Há coisas feitas para serem partilhadas. O amor até é algo que devemos sentir por nós mesmos, mas sou da opinião que sabe melhor quando partilhado com mais alguém. Essa opinião também é válida para Magic Twins.

Das mãos de nuestros hermanos da Flying Beast Labs – uns tipos com ar bem disposto que dizem ter uma abordagem de aplicação da ciência aos videojogos -, Magic Twins é um arcade puzzle game onde comandamos duas bruxinhas gémeas, Abra e Cadabra, que dominam a magia das cores. Diante de um tabuleiro em 2D, as nossas adolescentes feiticeiras disparam cores das suas varinhas para neutralizar as criaturas da mesma cor, antes que estas cheguem ao limite de cada lado do tabuleiro.

A primeira sensação que tive ao entrar em Magic Twins foi a de estar a desembrulhar um atraente rebuçado. A sensação seguinte foi aquela trip do açúcar que nos faz abrir muito os olhos. Daí em diante foi devorar compulsivamente todos os rebuçados do pacote. Magic Twins cativa-nos com a sua apresentação adorável, permite-nos adquirir skins para as nossas bruxinhas (não resisto a utilizar o diminutivo, tão não é a vontade de apertar as bochechas de Abra e Cadabra como se fosse uma tia chata) à medida que concluímos desafios e em que o jogo vai gozando consigo próprio ao longo do jogo. Acontece que estas feiticeiras têm o poder de lançar cores para todo o lado, mas tudo o que queriam era pintar o seu guarda-roupa, pecado capital esse que desencadeia o Colormageddon na sua ilha. Não faz sentido? Meh, não precisa, afinal estamos na ilha de Mallorca (é mesmo assim que lhe chamam, isto não é um pretexto forçado para o que vão ler a seguir).

Isto lembra-me que nunca fiz férias em Palma de Maiorcor.

Palma de Maiorcor!

Já aqui há uns tempos analisei #Funtime, cuja alternância entre as quatro cores primárias (entre as adictivas e subtractivas acabamos sempre no azul, amarelo, vermelho e verde) constituía a mecânica chave. Magic Twins pega não só na mesma mecânica, mas faz dela a razão de ser do jogo, que mais uma vez assenta que nem uma luva em qualquer comando da família da Xbox, cujos quatro botões coloridos parecem cada vez mais influenciar developers nas suas criações.

E não é como se o jogo só repita a fórmula até à exaustão. Os vários níveis desafiam-nos não só a destruir um número de criaturas, mas também a mudar-lhes a cor ou a utilizar feitiços específicos. Quando destruímos certas criaturas, recolhemos um pedaço da sua cor que armazenamos até termos quatro pedaços, altura em que, consoante a sequência cromática, lançamos um feitiço sobre o tabuleiro. Combinem-se estas opções com níveis cronometrados e em contra-relógio e a monotonia não se faz sentir.

Muitos objectivos e estrelas para coleccionar.

Tal como fiz em #Funtime, importa salientar a existência de opções de acessibilidade para daltónicos. Ao invés de um sistema de símbolos associados a cada cor, Magic Twins tem vários filtros de vídeo que o jogador aplica consoante o seu tipo de daltonismo: protanopia/protanomalia (associado aos vermelhos), deuteranopia/deuteranomalia (verdes) ou tritanopia/tritanomalia (azuis). Por não padecer de nenhum dos síndromes, não me cabe a mim julgar a eficácia de cada um. Se os experimentei? Claro, mas aos meus olhos nenhum deles fez sentido para um jogo tão assente no reconhecimento cromático. Essa sim, é a única interrogação que deixo: pode uma experiência intrinsecamente assente na cor, ser apelativa como entretenimento a alguém que sofra de daltonismo, mesmo que com os devidos filtros, tal como esses mesmos filtros mitigam o impacto da cor em jogos onde esta é apenas uma pequena parte da experiência? Convido os amigos deste galinheiro a deixar uma bicada nos comentários de forma a elucidar este jogador que tem a felicidade de ver todas as cores.

Espectro cromático de parte, confesso não ter conseguido testar o potencial cooperativo de Magic Twins, tendo-me ficado pela experiência solitária de controlar as duas bruxinhas. Quando não controlamos uma, o computador assume esse papel, ainda que de forma algo ineficiente. A partir de meio do jogo senti necessidade de alternar, sob pena de não concluir níveis. Isto conferiu um ritmo frenético e de considerável dificuldade à jogabilidade – mas não é por isso que imagino o jogo ser fácil para dois jogadores em ligação local ou remota: antes a comunicação e sincronização entre ambos deverá ser essencial para cumprir os objectivos mais difíceis. Algo num registo de “LANÇA VERMELHO F******, SEU DALTÓNICO DA M****“.*

Se tiverem com quem partilhar Magic Twins, os €12,99 no Steam (também está na Nintendo eShop) na verdade são só metade, pois podem partilhar o jogo com quem quiserem. Se avançarem sozinhos, nem precisam de ir por mim: têm uma demo toda jeitosa para se decidirem. Não estou a ver este jogo atingir muita notoriedade no lançamento, mas este pacote de rebuçados vale muito a pena.

*Os impropérios incluídos em nada pretendem fazer poucochinho do daltonismo.