Eis algumas coisas que faço sem pensar muito nelas: respirar, andar, correr, saltar. Eis todas as coisas que faço em Kinetic Edge sem pensar muito nelas: respirar, andar, correr, saltar.

Lançado em Fevereiro no Steam, Kinetic Edge é a realização da Grid do universo de Tron, em que em vez de duelos ou corridas, movemos um objecto que pode acelerar ou saltar ao longo de uma gincana cibernética.


A mecânica, pese gritantemente simples, ainda pede um par de tentativas até nos habituarmos a ela. Uma vez interiorizada, é absolutamente intuitiva, ao ponto de não se pensar muito no que se está a fazer. Kinetic Edge é tão mais divertido quanto mais em movimento constante, de obstáculo em obstáculo, se consegue saltar. Não acho especialmente piada a caminhar, correr ou saltar. Mas se for entretido com música, um podcast, um bom parceiro de conversa (volta 2019…) ou uma envolvente interessante, faço a tarefa mecânica sem esforço mental. Kinetic Edge dá-nos precisamente essa catarse de esvaziar a mente, em que a simples física do jogo nos leva por entre os obstáculos a ultrapassar.

Começamos todos os níveis como uma esfera, cujo movimento é fluído, mas muitas vezes os níveis fazem-nos trocar de forma a meio. De esfera podemos passar a pirâmide, paralelepípedo, hexágono, cilindro, todos estes com mais ou menos volume – toda uma aula de Geometria Descritiva. Estas trocas fazem-nos reagir de outras formas aos movimentos esperados a cada salto ou empurrão do cenário, para dar mais variedade a cada nível. O jogo está mais perto do seu potencial de entretenimento nos modos Corrida, em que temos de ir do ponto A ao B no mínimo tempo possível, com meia dúzia de checkpoints pelo meio, e o modo Gauntlet – que é o modo Corrida, mas com obstáculos mais difíceis e sem checkpoints, em contrarrelógio. A fluidez como a nossa forma geométrica faz respawn é uma bênção, que mitiga alguma da frustração de tentar certos obstáculos repetidas vezes. Pelo meio temos ainda o modo Golfe, mais virado para o multiplayer, e o modo Labirinto, em que navegamos por uma série de paredes proceduralmente geradas até à saída designada.


Se estilística e mecanicamente Kinetic Edge cumpre a sua promessa e – falo por mim – função de nos dar algum brain sex quando não queremos nada de complexo na vida, há neste momento um sério problema de falta de conteúdo, com menos de 15 níveis entre todos os modos: se não estiverem empenhados em bater recordes, um par de horas basta-vos para explorar tudo, o que parece pouco para os 10 euros de full price (actualmente está em promoção, a metade). Os developers contam adicionar mais conteúdo consoante o sucesso do jogo, mas parece-me que uma possível solução seria adicionar um editor de níveis, colmatando a falta destes e capitalizando no potencial criativo que a estética de Kinetic Edge parece estimular.