
A política, como diz ontem, é um interesse limitado para a maioria das pessoas. Os jogos que sejam puramente simulação de política como Democracy 4 são um micro-nicho destinado a um grupo hiper-limitado de pessoas que tem prazer na política: na sua discussão, no seu debate, nas suas fraquezas e fragilidades. Mas, como referi em relação a Democracy 4: é muito difícil um jogo brilhante e politicamente detalhado como este conseguir ser apelativo fora das franjas dos jogadores com uma grande afinidade com a vida política.
Suzerain, um jogo indie focado na política, mas sob uma égide de aventura textual, poderá ser o meio caminho para trazer mais gente a discutir e a viver a política.
Na política raríssimas são as vezes em que uma decisão não é o menor de dois ou mais males. Um caminho traçado na esperança de ser o mais consensual possível, tendo a noção que é impossível encontrarmos escolhas completamente consensuais.

Com um foco dado a uma narrativa política, onde nos vemos a braços com o destino de um país devastado, altamente dividido, que em muito nos lembra Berlim do pós-queda do muro.
Há outros jogos que eu considero que fazem um brilhante trabalho de tornar a política apelativa, nomeadamente Tropico, que ainda mistura um excelente city builder com o seu humor natural. Mas Suzerain quer fazê-lo com um reality check duríssimo: as nossas decisões vão ter sempre implicações graves num segmento da população.
Essa complexidade e divergência de posições é ainda mais notório no elenco que nos acompanha. Um grande erro que tendemos a cometer, especialmente quando olharmos para pessoas “do outro lado da barricada” das nossas ideologias é esquecermo-nos na individualidade de cada um. Mesmo em cenários autocráticos existem nas estruturas governativas diferentes correntes, das mais moderadas às mais conservadoras. Vejamos um caso real e actual com as sabidas divergências dentro de uma e estrutura tão poderosa quanto o Partido Nazi, onde diversos dirigentes tinham visões distintas para o Império.
Suzerain mostra-nos isso com o nosso painel de conselheiros: cada um deles com posições, preocupações e nuances ideológicas mais vincadas. O loop do jogo passa sobretudo por ouvi-los, reflectir as suas opiniões e escolher o caminho possível na esperança de não afundar ainda mais a nossa nação ficcional de Sordland.

É nas intrincadas relações e decisões políticas que Suzerain brilha, especialmente para aqueles que têm noção das turbulências geopolíticas do nosso mundo do pós-Segunda Guerra. De vermos à nossa volta as movimentações que vão existindo e os riscos de golpes de estado, militares e civis, e a nossa potencial incapacidade para lidar com a força desses eventos.
Suzerain é na sua essência uma ode narrativa às dificuldades, virtudes e fraquezas da organização social e política, mais até que de definição ideológica. É-nos possível jogá-lo com uma perspectiva ideológica específica, tal como Democracy 4, mas não é esse o core de Suzerain. Esse núcleo conceptual, tão necessário à população geral que vai sendo desgastada nas lógicas populistas de erosão das instituições democráticas, é a de demonstrar que a gestão e governação de uma estrutura tão complexa quanto um País, é uma tarefa difícil.

O populismo utiliza essa simplificação institucional polvilhada com a tónica da corrupção para criar uma separação entre o eles (“os políticos”, “os governantes”) e o nós (“os governados”, “os honestos”). Nesse processo retira o realismo da dificuldade e desafio do exercício governativo, uma racionalização de escala que não está ao alcance da maioria da população.
É neste Suzerain que, com uma linha narrativa em que quase todos os caminhos são tortuosos na difícil tarefa de reerguer um país em tumulto, esse exercício serve de antídoto ao populismo. É nesse exercício de empatia política e governativa que toda a linha ficcional de Sordland e da nossa acção enquanto Presidente desse país assume um tremendo patamar de pedagogia política.
É mais do que óbvio que este é também um jogo de nicho, mas pela sua forte vertente narrativa (assoberbada por camadas de política) que é um pouco mais acessível que um simulador de política como Democracy 4. Fãs de Yes, Your Grace ou mesmo Reigns poderão ter aqui neste jogo uma visão mais real, e mais dura da vida política, e perceber que ter o destino de tanta gente nas mãos pode não ser tão glamoroso quanto se imagina.