
A morte é uma presença constante na nossa vida. Numa era em que vivemos há quase 12 meses um dos períodos mais dolorosos a nível global, e possivelmente aquele que nós, no dito mundo ocidental, sentimos verdadeiramente na pele. A dessensibilização de ver apenas do outro lado do mundo a morte a atingir centenas e milhares a cada dia, ceifados mais cedo do que a ordem natural ditavam, levou-nos a sentir o impacto da pandemia de forma ainda mais dura. A nossa arrogância primeiro mundista não estava preparada para uma crise humana e sanitária destas. E cedo transformámos a empatia canalizada pelo medo em raiva e apologia do desconhecimento.
Em 11 meses de pandemia, três dos meus melhores e mais antigos amigos perderam os pais. Não consigo nem quero imaginar o sofrimento pelo qual passaram. Não basta a dor da morte, acutilante em qualquer altura da vida, mas que deve ser amplificada pela solidão imposta pelas limitações sanitárias. E exponenciadas pela impossibilidade de terem o merecido apoio de todos os que os amam.
De tantas imagens duras de gente que está a sofrer a pandemia com uma intensidade muito superior à nossa, penso que só este fim-de-semana devo ter visto a imagem mais dolorosa de todo este período. Essa foto não era a de serviços ou camas de hospital, nem do desespero e exaustão de todos aqueles que andam a entregar o seu corpo há quase um ano para salvar o maior número de vidas possíveis. A foto que vi no Público era mais desoladora, pela solidão que representava. Um funeral ao cair da noite, sem ninguém, com o dono da funerária a fazer videochamada do caixão do defunto para a sua família. Apenas isto. Um adeus virtual, electrónico. A morte, ali desacompanhada, sob a escuridão e o silêncio sepulcral da noite.

A necessidade da despedida não é apenas humana. Tantos outros animais como nós – e ainda há quem teime em chamar-lhes irracionais – sentem a dor de perder alguém que amam, e despedem-se, à sua forma. E ao longo da História fomos estabelecendo lendas e folclore em torno da despedida na hora da morte, ou da falta dela. Daqueles que ficam presos entre mundos, mortos, mas sem esquecerem o que os prende à terra. Espíritos agrilhoados à ausência de um adeus que lhes permita seguir em frente para o pós-vida.
The Medium, do estúdio Bloomberg Team (criadores do sofrível Blair Witch) desenvolve-se em torno dos dois mundos, o dos vivos e o dos mortos, e o espaço que fica entre ambos. As semelhanças temáticas com duas séries que foram contemporâneas uma da outra são bem evidentes, a homónima Medium com Patricia Arquette e Ghost Whisperer com Jennifer Love-Hewitt. Em ambos os casos, assim como neste The Medium, a protagonista tem a capacidade de comunicar com os recém-mortos, e ajudá-los na transição para o pós-vida.
É com essa capacidade que controlamos Marianne, uma jovem que não está apenas a organizar o funeral do seu pai adoptivo, mas que terá, com a sua habilidade única, de ajudá-lo a atravessar “para o lado de lá”.
Não seria de estranhar a ironia do contexto deste The Medium, o de Marianne e o seu pai possuírem uma funerária, o que nos traz uns laivos de Six Feet Under para o enredo. Os primeiros minutos enquadram-nos nessa missão, à medida que percorremos com Marianne a casa solitária onde o seu pai vivia, um apartamento no andar de cima da morgue e da funerária onde ambos trabalhavam.

É no processo de preparação do cadáver do seu pai que Marianne é contactada por Thomas, que, para além de conhecer a sua capacidade de comunicar com os mortos, lhe indica que terá de viajar até a uma estância de férias abandonada noutra cidade polaca próxima de onde vive para descobrir a verdade sobre si.
The Medium não é o primeiro a explorar a dicotomia entre mundos. Nem precisamos de recorrer a The Legend of Zelda nem de nos lembrarmos do magnífico Soul Reaver, com uma temática similar. Mas o que The Medium, faz, e de forma brilhante, é a simultaneidade de deambularmos os dois mundos, e de colocar Marianne como um pilar entre ambos, sem pertencer verdadeiramente a nenhum, ou aos dois ao mesmo tempo.
Desde os primeiros vídeos e concept arts disponibilizados, percebemos que uma das maiores forças de The Medium seria a sua direcção artística. Tendo finalmente jogado o jogo, é fácil reconhecer que esta pré-sensação se concretizou: a estética de The Medium é indubitavelmente o seu ponto mais forte. Não fosse a inspiração nos mundos do pintor surrealista Zdzisław Beksiński, no onirismo orgânico das suas paisagens, aterradoras e marcantes.
A dicotomia entre os 2 mundos, entre o dos vivos, dentro do hotel desolado em ruínas, e dos mortos, similar mas onde todas as estruturas parecem cobertas por estruturas fúngicas, que tornam o tom ocre desta dimensão ainda mais desoladora.

The Medium é comunicado como um jogo de terror psicológico e é-o, nas sua essência. Apesar do limitado acervo de poderes sobrenaturais à disposição de Marianne, acho óptimo que os seus criadores não tivessem cedido à pressão de o transformar num survival horror ou um action game. Não existe combate neste jogo, ainda que existam inimigos, especialmente o antagonista, The Maw, cuja voz é providenciada pelo grande Troy Baker. As sequências com o vilão oscilam entre perseguições (sem platforming) semelhantes aos do Dahaka, e outras tantas com sequências furtivas aterradoras que me remeteram para outro excelente jogo de terror psicológica (mas cyberpunk e feito precisamente por estes polacos da Bloober Team) The Observer.
Exceptuando estas zonas do jogo, tudo o resto está dividido entre sequências narrativas e muitos puzzles, muitos deles de dificuldade acessível que nos obrigam a interagir e a resolver elementos oscilando entre os 2 mundos.
Muitos destes puzzles são resolvidos com acesso ao sobrenatural, com Marianne a absorver energia mística no mundo dos mortos para disparar uma rajada energética e pôr a funcionar disjuntores e quadros eléctricos. Ou a capacidade de termos uma experiência extra-corpórea e nos afastarmos do ponto onde o nosso corpo está em ambos os mundos para alcançar zonas inacessíveis. O risco, aqui, é que a nossa alma se vai desfazendo à medida que o tempo longe do nosso corpo passa.

Como afirmei, The Medium vai ser memorável, mas sobretudo pela sua direcção artística. A narração incorre em muitos dos clichés e ingredientes de outros media congéneres, e sinto que, para um medium tão imersivo quanto os videojogos, se perdeu uma forma de falar da perda e da transição da morte de uma forma mais inteligente e profunda do que a que aqui resultou. Com um standard comparativo surpreendente e criativo como Spiritfarer de como abordar de forma arrebatadora a temática da morte, The Medium falhou, por falta de visão ou talento, a oportunidade para explorar este tema. Cumpre-se como uma interessante história de terror sobre uma médium, mas pouco mais do que isso.
Ao cair do pano, sentimos que The Medium é sobretudo um conjunto tremendo de boas ideias, em termos de poderes, puzzles e potencialidades de utilização criativa dos dois mundos, mas que fica, como a sua protagonista, na linha média de duas dimensões: neste caso entre os clichés temáticos e uma promessa de originalidade perdida. Um bom jogo com uma execução artística memorável, embrulhada numa série de ideias que ficam a meio caminho de serem cumpridas.













