Este indie tem uma das histórias mais caricatas que conheci nos últimos tempos. Encodya começou por ser um projecto financiado pelo Kickstarter para um filme de animação, e entretanto acabou por materializar-se enquanto aventura-gráfica em 2.5D.

Com uma direcção artística distintiva – herdada dos tempos em que esteve para ser um filme de animação – Encodya tornou-se visualmente um dos mais memoráveis point ‘n clicks que joguei nos últimos tempos. O que é dizer muito, dada a quantidade de jogos do género ao qual tenho dedicado a minha atenção.

Em Encodya percorremos as ruas da opressiva cidade de Neo-Berlin, automatizada num futurismo estranho que faria Marinetti verter uma lágrima. Os nossos protagonistas são a orfã Tina e o robot-assistente que lhe foi atribuído à nascença, SAM. Podemos intercalar o controle entre um e outro, e os NPCs terão diálogos diferentes para um e para outro. 

Há uma situação na primeira hora de jogo em que um puzzle requer que consigamos algo de um robot-limpador de ruas, e as interacções com Tina são infrutíferas. É SAM quem consegue falar a língua robótica, e é com ele que desbloqueamos a linha de diálogo que nos irá permitir prosseguir com o jogo.

Há uma aura de seriedade no meio de todo este jogo. A óbvia governação proto-fascista da cidade com o Mayor Rumpf, e a opressão que ela espalha pelas ruas de Neo-Berlin são bem presentes. A discussão ideológica existe e é transversal a muitos dos personagens com que nos cruzamos, com a desconfiança de muitos humanos para os robots a lembrar-nos a posição de muita gente para com migrantes.

O cenário está pejado da grande praga que assola Neo-Berlin: um vício descontrolado em VR. Sentados pelos passeios, encostados às paredes, estão muitos deste VRdependentes absortos em apaziguar o seu vício. Uma dependência que cedo vemos que se estende para cá dos adultos, com muitas crianças da idade de Tina a necessitar da sua dose diária de Realidade Virtual.

A bem da verdade, esperava gostar mais dele do que na realidade gostei. Tudo apontava para uma experiência arrebatadora, e os ingredientes estão lá todos: excelente direcção de arte, um ambiente cyberpunk enquanto pano de fundo para discussões políticas subjacentes ao jogo, e um enredo e diálogos que estão alguns furos acima de tantos outros jogos do género. Mas há algo que tem sido desmotivante nesta experiência na cidade de Neo-Berlin. Os puzzles.

Se há momento mais óbvio de que este projecto originalmente intitulado Robot Will Protect You era um filme e não um videojogo é na qualidade e encadeamento dos seus puzzles. Apesar de podermos jogar em Easy Mode no qual SAM nos vai dando algumas dicas, a realidade é que a forma como os puzzles estão estabelecidos é tão críptica que a dificuldade e lógica de os resolver muitas vezes atenua o prazer de jogarmos Encodya.

Encodya acerta em tudo o resto: sendo totalmente voice acted com um excelente grupo de actores, com muitos cenários altamente detalhados (que escondem na maioria das vezes objectos interactivos, atrasando a nossa progressão), e com uma direcção artística maravilhosa. Mas onde os puzzles foram encaixados à pressa e com uma décalage de qualidade tremenda para com tudo o resto.

Encodya é um bom jogo, mas não tão bom quanto eu desejaria e quanto o próprio jogo poderia ser. E ninguém me tira da cabeça que este bom videojogo poderia ter sido um excelente filme.