
Nasci nos anos 1980, como sabem. Ali mesmo a meio, num ano recheado de lançamentos musicais tão bons que gastaria o artigo todo para os enumerar a todos, ainda que Meat is Murder dos The Smiths, Hunting High and Low dos A-HA, Hounds of Love da Kate Bush, Songs from the Big Chair dos Tears for Fears ou Brothers in Arms, dos Dire Straits. Isto para não falar que é o ano de lançamento de êxitos como A View to a Kill dos Duran Duran, ou o Heaven do Bryan Adams. Aproveitando o exemplo do porquê desta demonstração do porquê da música da década e do ano em que nasci serem verdadeiramente intemporal, falo do Bryan Adams, o primeiro e durante anos o único ídolo que tive (até aquela uma senhora italiana e outra canadiana se juntarem a ele). Dos muitos sucessos que o canadiano teve, a música que mais vezes ouvi e rebobinei para ouvir no loop possível em cassete foi mesmo Everything I do (I do it for you), da banda-sonora do Robin Hood: Prince of Thieves. Um filme que marcou a minha infância numa era em que o Kevin Costner era rei, e onde eu desconhecia que décadas depois teria uma admiração para a eternidade com o vilão, o magnífico e malfadado actor inglês Alan Rickman.
É também indiscutível que Robin Hood se infiltrou nas nossas mentes há décadas, como uma das figuras mais recorrentes da literatura, mas posteriormente dos meios audiovisuais. Robin, em especial a imagem de Errol Flynn que parece ter colado a sua fisionomia ao personagem, é o epítome do aventureiro com uma grande vertente ideológica associada: ora não fosse ele e os seus Merry Men os obreiros de uma redistribuição de riqueza de um Estado opressivo.
Há coincidências curiosas, e o facto de numa semana termos encontrado dois títulos multijogador no universo de Robin Hood é uma delas. Se ainda há pouco o João nos apresentava Sherwood Extreme, um free-to-play nas florestas da emblemática e titular Sherwood, e calhou-me a mim a missão de falar do mais recente jogo da Sumo Digital, desta feita pela mão da Focus – Hood: Outlaws & Legends.

A premissa interessante de repensar os heróis de Sherwood como personagens de um jogo de fantasia e acção. A transformação mais díspar é a do pobre Frei Tooke, que tem nesta versão da Sumo o aspecto de alguém que não queremos mesmo ter como inimigo. E a própria Marianne, que abandona a clássica fragilidade a que foi vetada para assumir-se como uma guerreira das sombras.
Hood: Outlaws & Legends é uma abordagem PvPvE que funciona bem na teoria, mas que rapidamente se gasta na sua ideia, e nos fica a desejar ver este universo aplicado a um modo campanha com uma história interessante.
No tutorial são-nos apresentadas todas as ideias que compreendem este Hood: Outlaws & Legends. Temos quatro personagens com classes e habilidades distintas. Robin, o arqueiro/rogue clássico, Marianne, uma ladra, John, o habitual brawler e Tooke, um monge com capacidades de cura.
O objectivo de cada missão é sempre igual: roubar o tesouro do infame Sheriff of Nottingham, trazê-lo até a um ponto específico e içá-lo para “fora” do nível. Um objectivo aparentemente simples que acabará por ser o grande calcanhar de Aquiles de todo o jogo.
Aprendemos que a furtividade é rainha em todo o jogo. Que dado o desnível do número de soldados e a imortalidade do Sheriff, nos obrigam a ter de conhecer os layouts dos níveis de forma intensiva para termos a maior eficácia possível de entrar nos edifícios e sair com a maior rapidez.

Cada personagem, como dizia, tem o seu próprio arsenal de movimentos e especificidades. Marianne tem uma habilidade que lhe permite ficar invisível num curto espaço de tempo, o que a torna a personagem perfeita para rapinar a chave da sala do tesouro que está sempre na posse do Sheriff. Podemos também utilizar a força bruta de John para deixá-lo inconsciente, mas visto que ao contrário dos soldados, o infame Sheriff regressa “à vida” alguns instantes depois, não sem antes causarmos uma confusão tal que colocará todos os soldados em alerta e que nos dificulta o trabalho. John tem também outra capacidade adicional: a de içar o baú mais rapidamente que os restantes.
Se em traços gerais esta é a explicação do jogo, imaginemos agora como é que ele é jogado “a sério”. Duas equipas, a representarem duas quadrilhas de Merry Men, estarão a competir entre si e contra o Sheriff e os seus soldados na tentativa de obterem o baú e de o içarem para si.
Os recursos em dinheiro que conseguirem amealhar durante a missão não são para redistribuir pelos pobres, como seria de esperar, mas sim mas fazer upgrades a perks dos personagens. Como diria o Gotye: estes não são os Merry Men que eu conhecia.

Mas este processo demonstra que existem dois processos e duas visões muito distintas que dividem o jogo a meio. O momento até carregarmos o baú até à doca para ser içado e o momento em que o içamos. Todo o processo de heist movie que temos de levar a cabo em cooperação e comunicação com os nossos compagnons de crime para obter o baú, que é indiscutivelmente a parte mais interessante de todo o jogo. A fase em que a nossa destreza, táctica e coesão serão usados para levar a melhor não só perante a equipa adversária mas também os personagens controlados pelo computador.
A fase seguinte é a derrocada de todo o jogo para mim. O acto de içar o baú é demorado, e constitui uma barra com uma série de checkpoints. A equipa que conseguir içar até ao fim vence a partida, mas pode não ser aquela que avançou mais no progresso de içar o baú.
Até aqui não há problema, sem ser no processo de içar o baú. É demorado, e de um jogo tão elegante e aberto que nos incentiva realmente a ser metódicos e furtivos, esta fase passa a ser uma luta de taberna sem qualquer controlo, em que as equipas atiram toda a subtileza para o canto e decidem andar a combater para ficarem na posição de içar o baú.

Considerando que pelo meio podem haver spawns de soldados e o aparecimento do próprio Sheriff, há algo que se perde no meio de Hood: Outlaws & Legends por ser na realidade um jogo com uma abordagem tão fraturada: entre a subtileza e furtividade de grande parte das missões, até ao momento final em que tudo se torna uma confusão muito pouco invejável.
Com uma direcção artística e uma atenção ao detalhe que seria de esperar de um estúdio com a experiência da Sumo Digital, há tanto que se perde na potencialidade e execução de Hood: Outlaws & Legends que chega a ser uma pena o jogo não ter outro direcionamento.
A começar pela falta de balanceamento das equipas e a possibilidade de podermos escolher todos o mesmo personagem (para incentivar cooperação e equilíbrio o jogo deveria obrigar cada jogador a levar um personagem diferente). A terminar com o atroz momento final de içar o baú, que me de deixa na dúvida se não existiriam ideias melhores para mecanicamente aplicar na fase final do jogo, que tivesse a tonalidade do resto do jogo?













