Todos temos o feliz (ou triste) hábito de endeusar artistas, escritores e demais criadores que admiramos. Nos videojogos essa marca é ainda mais óbvia, e é ainda mais forte quando falamos de séries e títulos que compuseram a nossa infância e adolescência.

É claro que há um punhado de autores que parecem ter um dom divino de apenas lançar videojogos entre o bom e o excelente. Miyamoto é possivelmente o maior exemplo disso, com quase quatro décadas de criação, os seus jogos, sejam de novas ou antigas IPs, são todas peças emblemáticas.

A solidez de lançamentos de jogos de Super Mario ao longo da história é incomparável com o seu outrora grande rival Sonic. Depois do seu auge na geração de 16 bits, são mais as vezes em que os títulos do velho ouriço azul falham redondamente do que aqueles em que acerta.

No final de 2015, Yuji Naka, um dos criadores de Sonic e de NIGHTS… Into Dreams criou algum burburinho com o lançamento daquele que foi o último jogo a ser lançado na Wii (e que foi também lançado na Wii U e na 3DS). Rodea the Sky Soldier prometia um regresso do histórico criador a um ambiente que parecia beber da criatividade de Nights. O seu nome e currículo foram suficientes para tornar Rodea the Sky Soldier um dos meus jogos mais aguardados do ano, mas que se tornou, na realidade, a grande desilusão que tive em muito tempo.

Naka perdia assim parte da mística que sempre teve na minha memória. O endeusamento foi-se esfumando à medida que sentia que este meu “santo” tinha na realidade pés de barro. 

O recém-anúncio de Balan Wonderworld, pela Square Enix, com a promessa de um regresso de Yuji Naka mas também do histórico character artist Naoto Ohshima, artista de Nights e Sonic Adventures, não me deixou grandes expectativas. Um facto que tenho de agradecer a quão terrível Rodea tinha sido, há 6 anos, que me deixou preparado para a colisão com mais uma desilusão vinda de Naka.

Depois de passar algumas horas em Balan Wonderworld devo dizer-vos que as minhas poucas expectativas foram totalmente correspondidas. Esperava pouco deste jogo, e a realidade é que ele é tão fraco quanto eu esperava.

O conceito de Balan Wonderworld não é novo. Aliás, pouco mais faz que inspirar-se em Super Mario Odyssey, na capacidade do famoso canalizador de ganhar novas habilidades ao possuir novos corpos. Aqui os nossos protagonistas encontram umas chaves que desbloqueiam uns cristais com disfarces.

As semelhanças entre os dois ficam por aqui. Querer comparar Balan Wonderworld e Super Mario Odyssey é como querer comparar o Zé Carlos do Odivelas ou o Cristiano Ronaldo. Zé Carlos, não se existes, mas se existires peço-te desculpa por te comparar com Balan Wonderworld. Tu és de certeza melhor jogador de futebol do que o Balan Wonderworld é um videojogo.

Como é sabido eu tenho uma grande paixão por jogos retro, com a nostalgia a fazer parte de alguns dos elementos com que olho para alguns jogos que vão saindo. Mas Balon Wonderworld é old school na pior acepção da palavra. É tão old school como aqueles jornais que ficam dentro de carros ao longo de anos, e que já perderam a cor. É tão old school que não é nostálgico: é bafiento. Parado no tempo.

O controlo do protagonista e dos seus mais de 80 disfarces é tão lento, tosco, que há muito que não pegava num jogo de plataformas tridimensional com controlos tão horríveis quanto este. 

Há factores agravantes nesta análise do quão mecanicamente horrível Balan Wonderworld é. A primeira é que custa 60 euros. Sim, sessenta euros. Sessenta. Euros. A segunda é que temos dezenas de casos de bons jogos do final dos anos 1990 que já tinham resolvido grande parte da fluidez de controlo de protagonistas em platformers tridimensionais. A última é que para um histórico como Naka é um grande sinal de inépcia saber que existem centenas de estúdios e criadores indie com menos experiência, orçamento, mas indubitavelmente mais talento que têm feito jogos do mesmo género que envergonham Balan Wonderworldpor comparação.

Dos 80 disfarces, a grande maioria são um valente falhanço. Entre os disfarces que nos tiram a habilidade de saltar, outros que são versões das lojas dos 300$ de boas ideias do Mario Odyssey, há um pouco de tudo. 

A forma de gerir os fatos é outro falhanço similar. Temos apenas três slots para os disfarces, e quando apanhamos um novo o que está mais à direita automaticamente é descartado. Muitas vezes vamos encontrar obstáculos que seriam melhor resolvidos com um disfarce específico, mas já não o temos. Azar o nosso.

Depois temos as afamadas sequências com o titular Balan, que poderiam ser algo interessante, mas que são pouco mais que terríveis e básicos QTEs

Os criadores justificaram-se ao dizer que o jogo é apontado para crianças, mas gostava de saber qual o perfil destas crianças a que se referem. Não digo melo tipo de jogador que o meu filho mais velho é, que ele não é exemplo, mas a maioria das crianças jogou melhores 3D platformers que isto, até em jogos mobile f2p.

Narrativamente bizarro e mal-explicado e ainda pior executado, há uma camada de grind ao termos de desenvolver o jardim no hub world. Uma confusão desnecessária que nada adiciona sem ser um prolongamento de longevidade artificial.

Balan Wonderworld não é divertido, tem um medíocre level design, os controlos e o ritmo são pouco fluídos e toscos, e nem as boss fights são interessantes. Estamos a meses de saber qual o melhor jogo do ano, mas Balan Wonderworld pode receber um dos piores do ano desde já. Com a ideia de que os 60€ que custa dão para comprar muitos bons e ainda sobra dinheiro para uma bica.