It Takes Two é o novo jogo da Hazelight, o estúdio indie de Josef Fares, um nome mais recente na indústria, mas certamente com muito para dar aos videojogos. Até porque os dois jogos do estúdio focaram-se em algo que parece cada vez mais esquecido em outras propostas: o cooperativo. Não estou a falar das dezenas de jogos cooperativos que existem no mercado, sejam competitivos por equipas ou mesmo títulos em que podemos eventualmente jogar com amigos, mas nada nos impede de experiência sozinho, como o recente Outriders. Falo em jogos criados de raiz para jogar exclusivamente dois jogadores, e este It Takes Two é tão radical que apenas um jogador nem consegue arrancar o jogo. 

E tal como A Way Out, o buddy game lançado em 2018, é possível repartir o ecrã na mesma televisão, ou jogar online, o que faz todo o sentido nesta situação pandémica em que vivemos. E tal como já tinha tido oportunidade de elogiar, esta proposta é uma prova de que ainda existe generosidade na indústria: dos dois jogadores, apenas um necessita comprar uma cópia do jogo. Ambos podem sacar o jogo, e mesmo que nenhum ainda o tenha adquirido, o primeiro nível fica por conta da casa. Digo já que vão querer continuar a aventura, funcionando muito num sistema de emparelhamento online de jogadores digno de elogios. Mas lembrem-se que se não tiverem ninguém para jogar, este título não serve para nada. 

It Takes Two destaca-se primariamente em dois sentidos. O primeiro porque tem uma história com uma mensagem bastante real, sobre o efeito que um divórcio pode ter num casal e neste caso, numa filha. O segundo é que todas as mecânicas cooperativas, mundos a explorar, fazem todo o sentido romântico na história que se está a contar. 

Se Josef Fares é um produtor com um ar bonacheirão, com muita bazófia no seu discurso, e talvez o consigamos relacionar com a história e personagens de A Way Out, fica a surpresas de que o designer é igualmente um romântico, com grande senso de humor. Tudo espelhado nesta nova obra. E se quiserem parar de ver esta análise por aqui, fiquem já a saber que este é, para já, o principal candidato a jogo do ano. Coisa pouca. 

It Takes Two é também um título com duplo sentido, o da vida, porque demonstra que cada casal é composto por dois polos, o que traduzido na aventura significa que ambos necessitam trabalhar juntos para superar todos os puzzles. Mas antes a história: o casal Cody e May tem uma filha, mas os desentendimentos ao longo dos anos culminam com a decisão de divórcio. A sua filha, como que em pedido de desespero, faz um desejo de estes voltarem a entenderem-se, e como por magia, as suas almas são transportadas para dois bonecos feitos pela criança. 

O grande anfitrião é um estranho livro de dicas de reconciliamento, com um vigor acelerado, tipicamente mexicano, que obriga o casal a ultrapassar uma série de desafios até se voltarem a reconciliar. Uma tarefa que está longe de ser simples, pois a decisão parece inalterável, e a jornada, testemunhada por dois jogadores, será longa, neste caso uma 12 horas até à sua conclusão. 

O jogo apresenta-se como um título de plataformas, em que cada jogador assume uma das personagens. A partir da escolha inicial, cada um encarna as suas ações únicas que o jogo vai introduzindo ao longo dos diversos ambientes, que parece uma grande homenagem a Querida, encolhi os Miúdos ou As aventuras de Arthur e os Minimoys. Tudo é gigante, incluindo os objetos mais banais que vão encontrar, assim como insetos inocentes que passam a ser enormes. 

A aventura gira em torno da casa do casal, transformando locais simples em cenários verdadeiramente épicos, incluindo o jardim, o interior de um globo de neve, um sótão e até um relógio de cuco, apenas para referir alguns. E tanto objetos banais como os pequenos animais ganham vida, a maioria relacionado com o dia a dia do casal. Por exemplo, devido a Cody não ter limpo as árvores do jardim, está instalada uma guerra entre vespas e esquilos, apanhando o casal no meio. 

E cada cenário é mais genial que o outro, incluindo a variedade de mecânicas introduzidas. Não soubéssemos que este jogo tinha sido produzido por um estúdio indie, e rapidamente apontávamos para a mais recente obra de Miyamoto ou mesmo dos velhos tempos da Rare. É que este título oferece mecânicas variadas que foram criadas apenas para um dos segmentos da aventura, algo que raramente se vê nas produções atuais, como por exemplo Nier Automata

Num nível Cody dispara pregos como se fossem lanças, e May utiliza uma cabeça de martelo para se agarrar aos mesmos. Noutro um dispara combustível, e a outra uma pistola de fósforos que incendeia o composto. Noutro nível Cody consegue aumentar ou diminuir o seu tamanho enquanto May utiliza botas de antigravidade. E esta dualidade de mecânicas devem ser utilizadas de forma combinada e muitas vezes simultânea para ultrapassar os puzzles. It Takes Two leva assim o seu nome literalmente, resultando ainda em sequências de voo, deslize por ferros, jangadas improvisadas ou viagens de sapos. Mundos de neve, dedicados à música ou no espaço, esta é uma viagem épica onde nem sequer falta uma viagem aos dungens crawlers, May como guerreira e Cody como feiticeiro. 

E como se isso não bastasse, existem dezenas de mini-jogos competitivos espalhados pelo nível. Não servem para nada, apenas para resolver os conflitos de casal, a ver quem é o melhor. E não faltam easter eggs e homenagens a outros jogos e filmes, sempre a colocar um sorriso nos jogadores. É uma viagem incrível, onde não faltam bosses para enfrentar, com diferentes modificações, e claro a requererem uma estratégia cooperativa para serem superados. 

O jogo é completamente jogado em split-screen, mas pessoalmente e ao contrário do costume, não me fez confusão e consegui manter a atenção na minha personagem. E o engraçado, quando se faz stream deste título é que os espetadores têm sempre presente a perspetiva dos dois, numa experiência mais completa. E estamos a falar de 10 a 12 horas de duração, mas a variedade é tanta, que parece terem passados dezenas de horas de uma aventura épica. 

A partir de agora Hazelight é um nome a ter em conta na indústria, e espero que Josef Fares venha a público rapidamente não apenas para dizer Fuck the Oscars, mas algo como “estou ansioso para vos mostrar o que vem a seguir”. Manter o estúdio independente vai ser muito complicado, porque dizem que a Microsoft anda por aí a adquirir talento.