
Mais um roguelike – só que em tons de rosa! Este foi o meu primeiro pensamento quando vi as imagens de Dandy Ace na loja do Steam. Não estava errado ao pensar isto, mas também não estava assim tão certo! Embora essa afirmação não estivesse errada, estava incompleta porque apesar do género roguelike estar extremamente saturado, este jogo consegue destacar-se com um conjunto de mecânicas que dão um twist diferente à fórmula habitual de jogar, morrer e repetir tudo, incrementando o poder a cada ronda.
Spoiler alert: a história, como em qualquer roguelike, não é a razão pela qual vão jogar este jogo. Mas (aquele ‘mas’ esperançoso que vai dar a reviravolta) traz um propósito, um pouco como um baixo numa banda parece passar despercebido só que toda a gente estranha se não existir.
Aqui somos Dandy Ace, um mágico fabuloso que veio roubar as luzes da ribalta a outro mágico, o Lele – o qual já ninguém me pode ouvir aqui em casa porque viciei a brincar com o nome; por certo conseguem imaginar o loop infinito de horas no ecrã a dizer “lelelelelelelele”… Como seria de esperar, Lele, consumido por inveja, criou um palácio mágico em constante mutação, cheio de criaturas hostis e cenários improváveis, para nos aprisionar, e às nossas assistentes – sim, somos mágicos de alto nível, com assistentes (ênfase no plural faz favor)! Objetivo do jogo estabelecido: sair do palácio e confrontar o nosso rival.

Completamente rodeados, pão nosso de cada dia enquanto sobrevivemos.
Agora a parte interessante: como o vamos fazer? Quando chegamos ao palácio pela primeira vez é-nos dito por um personagem “misterioso” (porque em nada se assemelha ao Lele…) que vamos encontrar inimigos e desafios cada vez mais complicados à medida que vamos progredindo nos níveis. Para lidarmos com os obstáculos contamos com um sistema de gestão de habilidades que nos permite equipar quatro skills em simultâneo e ainda a possibilidade de fazer um upgrade a cada. O twist está no facto de que todas as habilidades também podem ser melhorias de outras habilidades. Não sei se perceberam bem, volto a repetir: cada habilidade pode ser uma melhoria de outra habilidade. BOOM!, o som de uma muralha a explodir no meu cérebro e um mundo de possibilidades aparece diante de mim! Claro que as minhas primeiras tentativas de progredir foram a teorizar e testar toda e qualquer combinação de feitiços que conseguia orquestrar, desde as mais estúpidas às mais conceptuais que só daria resultado se Marte estivesse alinhado com Saturno à meia noite do dia de aniversário do José Cid.
Provavelmente algum tempo desperdiçado depois, já tinha mais ou menos ideia do que cada skill e feitiço faziam em cada situação. Comecei finalmente a progredir e nunca senti aquele cansaço típico dos roguelikes! Frustração? Alguma, mas quem nunca deu um grito depois de morrer na última etapa antes do boss final? Voltar ao início é sempre uma oportunidade de pôr em prática uma nova combinação com base nos ataques que me iam aparecendo – só para não admitir a lágrima no canto do olho por voltar atrás centenas de vezes…
Ao fim de 17 horas consegui completar o jogo; depois de algumas batalhas agonizantes contra bosses para os quais inevitavelmente nunca estava preparado o suficiente para defrontar, senti-me realizado por ter cumprido o meu dever e, mais uma vez, ter experienciado um jogo do início ao fim, com tudo o que tinha para oferecer. E pensei cedo demais, pois logo reparei num ícone a piscar no menu…

É neste momento que começamos a duvidar de todas as nossas escolhas até aí tomadas!
Dandy Ace oferece um modo de jogo específico para streamers: olá twitch mode, olá mais horas de jogo! Este modo oferece ao público variadas possibilidades de interagir, e influenciar, o jogador em tempo real (ou em tempo streamer??). Aqui gera-se um misto de “pedir ajuda ao público” com “ser lixado pelo público”, aka os meus amigos… Entre inúmeras acções, estas podem ser benevolentes, concedendo ajudas como um cupcake que cura, dar invulnerabilidade temporária ou, por outro lado, permitir tomar as rédeas dos poderes de Lele, passando a ter todo um arsenal de truques e armadilhas para tramar o streamer. Nasce aqui uma realidade com um universo infinito de interações, dando toda uma outra vida à voz sempre presente do narrador a antagonizar-nos constantemente.
O que é que o João fez? Obviamente que decidiu ir brincar ao “já não és mais meu amigo” como se estivesse no jardim de infância; criei um stream com o meu grupo de amigos enquanto meus subscritores e só posso dizer que agora percebo o quanto eles valorizam a minha sanidade mental. E não, já não são mais meus amigos! Ou melhor, não foram, durante o tempo do jogo; já estamos de pazes feitas! Fui assoberbado por uma torrente de inimigos, armadilhas e cupcakes venenosos (que é suposto curarem 50% das vezes mas a sorte nunca esteve do meu lado), que tornaram toda a experiência num simulador de piñata (neste exemplo eu seria o burro cheio de doces a levar com o taco). E os meus amigos ainda celebravam não só os meus falhanços como qual deles conseguia executar um plano mais original que o anterior.

Escolha não falta para variar o tipo de interação com o público em twitch mode
Desgastado, com menos amigos do que quando comecei o stream, um ou dois parafusos a menos mas sem dúvida contente, digo-vos: Dandy Ace não é só um roguelike que dá para horas e horas de experiências e milhares de combinações e outcomes diferentes, com controlos bastante responsivos e gameplay muito viciante; Dandy Ace tem também imenso potencial enquanto ferramenta de criação de conteúdo para streamers, permitindo-lhes uma relação com o público muito avançada e que torna este último não um observador mas um participante. Quem não gosta de desgraça alheia e de a provocar sem qualquer danos reais? É para isso que as amizades servem, para serem postas à prova! E claro que no fim do stream já estávamos de pazes feitas (porque na creche também passava assim, 5 minutos depois e já somos todos melhores amigos novamente) e a magicar ao que mais me podiam ter submetido!













