
Os jogos roguelike apresentam um formato em que a personagem é suposto morrer, algures durante o seu percurso, obrigando a recomeçar a aventura. É um estilo de jogo desafiante, que puxa pelos skills dos jogadores que tentam ir mais longe no percurso, a cada nova tentativa.
Mas este é o género com muitas variações de fórmula, e por isso nem sempre é fácil emparelhar títulos semelhantes. Os mais populares recompensam sempre os jogadores com algo que os torna mais fortes e poderosos, sejam habilidades ou armas que persistem para facilitar as tentativas seguintes. E dessa forma, o tempo despendido nas tentativas pode ser visto como investimento para melhorar a personagem. Pelo menos são os únicos que pessoalmente consigo jogar.

E Hades, da Supergiant Games, é o exemplo perfeito de como abordar um género que tende a ser frustrante. Foram vários os fatores que colocaram o jogo na lista dos melhores de 2020, desde os valores de produção, o grafismo, a componente sonora, mas foi sobretudo a jogabilidade rápida e frenética, as armas e habilidades. E depois, o seu sistema de progresso único, em que as mortes estavam ligadas diretamente à sua narrativa.
Curse of the Dead Gods é um jogo lançado recentemente, depois de um longo período de acesso antecipado, que bebe inspiração direta a Hades. A perspetiva, o sistema de progresso e claro, a ação fazem lembrar bastante essa referência. Mas ao mesmo tempo, torna-se muito diferente, sobretudo ao nível do ritmo da ação, bem mais lento e estratégico, em que o timing de defesa, esquivar ou contra-atacar fazem toda a diferença contra as hordas de inimigos a enfrentar.
Mas aquilo que torna este título diferente é a dualidade das mecânicas de corrupção e maldição, representadas por duas barras de energia distintas, mas interligadas. A primeira é simplesmente o dano que se recebe dos inimigos e armadilhas. Ao passo que o segundo é o desgaste do progresso na masmorra. Quantas mais portas avançarmos, mais a barra aumenta. E certos inimigos em vez de tirar dano, amaldiçoam a personagem. Existem ainda certos itens que têm um custo de ouro, mas também de maldição.

Por isso, esta barra de maldição, como bem o título dá a entender, é a mecânica de gamble do jogo. Existem cinco níveis de maldição, cada um dá um debuff à personagem e no último nível a energia vai diminuindo automaticamente. Mesmo as fontes de recuperação de energia física gastam maldição. Por isso, o jogador tem de gerir muito bem o seu percurso, considerando os itens e os inimigos que fazem aumentar este precioso recurso.
Outro aspeto a ter em conta é que a nossa personagem dá mais dano nos inimigos na luz, ao mesmo tempo que recebe mais dano no escuro. Por isso há que usar a tocha para acender as fogueiras e tentar, sempre que possível manter-se na luz. Claro que certos inimigos destroem as fontes de luz, outras amaldiçoam mesmo o local, obrigando a combater nas trevas.
A história do jogo é bastante simples, e não é mais que um aventureiro que tem que explorar diferentes templos. Inicialmente há três de uma pirâmide, sendo necessário acumular gemas largadas pelos bosses de cada masmorra. É possível escolher caminhos diferentes, antecipando o que podem encontrar na sala seguinte, desde dinheiro, armas ou upgrades.

Sempre que morrem, as caveiras de cristal e gemas de jade recolhidas na run são guardadas e podem ser investidas para restaurar altares que dão armas melhores para a próxima aventura, ainda que seja aleatório. Quanto mais e mais poderosas armas desbloquearem com as gemas, mas hipóteses destas estarem disponíveis numa próxima tentativa. Estes são os elementos persistentes que vão melhorar a performance a longo prazo das explorações. Há também buffs que podem ser adquiridos e ativados no início da exploração, que permitem dar mais dano quando se faz combos ou obrigar os inimigos a largarem itens mais poderosos.
O jogo oferece uma perspetiva isométrica, semelhante a Hades, mas o ambiente negro lembra títulos como Darkest Dungeon, com monstros e criaturas bizarras. As armadilhas estão sempre presentes, desde dos clássicos picos que saem do chão, as setas ou bolas de fogo que são disparadas das paredes ou estátuas que lançam granadas e outros ataques na sua proximidade. O melhor é que podem utilizar estes mesmos elementos contra os inimigos, se estes forem apanhados nas armadilhas recebem dano.
No final de cada percurso vão enfrentar um boss, com diferentes ataques, em confrontos interessantes e divertidos, mas acima de tudo desafiantes, mediante o equipamento. Para além do percurso pelos diversos templos que vão sendo desbloqueados, o jogo tem eventos especiais com apenas uma tentativa. Estes percursos têm regras um pouco diferentes e não tem mapa para planear o percurso, sendo feito um pouco às cegas. E os templos normais têm cada um nove pisos até ao boss, mas mais à frente, há percursos maiores, com a junção de dois templos, por exemplo.

Curse of the Dead Gods é mais um bom jogo no formato roguelike, que garante uma experiência por várias horas, em pequenas doses de 10 ou minutos por run. Cada nova tentativa torna a personagem mais eficiente, e os combates mais excitantes. E o seu formato tático e refletido é bem-vindo. Há muitas referências que o estúdio reuniu, desde Hades, a Dead Cells no sistema de armas, ao ambiente de Darkest Dungeon. E para quem gosta do género é uma boa escolha.













