Caçada Semanal #249

Às vezes a nostalgia trazida pelas memórias de infância têm destas coisas. Nestes tempos estranhos da pandemia olhar para a quase despreocupação dos meus filhos e pensar na que eu próprio já tive. Daí a pensar nas tardes de fim-de-semana à frente da TV com programação familiar, em especial aqueles concursos especiais como os apresentados por históricos como o Carlos Alberto Moniz. Se a música da Arca de Noé não está na vossa cabeça desde que leram o título, então algo de errado se passou com a vossa infância.

A Caçada de hoje traz-nos dois jogos com temática animal. Vamos lá conhecê-los que, citando o tio Carlos, amigos destes não são demais na vida.

BROK the InvestiGator – Prologue [PS4, Nintendo Switch, PC]

Acho que esta semana não fiz aquela afirmação tantas vezes proferida que eu deveria tatuá-la: eu adoro point ‘n click games. Mas misturar point ‘n click com outros géneros não é uma tarefa nem fácil, nem acessível, e quando alguém o consegue fazer com sucesso o resultado é surpreendente.

Portanto preparem-se para a genial ideia de BROK the InvestiGator (excelente trocadilho, já agora): neste prólogo gratuito conhecemos o primeiro point ‘n click side scrolling beat ‘em up de sempre. Ou muito me engano ou este é possivelmente o mais inesperado crossover de géneros com aventuras-gráficas, e depois de correr o prólogo inteiro tenho que admitir que a ideia é excelente.

A história de BROK the InvestiGator é mais dura e pesada do que a direcção de arte deixa antever com o seu aspecto cartoonizado. A capacidade (ou incapacidade) de lidar com a morte de alguém e o efeito que isso pode ter na nossa capacidade de não fazer ruir relacionamentos é um dos temas subjacentes a este jogo onde, relembro, temos sequências de combate side-scrolling intercaladas com momentos de point ‘n click.

Com um combate algo punitivo, fruto da sua falta de polimento, quando morremos regressamos com pouco HP a um ponto anterior onde houve auto-save. Narrativamente encontramos outro momento interessante: as escolhas que fazemos nas bifurcações do enredo levam-nos a caminhos históricos diferentes, e no final do prólogo é-nos mostrada a percentagem de jogadores que escolheram o mesmo que nós.

BROK the InvestiGator, cujo prólogo está gratuito no Steam, deixa-nos a desejar por jogar o jogo inteiro, e perceber como é que este inaudito crossover de géneros irá resultar no lançamento final.

ABS vs THE BLOOD QUEEN [PC]

Poucos jogos indie (e atrevo-me a dizer até de marcas high-profile) tiveram a capacidade de rejuvenescer o interesse e o mediatismo em torno das máquinas de arcada como Killer Queen fez. É com uma grande alegria em torno da minha militância por indies que vejo esta série ter tanto sucesso comercial que lhe permitiu já ter um spinoff.

ABS vs THE BLOOD QUEEN é um retro platformer com níveis proceduralmente gerados. Um daqueles jogos na senda desta nouvelle vague de retro platformers hardcore que nos exigem uma destreza sobrenatural para serem ultrapassados.

Mas ao contrário de outros jogos do género, onde a memorização dos padrões dos inimigos ajuda, em ABS vs THE BLOOD QUEEN isso é um feito menos provável, já que sempre todos os dias os níveis reconfiguram-se, e tornam o desafio uma questão mecânica e não mnemónica. Alimentando desta forma um espírito arcade de bater classificações, mas em termos globais.

Ainda em Early Access e altamente desafiante e perfeito para quem conhece Killer Queen, já que é sobre este jogo que foi desenvolvido. Com controlos e mecânicas semelhantes, esta é uma excelente abordagem single player sob as mesmas premissas que tornaram KQ tão famoso.