Caçada Semanal #268

É impossível não reparar que muitos dos objectos de inspirações históricas têm uma visão eurocêntrica. Milhentas vezes já vimos representados os vikings, o Império Romano, a Europa colonial e os Descobrimentos, a França absolutista e a Inglaterra victoriana. Mas faltam representações de ambientes e perspectivas menos conhecidas, usualmente deixadas para rodapé de histórias que têm outros pontos de vista habituais a demarcarem o tom.

Os 3 indies de hoje falam de civilizações diferentes das que estamos habituados a ver representadas, umas reais, outra ficcional.

Aluna – Sentinel of the Shards [PC, Switch, PS4, Xbox One]

Houve uma altura em que o sucesso de Diablo causou uma sobrelotação de action RPGs no mercado de PC. Entre bons títulos e muitos outros esquecíveis que vieram apenas tentar sorver um pouco desse sucesso, ficou Torchlight e Titan Quest como alguns dos sobreviventes.

Aluna – Sentinel of the Shards é um action RPG dungeon crawler passado no Séc XVI na América do Sul, onde controlamos a titular Aluna, filha de um conquistador Espanhol e da deusa sul-americana da natureza, Pachamama. 

A direcção de arte das cutscenes é baseado na banda-desenhada americana dos 1990s, que contrastam um pouco com o tema e com a restante direcção artística do jogo propriamente dito, que infelizmente tem um aspecto datado.

Os melhores hack ‘n slash dungeon crawlers arranjam formas de manter o loop mecânico interessante. Mas Aluna – Sentinel of the Shards não é um desses casos: para além de ter problemas de IA, onde os inimigos voltam ao ponto inicial se nos afastarmos o suficiente, esquecendo-nos, é tão repetitivo e superficial que dificilmente lá queremos passar muito tempo.

Aluna – Sentinel of the Shards é um jogo monótono onde as poções são ilimitadas e os inimigos também parecem sê-lo. O loop de entrar numa nova área, derrotar vagas de inimigos, e apanhar loot poderia ser memorável se a qualidade de desenvolvimento o elevasse acima de ser apenas mais um action RPG. Com este resultado final é apenas mais um jogo… para esquecer.

NovaMundi: The Spear of Chaquén [PC]

Estamos constantemente a desenvolver novas obras em torno de mitologias, histórias e lendas já conhecidas. Mas quantas vezes os videojogos têm a oportunidade para nos ensinar algo sobre História que não seja apenas um aprofundar do que já comecemos, como fazem, com as devidas liberdades, Age of Empires e Assassin’s Creed.

NovaMundi: The Spear of Chaquén, um pequeno indie real time strategy game lançado em Early Access faz-nos isso, e centra a sua acção na Tribo Muisca, da Colômbia, que lutou contra as invasões dos Conquistadores espanhóis.

Neste jogo travamos uma expedição com os nossos irmãos Muisca pelos Andes, que temos de atravessar e tentar sobreviver, seja aos ataques de animais selvagens ou de tribos inimigas. A nossa missão é irmos encontrando outras aldeias Muisca e convencer os seus líderes a juntarem-se para repelir as invasões espanholas, impedindo-os de pilharem as povoações isoladas no meio dos Andes. Dessa forma o nosso número de unidades vai aumentando e tornando-nos mais fortes em combate.

O mapa vai sendo “desenhado” à medida que exploramos as florestas, e a utilização de batedores que nos encontrem fontes de comida, água ou informações obre outros Muisca acaba por ser um ponto fulcral.

Com combate em tempo real com pausa para atribuímos decisões tácticas, NovaMundi: The Spear of Chaquén é um interessante jogo de estratégia que nos mostra o expansionismo espanhol sob a perspectiva dos povos ocupados.

Siege of Avalon Anthology [PC]

O único jogo que não retrata um local do nosso mundo, Siege of Avalon Anthology foi originalmente lançado em 2001, em pleno auge da fama de Baldur’s Gate e de Diablo. A influência de ambos percebe-se em aspectos diferentes, mas este RPG clássico traz-nos uma navegação isométrica que o coloca quase directamente no período em que foi desenvolvido.

À semelhança do histórico jogo da BioWare, Siege of Avalon Anthology tem muito texto para ser lido. Aliás, a quantidade de leitura envolvida percebe-se no volume de diálogos, pergaminhos, livros e outros elementos literários que temos de ler pelo caminho.

Para percebermos o quão old school Siege of Avalon Anthology é, as quests não têm qualquer marcador ou indicador, e temos de as ler de fio a pavio, investigar, conversar e explorar para sabermos o que, e onde fazer para as ultrapassar.

Com três classes clássicas na construção de personagem (fighter, scout e mage), esta acaba por ser apenas uma pré-definição das nossas estatísticas iniciais, já que progressivamente podemos evoluir o nosso personagem numa direcção distinta da que escolhemos no character creator.

Com uma gestão de inventário semelhante aos velhinhos Diablo, utilizando um sistema de grelha onde temos de fazer um verdadeiro puzzle para encaixar todo o loot que vamos encontrando, Siege of Avalon Anthology é um jogo com 20 anos que tem aqui uma oportunidade de uma segunda vida. E que é destinado a todos aqueles que gostam de RPGs da velha guarda.