Caçada Semanal #250

Todos nós já ficámos com uma música na cabeça, que por muito que façamos um esforço não sai por nada. Há músicas péssimas para se ter como earworm e só assim com cuidado para não ficar com a música presa, lembro-me de uma tarde que em que fiquei com uma canção do Buéréré em repeat no pensamento. Nunca estive tão próximo de espetar um garfo na minha mão para ver se a dor suplantava a Ana Malhoa a cantar-me directamente na cabeça.

Desde que ontem falei da música do Carlos Alberto Moniz que a música do genérico do genérico da Arca de Noé não me sai da cabeça. Portanto vamos lá usá-lo como tema de mais uma caçada que traz dois jogos indies muito… animalescos.

Orwell’s Animal Farm [PC, Android, iOS]

O livro 1984 é a obra mais conhecida de George Orwell, mas há outro livro emblemático do vasto catálogo do famoso escritor inglês que por vezes parece assustadoramente real é Animal Farm. Um livro que foi utilizado por muitos americanos como propaganda anti-comunista, visto que Orwell o escreveu como uma sátira à URSS de Estaline.

Orwell’s Animal Farm, dos criadores de Reigns, demonstra a ligação ao mindset dos jogos habituais do estúdio Nerial. Este é um livro interactivo onde as nossas acções são subtis mas afectam as variáveis em jogo. Mecânicas simples como o facto de que em cada ecrã usamos uma lupa para escolher as nossas acções. Essas acções alteram o “estado” dos personagens, aproximando-os da morte, reduzem o apoio ao Animalismo (a ideologia paralela ao Comunismo) e a quantidade de comida disponível (se tiverem uma seta vermelha para baixo, cada um destes factores reduz, uma seta verde, sobem).

Há diversos finais possíveis mediante as nossas escolhas, e que personagens acabamos por sacrificar nestas ramificações. São estas divergências que vão mudando a história original, mas que nos colocam na mão o ónus de resolver a disputa política pela gestão da sociedade comunista da quinta, tendo a ideia de que não existem respostas perfeitas

Com ilustrações e ecrãs estáticos que nos remetem para um excelente livro infantil, Orwell’s Animal Farm é obrigatório pela forma como explora a sátira política de uma obra literária tão marcante. Fazendo-nos reflectir nas falácias de qualquer ideologia ou regime pelo caminho.

Chicken Police – Paint it RED! [PC, Switch]

Tínhamos de escrever sobre este jogo, não é? Não que tenhamos uma regra silenciosa de que nos temos de debruçar sobre todos os jogos que tenham chicken no nome, mas Chicken Police – Paint it RED! tem qualidade suficiente para merecer este nosso investimento.

Como descrever Chicken Police – Paint it RED! num elevator pitch? Simples. Imaginem um point ‘n click no ambiente de LA Noire, com o pequeno twist que é feito no mundo de Zootopia.

Em Chicken Police – Paint it RED! todos os personagens são versões antropomórficas dos estereótipos do género noir. O elenco é constituído por personagens cujas cabeças são fotografias de animais, justapostas em corpos de humanos, num mix estranho que rapidamente se torna consensual à nossa suspensão da descrença.

O processo de investigação e interrogatório tem demasiadas inspirações em LA Noire para serem ignoradas: temos de encontrar contradições da postura dos personagens enquanto os interrogamos para aferirmos a sua veracidade, para além do nosso fiel bloco de notas que se vai tornando o centro de todas as nossas conclusões.

O ritmo narrativo é o tipicamente expositivo de uma visual novel, onde vemos os personagens desenvolverem-se progressivamente à medida que as horas de jogo avançam.

Chicken Police – Paint it RED! é um dos jogos mais bizarros que jogámos no início deste ano, mas ao mesmo um dos mais memoráveis por ser tão diferente de tudo o resto. Mais um jogo obrigatório tanto do género noir, mas também de aventuras-gráficas. Esta, é mesmo diferente. Não tão diferente quanto aquela do qual falámos ontem, mas o suficiente para não o esquecermos. E não é só pelas galinhas e afins…