Enquanto entusiasta de jogos (leia-se viciado), sempre gostei de conhecer cada vez mais áreas e géneros desta indústria. Inevitavelmente que com essa fome de curiosidade vou encontrando algumas pérolas nesta demanda – e por outro lado dou de caras com “coisas”, porque não se podem chamar bem de jogos… E foi exatamente isso que me aconteceu quando experimentei Terra Incognita

Olhando para a página do Steam tive logo uma noção do quão baixas tinham de ser as minhas expectativas… À medida que fui jogando percebi a salganhada em que me enfiei e comecei a cavar um buraco (bem fundo) até reencontrar os meus standards do que é um jogo pura e simplesmente mau. Cinquenta metros abaixo da terra, não é que estivesse a contar…

Dizem para se começar pelo princípio pelo que aqui vai. Lancei o jogo e primeiro aparece um menu, se de facto o poder intitular de menu, que pergunta em que zona quero jogar, entre Ásia, Europa e adiante. Só após lançar várias vezes o dito “menu” (perceberão mais à frente o porquê) é que percebi que “a coisa” (parece-me um nome mais indicado) é o menu de seleção de níveis – que o criador não implementou no jogo, e de cada vez que queremos experimentar outro nível temos de sair do jogo e lançá-lo novamente para selecionar uma zona diferente… Botão de voltar atrás/ir para o menu, onde andas? Finalmente a correr o jogo e sou confrontado com um novo menu, diria que este é de facto o main menu do jogo, acompanhado de uma música a um nível que categorizo como ensurdecedora. Facilmente diminuiria o som mas – aquele “mas” que vira tudo do avesso – não há qualquer menu de opções onde eu pudesse diminuir o volume… Há ainda um menu “About” que é por si só a parte realmente incógnita deste jogo porque não tem absolutamente nada. Vá lá que o jogo proporciona o botão Start Game e Load Game, senão nem estaria a escrever isto agora, ainda preso num loop de terror na Terra Incognita sem escapatória alguma! Sem dúvida que o simples acto de lançar o jogo foi toda uma experiência sensorial e psicológica da qual não sei se irei recuperar! E fui persistente (ou estúpido, ou ambos) em lançar Terra Incognita i-n-ú-m-e-r-a-s vezes, porque verdadeiro gamer não desiste, nunca!

Como a minha cara esteve o tempo todo que tentei jogar!

Carreguei em Start Game e comecei a rezar aos deuses dos videojogos porque volta e meia o loading engasga-se pelos 85% e fico com o típico ecrã em escala de cinzentos,  enquanto o Windows – provavelmente o único “cérebro” são aqui, me recomenda que mais vale fechar o jogo. Depois de umas quantas tentativas lá consegui entrar e aqui o terror intensifica-se: sou largado no que aparenta ser um cenário Inca, rodeado de lagartos a perseguirem-me, sem saber os controlos, sem uma arma para me defender, em modo slideshow com uns estonteantes 10 frames por segundo, e com a música e efeitos sonoros num nível que nem sabia que os meus headphones alcançavam. A melhor comparação que posso fazer (e fica aquém da realidade!) é como jogar um daqueles jogos e nos vemos numa creepypasta, ou a ver um filme de terror como o The Ring: a qualquer momento algo vai aparecer atrás de ti na vida real, ou o jogo fecha-se e recebes uma chamada sem ID com a típica voz rouca: “Seven Days”. Bip bip bip bip…

Tentei pôr esses pensamentos de parte e comecei a resolver problema a problema. Primeiro o som: sorte a minha que o menu de pausa tem um Sound Controls, o que me permitiu voltar a níveis humanamente razoáveis (embora aquele zumbido típico depois de concertos ainda me tenha amaldiçoado umas horas depois). De seguida, opções gráficas:  o menu de pausa também tem um Graphic Controls, que não funciona. Bem que andei a carregar em todos os botões nas opções de qualidade dos gráficos mas eram só um placebo. Por outro lado, a barra para definir o FOV (Field of View) funcionava, e bem, permitindo-me jogar em modo GoPro, onde consigo ver a Matrix por entre as texturas esticadas das árvores, ou em modo óculos de garrafa que usávamos no carnaval – tentar dar 10 passos com eles postos corria tão bem… Sorte a minha que o motor de jogo, assim que se apercebeu do meu desespero, sugeriu aumentar a performance, ao aparecer uma janela no meio do jogo que alterou os gráficos para conseguir ter uma framerate minimamente aceitável. 

Quando um motor de jogo tem pena de ti sabes que a experiência vai ser boa

Finalmente, ficaram os lagartos aqui perdidos… fiquei a saber, através do único pedaço de lore que este jogo tem – escrito em Francês, e em Comic Sans (a minha namorada é Designer, contemplou partir-me o monitor quando viu isto…) – que uma doença causadora de necrose infectou a população e transformou todos em lagartos. A partir daqui o jogo em si não era de facto experienciar Terra Incognita mas sim um jogo de tentar perceber o que raio tinha de fazer! Fui descobrindo várias armas; não importava o que eram porque todas davam para matar os inimigos de um tiro ou pancada, o que me permitiu ir limpando o mapa sem grande propósito até chegar a umas míticas partículas brilhantes. Aproximei-me (introduzir um som de memeshineeeeeey”) e ficou tudo escuro! Novamente comecei a temer que ia ser atacado pelo Slenderman, até que, aparece o meu fiel amigo menu vazio. Lia-se: continue. Receoso, carreguei no botão e vim parar ao Main Menu sem nenhum contexto.

Fiquei confuso e quis tentar outra vez mas de maneira diferente, o que me levou a uma nova descoberta: nem é preciso matar ninguém para acabar o nível. Assim que o nível começou, desatei a correr desenfreadamente por entre as criaturas até chegar às partículas brilhantes e voltei ao menu principal. Continuei confuso, por isso decidi tentar outro nível e o resultado foi o mesmo… mas com um leque de assets gráficos diferentes: dinossauros e orcs (vá-se lá saber a relação) em vez de lagartos. 

Porque não há um jogo mau sem dois, já dizia a minha avó!

Foram quase duas horas disto até que decidi parar pela minha sanidade mental e pela integridade do meu computador, que a qualquer momento se iria autodestruir para não ter de correr mais este jogo. Ah e faltou a cereja no topo do bolo, como se não fosse suficiente tudo isto: o derradeiro último nível é um RPG feito em RPGmaker sem qualquer contexto, nada a ver com o Terra Incognita. Um pouco como se o criador dissesse: por 8€ não recebem só um jogo incrivelmente mau, mas dois jogos maus – tipo pague 1 leve dois! Mesmo assim consigo tirar algo de positivo deste programa (só porque a palavra jogo deixou de se adequar algures no segundo parágrafo.. já ficou esclarecido que para mim isto não conta como um jogo): Terra Incognita deveria ser usado como uma ferramenta de ensino, posto à disposição de todos os que querem aprender a criar videojogos, como forma de mostrar tudo o que não se deve fazer, exemplificando como o jogador se sente num “jogo” que fez tudo mal em todas as áreas envolvidas na criação de um videojogo. Não seria uma linha de erros, mas todo um Bingo, desde Design a Arte, Programação, e até Produção! Só vos posso dizer que nessa noite ao deitar-me tinha recebido uma sms; não a fui ver com receio que fosse algum espírito maligno ou uma alma penada a avisar-me que só tinha mais 7 dias de vida até me virem buscar para o além. Era da minha operadora telefónica mas nunca se sabe, ainda não passaram 7 dias…