O Game Pass oferece tantos jogos que começo a chegar a um ponto que fico a olhar, indeciso sobre qual devo jogar e se o devo jogar. Já deixei passar alguns jogos excelentes por causa desta sensação de assoberbamento, parece que não conseguimos chegar a tudo, e acabamos por não chegar a nada. Felizmente não deixei passar Rain On Your Parade que desde o primeiro ecrã se revelou uma surpresa e adorei cada momento que passei nele!

A Unbound Creations, criadora deste jogo, tem lançado jogos sustentados em ideias originais. Uns são melhores que outros e isso deixou-me um bocado sem saber o que esperar aqui. Rain On Your Parade é um jogo de puzzles em que controlamos uma nuvem e, de forma genérica, a nossa função é molhar coisas. Vi o trailer e fiquei muito com aquele gostinho a Untitled Goose Game e rapidamente percebi que essa sensação não era infundada.

O jogo é introduzido como sendo uma história para adormecer que o avô conta ao neto, e mesmo essa parte é engraçada pela naturalidade como é escrita. A minha filha mais nova é muito arisca e não cai nisto, mas o meu filho mais velho sofreu um bocado comigo já que sempre gostei de inventar histórias para o enganar, um pouco da mesma forma como o pai do Calvin o enganava quando não sabia responder a uma pergunta, ou distorcia a história do Hamster Huey e do Monstro Kablooei por estar tão farto de a contar. Precisamente a história da nuvem é inventada e detalhes são acrescentados consoante o neto vai fazendo perguntas. Isto é tão, mas tão bom!

Na prática Rain On Your Parade está estruturado como se fosse um jogo para telemóvel, mas não sei se funcionaria bem nesse meio. Sabem o quanto eu implico quando os jogos são um claro port de consola e este não é excepção, mas neste caso eu entendo a razão porque os comandos não estão optimizados para funcionarem doutra forma, já que se fosse possível controlar o movimento da nuvem com o rato o jogo se tornaria muito mais simples, acrescendo a isso o facto de já ser simples o suficiente. Cada nível é muito curto e praticamente sempre a solução é óbvia. São-nos dados objectivos no início e temos que os cumprir. Começamos apenas por ter de molhar coisas mas gradualmente vão ficando mais complexos. Por norma há objectivos principais imprescindíveis à conclusão do nível, acessórios que só fazes se quiseres e alguns níveis têm objectivos escondidos que só descobres se andares por lá a experimentar o que consegues fazer.

Os níveis não procuram ser difíceis, procuram somente ser divertidos. Pontualmente existem objectivos que exigem alguma flexibilidade de pensamento, mas por norma os objectivos principais não são frustrantes. Diverti-me tanto com este conceito que surge assente em ideias originais traduzidas em níveis temáticos claramente diferentes entre si, que imediatamente pensei que rapidamente começaria a chover no molhado (viram o que fiz aqui?), mas não. A velocidade a que eram introduzidas novas ideias, constantes referências à cultura pop e frequentes quebras da quarta parede apenas para mandar uma piadola ou para fazer um nível totalmente dedicado a uma imagem que conhecemos, baralham o nosso cérebro e parece que estamos sempre a jogar um jogo diferente. As referências a jogos clássicos ou bastante conhecidos é frequente, funcionando de certa forma como uma homenagem, algo que respeito.

Há também níveis episódicos, isto é, um nível tem diversos episódios como se de uma série da Netflix se tratasse. O primeiro desses remete para o The Office e, embora eu não tenha reconhecido nenhum dos momentos, a ideia subjacente resulta bastante bem.

Desbloqueamos habilidades ao jogar, cada uma delas abre possibilidades de jogo diferentes. Essas novas mecânicas abrem bastante o jogo e são essenciais para que o rol infindável de níveis não estagne. Mesmo quando não desbloqueamos uma nova habilidade, apenas o facto de não nos limitarmos a molhar coisas é refrescante. Podemos, por exemplo, absorver óleo para ficarmos com a possibilidade de incendiar coisas, absorver matéria tóxica para corroer objectos, absorver água suja para colocar nos copos das pessoas ou, a que mais gostei, atirar pedaços de pão para controlar pombas para que libertem as suas poias em cima de pessoas. É um vai e vem de ideias sem limite.

Temos um inimigo no jogo, o Dr. Dryspell que obviamente não gosta de água, mas durante muito tempo é mal aproveitado e os seus níveis não funcionam, na prática, de forma muito diferente dos outros, embora haja a possibilidade de sermos atacados, algo que não existe nos outros níveis. Fiquei sempre com a sensação que a sua utilização é muito passiva e inconsequente, acontecendo de forma truncada a cada vez que nos enfrentávamos.

Algo que não esperava era o jogo ter tantas oportunidades de customização. Alguma vez na vida sonhei que uma nuvem poderia ser tão diferente doutra, mesmo partilhando o mesmo croqui? Claro que a minha ficou imediatamente uma homenagem a Charles de Batz-Castelmore, mais conhecido como Conde D’Artagnan que por sua vez quis homenagear o com o seu visual o nosso querido líder, Ricardo Correia.

Uma representação perfeita do nosso querido líder!

A música do jogo remete sempre para jogos antigos, mais uma vez repito a ideia que há aqui uma clara vontade de os homenagear, não sei se sentida se para aproveitar a moda, mas a realidade é que resulta muito bem.

Assim, temos em Rain On Your Parade um daqueles jogos que adoro jogar. Desconhecido o suficiente para passar ao lado da maioria da malta, original o bastante para merecer atenção, com humor tão criativo que não enjoa e no catálogo do Game Pass, o que facilita muito que seja descoberto. Não encontro algo que não goste neste jogo, e mesmo não sendo a última Coca-Cola no deserto, é certamente um tesourinho que merece atenção. As 150 mil pessoas que o jogaram no primeiro dia devem certamente pensar o mesmo. Recomendado!