Eu tenho a sorte de apenas ter vivido em democracia, e basta-me a consciência do que se passa nas (demasiadas) ditaduras que existem pelo mundo para perceber tudo o que tanta gente à minha volta fala com tristeza em relação aos anos do Estado Novo. 

Esta noção da “sorte” de vivermos em democracia muitas vezes perde-se, para outra tanta gente, pelos benefícios que a própria democracia traz. A frase que muitos atribuem erroneamente a Churchill de esta ser a pior forma de governação exceptuando todas as outras até pode ter um fundo de verdade. Não existem forma de organização político-sociais perfeitas, nem nunca existirão. Perguntem ao Aldous Huxley, e ele dir-vos-ia que mesmo o que parece perfeito, à superfície, esconde uma série de perversões e repressões.

A democracia é, por isso mesmo, a forma menos má, mas é aquela pela qual todos deveríamos lutar. 

A política não é atractiva para a população em geral, infelizmente. Não sei em que ponto a meio do caminho da expansão social e tecnológica acabámos por ter colectivamente uma visão que mistura a noção de participação política e partidarismo, quando as duas coisas não são mutuamente exclusivas. Esse é, possivelmente, um dos factores que têm levado a um afastamento da participação e discussão cívica por parte da população geral, substituída pelo queixume vazio nas redes sociais. Facto que tem aberto, e muito, a porta da democracia a movimentos populistas de direita, que exploram essa futilidade das redes sociais para atrair a população menos informado.

Se o interesse pela política se remete para um nicho, os videojogos sobre política são um micro-nicho. No meu caso, como seria de esperar, o meu interesse com jogos que tenham esta temática é extremo. Por isso recebi com agrado a quarta iteração da série Democracy, que surge como a versão mais complexa e profunda até hoje.

Como simulador de política, muitos jogadores fora do seu espectro interesse apelidá-lo-iam como um mero simulador de menus. E na prática, é. Um jogo onde passamos grande parte do tempo a ler e a analisar tabelas, medidores de impacto económico, PIB, produtividade, satisfação e dezenas e centenas de outros indicadores. 

Democracy 4 tem um subtil momento de genialidade e isenção num aspecto simples: a de nos relembrar que a par das formas de governação, as ideologias são todas falhadas em alguns dos seus elementos. Não existem ideologias perfeitas. Não existem posições políticas que sejam uma resposta universal que beneficie toda a gente. Porque, quer queiramos quer não, todas as decisões e tomadas de posição políticas geram injustiças para alguém. Todas as estruturas políticas têm grupos beneficiados e prejudicados. A diferença é perceber a dimensão entre estes dois grupos, e todos os que estão no meio, e tentar encontrar o máximo de justiça nesta dicotomia.

Como várias vezes afirmei, e tornei público, eu sou um social-democrata. Por social-democrata, entenda-se, o espectro ideológico de centro esquerda, com pouca ou nenhuma conotação, no caso português, nos dias de hoje, com o partido que possui essa nomenclatura. Mas o conhecimento profundo de uma ideologia e a crença de que ela é (putativamente) a forma mais justa de organizar uma sociedade deverá acarretar a consciência das suas fraquezas e vulnerabilidades. Porque, por muito que a maioria das pessoas se recusem a essa discussão, todos os posicionamentos incorrem em injustiças para alguém. E ao reconhecer a firmeza ideológica da minha consciência social-democrata, sei exactamente o revés de algumas das minhas convicções mais fortes. Reconheço-as, e sinto que são um mal menor e necessário à equidade social.

Democracy 4 é excelente na sua abordagem. De uma rede intrincada de decisões, tabelas e indicadores, mostra-nos os efeitos positivos e negativos das nossas decisões. Sem politiquices ou partidarismos, sem visões inquinadas ou clubismos ideológicos. Mostra-nos de forma isenta a projecção dos números e os efeitos positivos e negativos de cada decisão. A forma como um desinvestimento nas forças de segurança pode ter repercussões noutros grupos sociais e no potencial aumento da criminalidade. Ou como o investimento num sector pode deixar outro com mais dificuldades, pela consciência que o lençol orçamental governativo não é omnipresente, e para cobrir uma zona tem de se deslocar e deixar outra a descoberto.

Sendo um jogo de nicho, e contando no seu lançamento em Early Access com situações reais e contemporâneas de países como os EUA e o RU, colocando-nos na pele de presidentes (em regimes presidencialistas) ou na de Primeiro-Ministro, com todas as dificuldade e desafios inerentes à governação. Democracy 4 é, ainda que em alpha, o apogeu dos simuladores políticos, conseguindo manter a difícil isenção de demonstrar, numérica e estrategicamente, as consequências de cada decisão política e governativa que tomamos.