
The Medium era um dos jogos mais aguardados deste início do ano. Um exclusivo Xbox que falhou no lançamento da consola, desenvolvido pelo estúdio polaco Blooper Team, apadrinhado pela Microsoft, como um título disponível no primeiro dia no Game Pass. Olhando para o histórico da equipa, constam alguns títulos curiosos, nomeadamente o excelente Observer, um thriller cyberpunk protagonizado pelo falecido ator Rutger Hauer, não sendo coincidência o ambiente inspirado em Blade Runner.
Depois temos os títulos de horror Layers of Fear e a mais recente adaptação a videojogo de Blair Witch. Títulos interessantes, mas longe de serem memoráveis. Esperava-se esse salto qualitativo na sua estreia na nova geração. A premissa de um jogo de terror psicológico com a curiosa mecânica de split-screen, dando o controlo simultâneo da mesma personagem em dois planos distintos, o real e um fantasmagórico, em que a personagem lida com pessoas mortas, uma espécie de limbo.
Mas os trailers conseguem criar uma atmosfera apetecível e criar algum hype, e isso foi conseguido para este jogo. Apenas quando se começa a jogar e a compreender as inspirações do jogo, notamos que se trata de um camaleónico, faltando-lhe uma identidade própria. Para começar o jogo adota um design de câmaras fixas, em cenários pré-renderizados, inspirado em títulos como os Resident Evil originais ou Alone in the Dark, por exemplo. Obviamente que sendo um jogo atual, as câmaras têm algum movimento e os cenários fazem um pouco de scroll, mas mantém aquela irritação de mudar constantemente os ângulos de câmara, o que faz com que a personagem esteja constantemente a mudar de direção, baralhando o jogador.

Depois, a tal mecânica baseada no split-screen com dois planos, que só está presente esporadicamente em algumas partes, lembra bastante Dark Seed, uma aventura point and click dos anos 1990, que obrigava o jogador a alternar entre um mundo real e o alienígena nos mesmos locais. O que se faz num lado tem efeitos imediatos no outro. Neste caso, podemos alternar entre uma personagem e outra quando queremos interagir com um objeto de um lado e do outro. Mas a meu ver, esta mecânica foi subaproveitada e no geral, os puzzles são bastante básicos.
Ainda no que diz respeito a inspirações, este The Medium lembra bastante o ambiente macabro de Silent Hill, sobretudo o mundo do limbo, cheio de elementos orgânicos, ferrugem e destruição. E claro, algumas personagens macabras e um ou outro monstro. Mas não se iludam, o jogo pode ter uma carga psicológica carregada, mas de assustador tem muito pouco. Talvez um ou dois jump scares em toda a aventura. Há mesmo uma semelhança a BioShock 2, em que existe praticamente um único inimigo que persegue a personagem ao longo de todo o jogo.
Sim, se estão à espera de ver ação neste título, desenganem-se. O jogo é praticamente todo linear e passamos muito tempo simplesmente a andar, quase um Walking Simulator. Os puzzles são normalmente muito simples, nomeadamente procurar um objeto que está na mesma sala ou noutra ao lado para usar. Assim como usar as habilidades de energia da versão das trevas para ativar interruptores que no lado real ativam algum dispositivo.

As únicas ações disponíveis são um escudo para passar em certas partes infestadas de insetos e um clarão que atordoa o inimigo que nos persegue. Há uma segunda personagem que controlamos que também faz escudos e interage telecineticamente com partes do cenário, todos eles pré-definidos. Por isso, não esperem acção ou que seja. E até há sequências de perseguições se quisermos comparar a Crash Bandicoot.
Por fim, em algumas partes da aventura contem com ação furtiva. E não tenho a certeza que isto sequer funcione, sendo das partes mais frustrantes do jogo e curiosamente, as únicas onde talvez vão ver ecrãs de game over. Considerando os cenários pré-renderizados, temos de andar agachados e não respirar na presença do inimigo. Mas este faz movimentos erráticos e algo aleatórios, sendo mais uma questão de sorte passar as cenas do que propriamente skills ou capacidade de antecipação ao monstro.
Graficamente estamos perante um jogo competente em algumas partes. Considerando que a aventura começa numa morgue, e depois o mundo do limbo inicialmente também é bastante atmosférico. Chegou mesmo a lembrar-me os jogos da Remedy, como Alan Wake e Control, pelos elementos abstratos surreais. Mas à medida que avançamos, passamos por alguns cenários mais pobres e limitados, repletos de barreiras. Apesar dos objetos serem salientados, a tendência é andarmos a dar barrigadas às paredes a ver se encontramos mais alguma coisa, tal como fazíamos em Resident Evil. Há efeitos de partículas, sombras e iluminação credível, mas os cenários em si são bastante estáticos e vazios. Também as animações das personagens deixam bastante a desejar.

O ambiente sonoro é inquietante, repleto de ruídos, sempre tensa, procurando aguçar os sentidos dos jogador. Mas acaba por ser anti-climático, porque passamos a maior parte do tempo à espera que algo aconteça, quando raramente acontece. E depois a história é sempre enigmática, passamos a maior parte do jogo sem entender o que se está a passar. Sempre com o suporte de cartas, postais e mesmo objetos com memórias para descobrir que tentam ilustrar a história, mas sem o conseguir.
De um modo geral, The Medium revela-se um jogo medíocre, sobretudo quando as expectativas gerais eram bastante elevadas. Foi uma oportunidade perdida da Blooper Team nas mecânicas split-screen, assim como na entrega de uma experiência de terror.













