Caçada Semanal #267

Oportunidades perdidas podem ficar para sempre em nós como um remorso, um arrependimento que não conseguimos afastar por muito que tentemos. Talvez uma das oportunidade perdidas que um fã de wrestling tenha, por exemplo, é o facto de que a luta de sonho entre Sting e Undertaker nunca tenha acontecido, apesar de em 2014 o famoso wrestler que imita o The Crow tenha vindo para a WWE. É claro que sofrer uma lesão e reformar-se mais cedo num combate com o Seth Rollins não ajudou ao cumprimento deste sonho.

Com o número de jogos, sobretudo indies, que jogamos por semana, é impossível que não tivéssemos repletos de desilusões de jogos bonzinhos mas que são uma oportunidade perdida de serem realmente muito, muito bons. Estes 2 indies são disso exemplo.

Cyanide & Happiness – Freakpocalypse [PC, Switch]

Há muitos e muitos anos que adoro Cyanide & Happiness, especialmente Order of the Stick, o webcomic sobre pen and paper RPGs que me fez conhecer o brilhante humor destes autores de BD e animação.

O seu ponto alto é mesmo a mistura entre humor negro e sensibilidade geek contemporânea, que os torna reconhecíveis e inimitáveis na forma como pegam em figuras de pauzinhos e apostar tudo na boa escrita e de piadas altamente memoráveis.

Não é por isso de espantar que quando foi lançada uma campanha de Kickstarter para criar uma aventura-gráfica pejada deste tipo de humor, que a comunidade se tivesse agregado para dar cerca de 575000 dólares para tornar Freakpocalypse uma realidade.

O pior é que entre a promessa de um bom jogo com puzzles memoráveis repleto do amor que fez de Cyanide & Happiness uma das mais duradouras peças de humor oriunda da internet e a realidade vai uma longa, longa distância.

Os puzzles são medianos e não aproveitam o humor de Cyanide & Happiness, nem são memoráveis. Não fosse a excelente direcção artística directa dos próprios webcomics e a marca Cyanide & Happiness no título e dificilmente este jogo teria recolhido tanta atenção como recolheu.

Mas o seu lançamento tem estado repleto de problemas. O primeiro é perante as reclamações da sua curta duração e escrita sensaborona, os seus autores decidiram renomear o jogo no Steam com um sufixo Episode 1, deixando antever que é apenas a primeira de três partes da história. O que tendo em conta que apenas esta espécie de prólogo mediano custa 20 euros não augura nada de bom.

E o que resta do jogo? Somos Cooper, que é bullied na escola e ninguém gosta dele, e está a atravessar o seu liceu a resolver puzzles habituais de jogos point ‘n click sem qualquer um que seja memorável ao ponto de sentirmos que estiveram próximos de cumprir as suas promessas.

Fate of Kai [Android, PC]

Videojogos de choose your own adventure têm nascido como cogumelos, ora não fosse a geração que cresceu a lançar dados para seguir uma história – nós – o grande motor de compras do mercado.

Criado pelo TRYLIGHT GAME STUDIO, o que Fate of Kai tem de original é que é feito em formato de banda-desenhada, e não controlamos as ações dos personagens, mas sim os seus pensamentos.

Os pensamentos são materializados em verbos, e que vão conduzir a bloqueios da história que nos vão obrigar a andar páginas para trás e a colocar esse verbo noutro balão de pensamento, possivelmente de outro personagem.

Num jogo curto como este, vamos encontrar muitas vezes essa página preta que simboliza o Game Over, ou o fim da história neste caso, obrigando-nos a ir atrás nas páginas (e em algumas situações no tempo) provocando eventos que nos permitam avançar na história.

O problema é que junto a estes ecrãs de final de história surgem alguns blocos de texto a revelarem como é que resolvemos o puzzle, o que acaba por destruir por completo o desafio de todo o jogo.

Sem qualquer texto à excepção dos verbos e substantivos que usamos, com boas ideias aqui aplicadas (e um bom livro de Banda-Desenhada interactivo), Fate of Kai peca por não ser mais original e arrojado nos seus puzzles, tornando toda a sua jogabilidade aquém do que poderia ter atingido.