Não sei já todos os géneros possíveis e imaginários de videojogos ganharam experiências em realidade virtual, mas diria que a par de aventuras point ‘n click, visual novels são potencialmente uma das coisas mais estranhas a chegar ao VR.

Talvez pela surpreendente falta de competição – facto inédito num mercado tão povoado quanto o dos videojogos – o jogo Tokyo Chronos, uma pura visual novel com estética anime foi um grande sucesso, motivando o lançamento de uma sequela que chegou ao PSVR em Dezembro passado. ALTDEUS: Beyond Chronos veio demonstrar que o micro nicho encontrado pelo estúdio MyDearest de usar o VR para explorar a interactividade dentro um género que muitos acusam de ser excessivamente limitado.

Para aqueles que, como eu, passaram ao lado de Tokyo Chronos, ALTDEUS: Beyond Chronos pode perfeitamente ser jogado sem qualquer conhecimento do jogo original. A história de ALTDEUS passa-se 200 anos depois do primeiro jogo, e não existe uma barreira narrativa que nos impeça de o usufruir na totalidade. 

A maior barreira para mergulhar em ALTDEUS é, possivelmente, o seu preço. Pagar 39,99€ por este jogo, por tremenda qualidade que tem, parece-me um valor altíssimo para uma visual novel em VR.

É verdade que os níveis de investimento do estúdio MyDearest do primeiro jogo para este subiram, o que se sente, por exemplo, com o voice acting total em japonês e inglês. Mas o preço estabelecido coloca-o numa margem psicológica diferente, com estes quarenta menos um euro a soarem caros demais para uma visual novel, mesmo que em VR.

As semelhanças temáticas com Neon Genesis Evangelion são mais do que óbvias. A protagonista, Chloe, foi criada como a soldado perfeita, destinada a pilotar os mechas Makhia contra os seres alienígenas colossais chamados Meteora. Mas as semelhanças com a obra de Hideaki Anno não se ficam por aqui: a própria protagonista é sisuda e altamente inexpressiva, escondendo a sua depressão e o seu sofrimento. Temos sorte de Chloe não se chamar Rei.

Há uma tremenda inteligência dos criadores de ALTDEUS em colocarem grande destaque ao tempo passado no cockpit do nosso Alto Makhia. Quando recebi o primeiro batch de jogos de PSVR senti que aquele que melhor criava uma experiência tremenda de realidade virtual era EVE Valkyrie, visto que nos enclausurava no cockpit, exponenciando as sensações que o VR nos traz.

Apesar de este não ser um jogo de acção e as interacções com os botões dentro do nosso mecha serem quase extensões das ramificações e decisões narrativas que fazemos, o ambiente de cockpit ajuda-nos na imersão do contexto narrativo do mundo de ALTDEUS.

As sequências fora do cockpit envolvem um sistema de quase realidade aumentada (sim, eu sei que estou a falar de VR, mas a ideia do interface pelos olhos de Chloe e o de transmitir um ambiente de AR) onde as ramificações de diálogo vão estabelecendo os caminhos narrativos dentro do enredo. São elas, aliás, quem vai definindo os multiple endings que esta visual novel VR nos traz.

Alguns momentos de exploração de espaços fechados são tão superficiais que me parece que foram colocados apenas para justificar a experiência VR e para que os jogadores não pensem: mas será que eu tenho de ter um dispositivo VR nos olhos para jogar uma visual novel? Não, não tens. O que não invalida de forma nenhuma a vontade de fazer diferente que este jogo tem.

Quem vir apenas imagens do jogo sem contexto poderá ser iludido quando ao seu conteúdo, a realidade é que não esperar grande acção. Mas ALTDEUS, apesar das semelhanças com Evangelion, consegue não só contar uma boa história como tem o arrojo de querer fazer algo mesmo muito diferente com um género aparentemente limitado como as visual novels. O preço, de 39,99€, demoverá muitos compradores, compreensivamente, mas esta é a melhor experiência de visual novels em VR a chegar tanto ao PC como ao PSVR.