Nenhum tipo de relacionamento é fácil, e quem diz o contrário decerto que há muito vive num auto-engano. Seja de que teor for: familiar, profissional, de amizade, há sempre uma dança invisível a ser feita entre as partes. Minuetes de cedências e de compromissos, adágios da adaptação da nossa personalidade ao espaço intersectado com o da outra pessoa e grand battements das vontades díspares que vão sendo o início do conflito.

O conflito é, aliás, um sintoma da naturalidade das relações, sobretudo as amorosas. Digo-o de forma empírica sem qualquer formação em terapia relacional, ou sequer a querer expor a minha vida privada ou o das pessoas que me são próximas. Afirmo-o sim com a certeza de estar a viver um relacionamento que dura há precisamente metade da minha vida, e a de ter visto ao longo de vinte e sete anos o relacionamento dos meus avós que ficaram juntos sessenta dos seus anos.

Os conflitos são normais em todos os aspectos da nossa vida, até na relação que temos com nós mesmos. Uma relação onde não existe qualquer conflito, por muito suave que seja, é possivelmente um estado de convivência inócua. Onde duas pessoas levaram longe demais a ideia de um casal, ao longo do tempo, ser uma fusão de duas partes distintas. O erro? É esta união esbater os limites da individualidade para além da moldagem comum numa vida a dois. 

O verdadeiro teste de uma relação não se centra no conflito, mas sim na forma como ele é resolvido. Ou se, por outro lado, não é. Se é apenas ignorado. Ou se é alimentado de ressentimento, em silêncio. Ou se é alastrado por muitos outros conflitos anteriores não resolvidos, num incêndio descontrolado que faz do campo relacional uma área de terra queimada irrecuperável.

Cerca de um mês antes da pandemia se instalar em Portugal, eu e a minha mulher tivemos conhecimento de seis processos de divórcio de pessoas que nos são muito próximas, entre familiares e amigos. Alguns destes pontos de ruptura foram verdadeiras surpresas para nós, outros nem tanto. Considerações superficiais de quem não sabe o que se passa no seio de cada relação, para além do espaço que só a eles pertence. Análises à distância de quem está apenas looking outside, inside, como canta o Vincent Cavanagh.

A pandemia em si deve estar a ser uma das maiores provações que a maioria das relações sofreram nas últimas décadas. E estendo esta provação a todo o tipo de relações: amizades interrompidas pela distância, ligações profissionais pressionadas pelas circunstâncias, convivências familiares atribuladas pela azáfama de colidir dois mundos em pequenos espaços, e é claro… as relações amorosas a serem puxadas por múltiplos grilhões com diferentes direcções.

Aqui em casa essas tensões e conflitos aconteceram, e seria praticamente impossível não acontecerem. Não só por acreditar que esses mesmos conflitos são um sinal de um relacionamento saudável, mas porque o somatório de teletrabalho, mais a gestão dos filhos e das suas aulas online, mais o pânico com a pandemia e o confinamento num apartamento T2 durante meses, são uma fórmula para um teste extremo a qualquer relação.

Se na vida normal todas as relações têm dias bons e outros menos bons, a pandemia e os confinamentos põem todos os alicerces de uma relação em exame. 

Será inevitável que das muitas conclusões nefastas desta pandemia, uma delas seja o aumento de separações e divórcios. Muitos serão os casais que, confrontados com a obrigatoriedade de permanecerem sozinhos ao longo de meses, somando às discussões que a tensão do confinamento foram criando, perceberão que os seus caminhos deverão prosseguir em separado.

Levaria esta discussão dos efeitos negativos da pandemia nas relações humanas para outra frase similar, mas com um significado bem diferente. A frase originária de África que tantas vezes vemos repetida em meios ingleses e americanos. Uma frase que nunca me fez tanto sentido como ao longo destes difíceis 13 meses, e que toma outra proporção com a pandemia. It takes a village to raise a child. E é verdade. Bem temos sentido duplamente a falta da família mais próxima: pelas saudades e o amor que o confinamento obriga a existir à distância, mas também pelo apoio e a influência na formação pessoal dos mais pequenos. Se it takes two para levar um relacionamento e it takes a village para educar uma criança, precisamos de poucos cálculos para sabermos o quanto precisamos de estabelecer pontes para todas as pessoas que nos estão próximas.

