City builders. Duas palavras que, a par de “pacote (de) Cheetos”, “acordar tarde”, “Doctor Who” e “lasanha (do) Lidl” se juntam a conjuntos de pares de palavras (excluindo determinantes) que me deixam a salivar de entusiasmo. Depois de um 2019 repleto de excelentes jogos do género, este 2020, apesar de estar a ser um ano para esquecer (vocês sabem do que falo) tem algumas promessas interessantes a chegarem em Early Access, e uma delas é este Before We Leave, lançado em exclusivo na Epic Store.

Há um elemento bastante humano na maioria dos city builders ou 4X, que é a quase necessidade transversal de sermos tão evoluídos que eventualmente vamos ter força suficiente para terraplanar quem quer que se interponha no nosso caminho. Ver um 4X apostar numa via de pacifismo é um risco, mas, como poderemos ver em Before We Leave, mas um risco altamente compensatório.

Em Before We Leave o mapa está repleto de hexágonos, ao bom gosto 4X, mas dispostos numa esfera, com a placa de terreno conhecida a pairar no vácuo. O efeito visual de vermos apenas a parte do globo que já conhecemos cria um efeito interessante.

Quando começarmos a ter barcos e a poder explorar outros continentes, vamos começando a “abrir” o mundo. Os hexágonos que percorremos passam a ser visíveis e o globo vai ficando cada vez mais visível.

Mecanicamente há pouco que distinga Before We Leave de outros city builders, sendo que num jogo do género com um apelo ao pacifismo o nosso único entrave é a felicidade dos nossos habitantes. Mas aí cai um dos problemas: é que há pouca clareza em relação às necessidades deles, e por vezes algumas falhas de qualidade de vida aparentes estão a ser supridas sem que isso faça aumentar os índices de felicidade. Fruto de bugs ou de falta de definição clara destas estatísticas, a realidade é que a barra de felicidade continua a não representar com exactidão as nossas acções enquanto gestores do planeta.

Para além da ocupação dos hexágonos com as construções que queremos fazer, e a felicidade (por vezes uma elemento incompreensível) a maior ameaça são as baleias gigantes, quais Galactus, que devoram o nosso planeta, se não tivermos avanço tecnológico suficiente para nos defendermos. Uma ideia ainda pouco explorada que espero venha a ter um contexto narrativo e mecânico mais interessante do que a actual insipiência em que a baleia surge no firmamento.

Com uma direcção artística tão interessante, apetece passar muito tempo neste globo a vaguear no vazio do espaço (curiosamente azul, neste jogo) e a ir evoluindo as nossas cidades, criando rotas comerciais entre elas, e ver a nossa civilização a prosperar, depois de se terem erguido do subterrâneo, após décadas de escuridão.

Com poucas diferenças da versão alpha que já era brilhante, parece-me que este delay em lançar o jogo definitivamente e já no Steam se prende mais com questões contractuais com a Epic (cumprido o tempo de exclusividade o jogo sai na sua versão final já em todas as lojas). Ainda assim, continua a ser brilhante a abordagem não-violenta de Before We Leave, que quase invoca essa aura de sobrevivência e de não agressão de Frostpunk.

A discussão da nossa fuga para o espaço há de ser conversa que vai ocupar o mundo real nas próximas décadas e que poderá ter uma materialização ainda no nosso tempo de vida. Não uma verdadeira fuga, espero, como cantava o Cid, mas uma real colonização de planetas próximos, especialmente Marte. Before We Leave aborda isso de forma magistral, tornando-se um dos mais originais city builders que já joguei.

(este artigo é uma actualização do original publicado em 15 de Maio de 2020)