Caçada Semanal #271

Quem acha que a política e a expressão artística deveriam estar completamente separados não tem qualquer ideia da História da Arte ou mesmo da literatura. A criação artística sempre esteve correlacionada com uma tomada de posição social e política.

Os 3 indies deste artigo abordam perspectivas políticas e sociais diferentes, por muito subtis que sejam, fazendo-nos reflectir seja pelos seus elementos de gestão, seja pela simulação.

Grand Casino Tycoon [PC]

Tycoons, tycoons, o meu reino por tycoons. Este ano já joguei tantos jogos de gestão – sendo que a maioria tem sido um tiro ao lado terrível – que a premissa de ter um management game dedicado a casinos de imediato me pareceu uma excelente ideia.

Logo nos primeiros minutos descobrimos o segredo mais mal guardado da indústria dos casinos: o segredo para ter uma excelente casa de jogo de sorte (legal) é manter os clientes dentro do edifício o maior tempo possível. Por alguma razão quase não se conhecem casinos a irem à bancarrota. Quer dizer, se excluirmos os desse génio dos negócios chamado Donald Trump.

Existem sete tipos diferentes de gamblers aos quais temos de apelar, e cada um deles tem gostos e vontades distintas. Características únicas que nos obrigam a adaptar o género musical do som ambiente, e mesmo as decorações. 

Tudo influencia a aprovação destes estereótipos de gambling, até os WC. Acreditem. Tive muitas vezes de andar a jogar a uma espécie de Tetris do planeamento arquitectónico para encontrar a distância perfeita do WC de forma a que agrade aos que não querem andar muito, mas cujo odor não enoje aqueles que se sentem negativamente afectados por lavabos.

Na realidade, Grand Casino Tycoon não é um verdadeiro tycoon. É mais um puzzle game em que vamos montando peças para agradar aos gostos específicos dos big spenders. O que, infelizmente, o afasta bastante da fórmula dos tycoon, para seu próprio demérito.

Ao ser uma sucessão de quebra-cabeças, tornou-se menos livre do que queria ser, e muito, muito mais limitador.

The Invisible Hand [PC]

Já todos devem saber que sou um social-democrata, e sempre que ouço a expressão liberal e neoliberal da “mão invisível do mercado” sinto alguns dos meus esfíncteres a terem problemas e sinto os ácidos gástricos a chegarem-me à boca.

The Invisible Hand é um simulador de correctores da bolsa que ao mesmo tempo mostra o quão desumana é toda a economia bolsista, um jogo de aposta glorificado onde o mundo real é o elemento diferenciador, onde se destroem países e se erguem impérios.

Criado pelo estúdio Power Struggle Games, este simulador tem uma grande carga narrativa para além do loop diário de percorrer os 4 ecrãs na nossa secretária na vontade de comprar e vender acções com a maior margem de lucro para o nosso empregador, para os nossos clientes, e com uma percentagem a ficar para nós.

Em The Invisible Hand cumprimos um dia de trabalho inteiro, e a velocidade a que o dia passa depende das bebidas que consumimos. Podemos beber café e o tempo acelera, ou um chá e a passagem do tempo torna-se mais lenta.

Apesar do loop mecânico ser repetitivo, e de simplesmente a bolsa se ir complexificando em termos de categorização dos diferentes tipos de acções disponíveis para negociar, há alguns elementos interessantes. Um deles é o facto de que desde o primeiro dia de trabalho que ganhamos acesso a uma rede clandestina de informação financeira que nos alimentando com informações privilegiadas, de forma ilegal, que nos permite anteciparmo-nos a algumas quedas ou subidas do mercado.

The Invisible Hand tem algo de hipnótico na forma como nos sentimos absorvidos pelo seu mundo, e na forma como somos tragados a ter um segundo (ou terceiro) emprego, virtual, na qual somos mais uma peça da selvajaria do mercado de valores-

 

Base One [PC]

Muitos são os bons management games espaciais focados em elementos financeiros. Base One quer focar-se num elemento mais simples: a sobrevivência da nossa tripulação. A economia fica para um canto quando o valor humano deveria estar no topo das preocupações. Qualquer semelhança com o mundo real é pura utopia.

A abordagem conceptual de Base One é de hard sci-fi, sem qualquer elemento de fantasia associado. Não existem laivos de space opera ou de swashbuckling intergaláctico: a nossa missão enquanto construtores e gestores desta estrutura à deriva no espaço é garantir a subsistência e sobrevivência dos humanos que ali habitam.

Começamos com apenas duas pessoas na nossa tripulação, e dada a camada de RPG associada temos novas “classes” de pessoas para integrar, cada uma com características e estatísticas individuais. Sejam cientistas, ou membros da manutenção, cada pessoa é uma peça fulcral na rede complexa de manter a sobrevivência do colectivo.

Ao contrário de algumas abordagens mais superficiais ao género, Base One apresenta uma rede mecânica altamente complexa e com uma necessidade pungente de microgestão de todos os elementos que compõem a estrutura da nossa estação espacial.

Do ponto de vista de crescimento da própria estação temos o habitual: um hub base ao qual vamos adicionando novos módulos, criando uma rede de divisões interdependentes cada vez mais complexa. Num sistema onde temos de seguir a fórmula de pesquisar, construir e fazer upgrades para encontrar cada vez melhores soluções estruturais para a nossa estação espacial.

Base One é do mais complexos management games dedicados a estações espaciais que já jogámos e é sem sombra dúvida um jogo nada fácil para jogadores que não estejam habituados ao género.