It Takes Two, o novo jogo da Hazelight, e mais uma experiência de cooperação obrigatória, vem explorar esse mesmo momento de ruptura. Não é só o título, uma brilhante alusão à expressão idiomática anglófona it takes two to tango, que nos lembra que em todas as relações que temos os dois lados são essenciais para que a ligação subsista. Afinal, ninguém dança o tango sozinho. 

É sublime chegarmos a uma época da criação artística em que é um videojogo, lançado durante um momento tão negro da nossa História, que serve de introspecção relacional, e em alguns casos, acredito, como espelho de milhões de casais reais. Uma história que começa no preciso momento em que um casal decide divorciar-se, e vêem as suas almas serem tragadas – por um pedido feito pela sua filha – para dentro de dois bonecos feitos por ela.

Cody e May começam esta história a partir do final da sua própria história. O início de It Takes Two acontece após o final da relação dos dois, quando ambos perceberam que não tinham energia, vontade, ou amor que motivasse o esforço para levar a relação em diante.

Serem obrigados a cooperar e a resolver os obstáculos com as suas próprias idiossincrasias (que são aqui materializadas como mecânicas únicas para cada um dos personagens) é uma brilhante tradução de um momento tão difícil para um videojogo. Nenhum obstáculo foi feito para que a habilidade o permita seguir em frente sozinho: continuar o caminho obriga sempre a interacção e cooperação de ambos.

No meio da mágoa que por vezes deixamos desenvolver em relação à pessoa que amamos, é fácil esquecer essa parte. Esquecer que a felicidade numa relação é essa mesma dança com avanços e recuos, com tropeções e braços que nos agarram por baixo ao cairmos, com gritos e silêncios. Esquecer que o caminho que está para trás, seja ele curto ou longo, foi lajeado a dois, mesmo que em pequenos troços se vejam interrupções momentâneas, com empedrados apenas de um lado ou de outro. Ninguém carrega uma relação sozinho. Nem resolve conflitos sozinho. Ou dança o tango sozinho.

It Takes Two, é um jogo para ser partilhado obrigatoriamente. Uma lembrança nos tempos difíceis em que vivemos de que as maiores contrariedades podem e devem ser ultrapassadas por estendermos a mão a alguém, mesmo que neste caso essa mão segure um comando. A minha viagem por It Takes Two está a ser partilhada com o meu filho, e não, o facto de não estar a jogar com a minha mulher não tem nenhuma ilação a ser lida para além da falta de disponibilidade para conseguirmos jogar um videojogo a meias.

Não tivessem os 18 anos que estamos juntos – uma licenciatura feita em conjunto do primeiro ao último dia, para além de cooperação em associações, bandas, empresas, trabalho, e a maior aventura das nossas vidas, a de ser pais – já nos terem ensinado, entre tombos e cabeças erguidas que mesmo nos tempos mais difíceis é mais fácil tactear à procura de uma solução conjunta do que virar as costas e seguir em direcções opostas.

It Takes Two é esta metáfora perfeita para os solavancos de uma vida a dois. Um jogo que acima da genialidade de todos os pequenos pormenores que o compõem, poderá ser a dissimulada terapia relacional que muitas relações podem estar a precisar, mesmo sem o identificarem. 

Neste momento não sei se Cody e May vão conseguir reencontrar as razões que os fizeram apaixonar-se tantos anos antes, ou se no final do jogo farão como tantos casais que perceberam que o seu caminho iria finalmente bifurcar em sentidos opostos. Mas é o esforço conjunto, inicialmente a contragosto, e de seguida de forma natural, provavelmente lembrando tempos mais felizes em que ambos funcionavam de forma síncrona, sem se aperceberem disso.

Numa fase em que tanta gente está verdadeiramente sozinha, ou isolada apesar de acompanhada, que possa um videojogo ser a ponte de entendimento que tantas vezes nos falta. Que possa ser esta a tradução dos nossos ensejos e das nossas dúvidas, que aprendamos com ele a encontrar pontos de cooperação nas nossas relações, e que saibamos salvá-las antes do momento de ruptura. E que, em tempos de águas revoltas, consigamos atingir aquela luz de felicidade que parece não querer brilhar na maioria dos dias, em que as depressões, medos, conflitos, iras e revoltas falam mais alto do que a vontade abraçar quem muitas vezes já não à distância emocional de um abraço.