo.

É claro que estes segmentos de acção não são o core de Nine Witches, já que esse assenta na resolução de puzzles clássicos das aventuras-gráficas. Quebra-cabeças acessíveis, pautados por muito humor que aponta ao melhor da LucasArts mas que resvala para a simplicidade, falhando o alvo a quase totalidade das vezes.

Nine Witches: Family Disruption consegue, ainda assim, ser uma excelente aventura-gráfica desta nova vaga de jogos que partilham as mesmas inspirações que todos nós temos. E é um jogo obrigatório para todos os fãs de point ‘n clicks.

TOKOYO The Tower of Perpetuity [Switch, PC]

A semana passada falámos de um tactical strategy turn based game com elementos de roguelite, já jogámos um jogo de Solitário com elementos de roguelite, e agora só falta um action platformer com elementos de roguelite. Mas este ainda não é o caso, apesar de estar perto.

TOKOYO The Tower of Perpetuity é o segundo platformer 2D com níveis proceduralmente gerado, e é indubitavelmente mais justo que Super Meat Boy Forever. 

Em Tokoyo subimos a titular Tower of Perpetuity, derrotando os inimigos e os obstáculos proceduralmente gerados até enfrentarmos os bosses que assinalam pontos chaves da nossa progressão.

Cada vez que morremos há uma classificação da nossa prestação com outros jogadores pelo mundo. A geração procedural de níveis funciona aqui como o elemento igualizador deste desafio, visto que o nosso desafio é quase puramente definido pela nossa destreza a controlar a protagonista, e na nossa capacidade de adaptação aos novos níveis.

Memorizar os níveis é praticamente tempo perdido, já que a cada 24 horas (reais), a torre é reconfigurada e temos de ver pela primeira vez os novos desafios que o algoritmo nos criou. 

Ainda em Early Access, TOKOYO The Tower of Perpetuity é mais um excelente exemplo de pixel art, diferente dos dois casos anteriores, mas igualmente deslumbrante.