Caçada Semanal #262

É engraçado como tem sido nas muitas ofertas do mercado indie que tenho saciado a minha fome por quebra-cabeças, nas suas mais variadas formas. Os 3 jogos de hoje são alguns dos exemplos mais originais de utilização de puzzles, com abordagens diferentes. Ainda que o último seja mais um quebra-cabeças do que um real jogo de puzzles.

pureya [Android, iOS, PC]

Os primeiros minutos em pureya lembraram-me instantaneamente dos célebres encontros relâmpago que tantas vezes vi em sitcoms e séries de TV norte-americanas. Encontros às cegas que duram apenas alguns minutos, e que após tocar um sino os presentes trocam de mesa para conhecer uma pessoa nova.

Agora imaginem isso aplicado a videojogos. Imaginem que estão a jogar uma espécie de WarioWare em esteroides em que os jogos mudam de 10 em 10 segundos exactos, sem qualquer aviso. Isso é pureya, o mais recente jogo do estúdio Majoriatto.

O estúdio espanhol já nos habituou a conceitos estranhos, mas inesquecíveis, mas nada que se compare com este pureya. São 30 jogos de arcada completamente diferentes uns dos outros que temos acesso originalmente. Todos eles têm uma particularidade: podem ser jogados com apenas dois botões – o que se pode explicar pelo facto do jogo estar indicado para PC mas sobretudo para mobile.

Apesar desta ideia estranha, há uma narrativa por trás: e em pureya somos uma menina que deixa cair uma jarra de berlindes e que encontra na sua imaginação (e nos mini-jogos que cria) uma justificação para os ir recolhendo.

Para além disso, pureya tem muitos coleccionáveis para irmos desbloqueando, num sistema de pachinko. Mas é sem dúvida um daqueles jogos cuja originalidade nos deixa com um sorriso na cara.

Where’s Samantha? [PC]

Assumir as nossas inspirações é algo que não deveria nunca envergonhar ninguém. Referir essas inspirações e mostrar o peso e a influência que têm no nosso trabalho – se não pisar o risco do plágio, obviamente – é sobretudo uma homenagem-maior a quem admiramos.

Vimo-lo ontem com Rogue Heroes e vemo-lo hoje com Where’s Samantha?. Where’s Samantha? é um claro piscar de olhos aos maravilhosos jogos “de lã” que a Nintendo foi criando com Yoshi e com Kirby. Neste caso somos o desconhecido George, um pedaço de tecido que vai ganhando diferentes propriedades para resolver os muitos puzzles em plataformas para encontrar o caminho para o reencontro com Samantha.

Antes de mergulhar nas boas ideias mecânicas deste Where’s Samantha?, há que referir a forma inteligente como um puzzle platformer decidiu ir contando a história que serve de manta que acolhe todos os níveis. Sempre que terminamos um dos muitos níveis é-nos apresentado um capítulo desta história, com um tom auto-consciente e sem se levar excessivamente a sério.

Mecanicamente o jogo vai-se apoiando num conjunto de propriedades do corpo de tecido de George. Quase todas estas habilidades envolvem a sua capacidade de poder mudar de cor, e com isso as suas próprias características. Seja ganhar peso, seja a capacidade de se dividir, há muitas mudanças que acontecem ao pequeno quadrado recortado de tecido que nos vão permitir ultrapassar os níveis progressivamente mais difíceis, onde os infames lasers vão marcar a nossa memória do jogo, e nem sempre pelas melhores razões.

Where’s Samantha? é um indie interessante onde a sua direcção artística se vai sobrepor à eventual monotonia que a sobre-utilização das mesmas ideias em puzzles vai causar. Um jogo para ir jogando de tempos a tempos, mas com uma curiosa história para contar, apara além dos desafios.

Retro Machina [Switch, PS4, PC, Xbox One]

Retro Machina foi desenvolvido pelos nossos irmãos do outro lado do Atlântico no Orbit Studio. Admito que nos primeiros dias não havia momento em que não olhasse para o ícone deste delicioso indie e não tivesse um reflexo pavloviano com Clank. E apesar de Retro Machina não estar no patamar da série da Insomniac (estranho seria se estivesse), não há nada na sua execução que a minore em relação à famosa série AAA. Onde a comparação entre os protagonistas é um elogio sentido ao excelente trabalho que os criadores do Orbit Studio atingiram.

Com uma direcção artística brilhante, de óbvias inspirações Art Déco no seu vibrante retrofuturismo, há um mundo interessante que nos ajuda a mergulhar no mindset de Retro Machina. Nesta aventura isométrica vivemos a Terra no futuro como a ficção científica nos tem habituado a esperá-la: vazia de humanos e habitada unicamente por robots.

Perante os muitos puzzles que o ambiente nos vai confrontando, vamos resolvendo cada um destes desafios com a habilidade única do nosso pequeno Clank, aliás, autómato considerado defeituoso: a de conseguir controlar outros robots.

É com esta espécie de controlo mental cibernético que vamos conseguir avançar na história, e, inclusivamente, utilizar esta capacidade para o combate, mas infelizmente este é o calcanhar de Aquiles metálico de Retro Machina.

Não só o combate soa desnecessário, como a adequação das mecânicas de controlo robótico não se adaptam bem ao sistema de combate.

Retro Machina é um bom jogo que, no meu entender, se perde por um combate que o fragiliza mais do que contribui para toda a obra. Ainda hoje penso se uma versão exclusivamente focada na resolução de puzzles e sem combate se faria deste Retro Machina um jogo cujas mecânicas estivessem no mesmo patamar de qualidade da sua direcção de arte.