Ser um roguelite, da Team17, por turnos, com um estilo artístico extremamente apelativo não chega para darem já uma vista de olhos na página do jogo?

Bem, como qualquer youtuber genérico diria, vais ter que ver ler para descobrir.

Como no famoso jogo Super Hot (que diga-se já é um título que poderia ser usado como o mais novo jogo da franquia Super Seducer), o mundo apenas se move quando o jogador toma alguma ação, portanto podemos ficar ali a pensar eternamente na nossa jogada (tal como aquele amigo que está a decidir se compra uma carta ou constrói uma aldeia no Catan) que nada acontece até que tomemos a nossa decisão (sim, podia ter comparado com o Pokémon Mystery Dungeon, que é extremamente semelhante mas ganho pontos extra por cada link que o editor conseguir fazer para outros artigos).

Em Crown Trick, controlámos Elle, uma menina extremamente friorenta (nota: acho que não a vi tirar os braços de dentro do casaco durante todo o jogo. nota2: existe também outra possibilidade, sobre a qual não posso fazer humor gratuito, mas diga-se que no caso de estarmos a discutir ela não daria o braço a torcer).

Elle é enviada para o mundo dos pesadelos sem a companhia de Leonardo Dicaprio e rapidamente se vê rodeada de monstros que não consegue derrotar sozinha, convenientemente a sua coroa trata de a munir de poderes extremamente necessários para a situação em que ela se encontra e salva-lhe a vida.

Elle descobre então que o Duque Vlad é o vilão genérico do jogo e então é convencida pela Coroa a derrotá-lo para trazer equilíbrio ao mundo dos sonhos, bem como ao mundo real tal como o avatar.

A história não é nada revolucionário, coisa bastante comum nos Roguelites, Roguelikes e nos Rogues em geral, especialmente aqueles feitos pelos amigos que jogam Dungeons and Dragons só para mostrar que conseguem escrever números muito grandes e matar o vilão antes do meu bardo lhe conseguir cantar “Os Sonhos de Menino” do Tony para o convencer a juntar à nossa party.

Depois do excelente tutorial, (o jogo possui bastantes elementos complexos para se safar com a abordagem típica de nos lançar aos lobos sem dizer nada) o jogador basicamente tem que explorar vários andares de dungeons até encontrar o boss final, para desbloquear o conteúdo seguinte. Isso, ou o que acontece bastante mais frequentemente: morrer e voltar ao lobby.

No lobby encontrámos o nosso típico sistema de progressão, onde podemos usar os elementos que apanhámos na nossa mais recente aventura pela terra dos pesadelos para desbloquear conteúdo, que nos facilitará as próximas travessias, bem como melhorar Ellie e a Coroa.

E como funciona o gameplay em Crown Trick? Perguntam vocês há três parágrafos.

As masmorras em Crown Trick são uma espécie de Final Fantasy Tactics, mas sempre a andar, o chão é divido em quadrados, e todos os ataques e ações estão limitados ao número de quadrados que conseguem afetar.

Para mim que sou o típico jogador do “vou estar aqui a atacar o mais longe que conseguir de ti“, Crown Trick foi uma adaptação boa, mas complicada, as armas têm todas um alcance muito pequeno, e as que têm um alcance longo (que é tipo 3 quadrados), possuem imensos problemas, como o caso de falharem ataques regularmente, ou teres que perder um turno para recarregar a tua pistola de tiros mágicos. (gosto de imaginar que é o tempo que Ellie perde a abrir a pistola e rodar um bocadinho as pilhas).

Ficámos então com vontade de usar armas de combate corpo a corpo, mas isso vem com aquela parte que eu não gosto que é… estar corpo a corpo com os adversários, o que cria aqui a escolha interessante entre optimizar o dano e levar na boca morrendo rápido, ou andar ali a jogar ao bate e foge e morrer devagarinho.

Crown Trick é muito subtil na complexidade que esconde nas suas mecânicas, um jogador distraído poderia completar o jogo inteiro sem sequer se aproveitar das combinações entre os vários elementos do jogo, sem se dar ao trabalho de destruir o barril de óleo para seguidamente sem querer explodir com um barril de dinamite que faz toda a sala arder e lhe tira os últimos dois pontos de vida que lhe faltavam e ter que começar o capítulo de novo. (história hipotética que nunca me aconteceu).

Os minibosses que derrotámos pelo caminho são adicionados ao nosso Pokédex livro e a qualquer altura que encontremos o computador do Bill  a próxima sala do boss podemos trocar os poderes que os bosses nos deixam usar, e como é óbvio, a nossa Pokémon Ellie não consegue aprender mais do que 4 poderes, esquecendo-se dos extras que tenhamos connosco.

Os poderes dos bosses em conjunção com as armas criam uma variedade quase ilimitada de possibilidades de jogo: queremos maximizar o dano e destruir um adversário por turno? Queremos juntar os adversários e destruir de uma vez com poderes de área? Queremos matar os adversários aos bocadinhos com veneno enquanto fugimos? Queremos fugir muito enquanto os nossos summons tratam do assunto? Tudo é possível, dependendo do que te calhar na rifa.

Como em outros roguelikes e roguelites, temos que construir a nossa personagem conforme os itens e upgrades que vão saindo e esperar que de alguma maneira funcione, entre armas, poderes dos minibosses, roletas de gambling onde podemos estourar dinheiro, relíquias com poderes passivos, upgrades com efeitos aleatórios que até podem nem dar jeito, lojas com descontos sorteados em itens também eles gerados aleatoriamente, ISTO TUDO NUM MAPA TAMBÉM GERADO À SORTE, com salas que até challenges random podem ter… CROWN TRICK É UM CAOS DESCONTROLADO, mas bom.

A isto podemos juntar ainda o poder nativo de Ellie de se teleportar de um lado para o outro um número limitado de vezes sem gastar um turno (para fugir, posicionar melhor, ou preparar aquele combo demoníaco), com o sistema de Stun baseado nos combos que fizemos de seguida, e podemos perceber que há mesmo muita coisa para explorar neste jogo.

O melhor, tal como em todos os jogos do género, é o sentimento que temos quando finalmente nos saem todas as escolhas entre coisas que combinam perfeitamente umas com as outras na mesma run, em que simplesmente destruímos tudo à nossa frente sem sequer largar um ponto de vida. O verdadeiro EU SOU O MAIOR DA MINHA ALDEIA.

Considerando isto tudo, Crown Trick é agora um dos meus roguelites favoritos, apenas pecando na história genérica e na falta de conteúdo proporcionada também por ela. Para um jogo que possui tanta profundidade em termos de itens, combinações e gameplay, sinto que poderia beneficiar de um pouco mais de longevidade em termos de bosses finais, arcos de história e capítulos jogáveis.

Vinte e cinco horas de jogo depois completei finalmente o capítulo final do jogo, e tenho a dizer que se há algo que me fica na memória é a personalidade que este jogo tem, o estilo visual é excelente, com uma boa banda sonora e efeitos de áudio on point a acompanhar.

Nota final, se algum dia a vossa vida for salva por uma coroa… não passem o jogo todo a chamar-lhe Coroa, sejam mais fofos.