As paredes do escritório vestiam-se novamente com a luz da Lua. O vento levantava o pó da secretária e este misturava-se com o fumo de mais um cigarro, criando ondas hipnotizantes que prendiam o olhar, onde se formavam, como castelantes nuvens, imagens da minha torturada memória. Paixões, ódios, luxúrias e rancores, todas me vinham à mente quando o tédio de uma secretária vazia se mostrava. A porta rangeu ao abrir-se e colocou em fuga as figuras e aguçou o meu olhar. Ela caminhou na minha direção, com um olhar determinado e um andar preciso. Sem falar, tirou um envelope da mala e atirou-o sobre a secretária. Desprendi do seu olhar para o papel cor de café por apenas um momento, mas quando a voltei a procurar, a porta fechava-se já e foi a última vez que a vi. Na minha secretária, contudo, jazia ainda o sobrescrito, com apenas uma palavra… seria este o meu próximo terror noturno, ou o meu próximo deleite? O que esconde, “Pecaminosa”?

“Espera, para que serviu a gravata?”

Com a premissa do jogo escandalosamente impressa no menu inicial, Pecaminosa deixa pouco dúvida que se inspirou nos filmes de detetives noir americanos dos 1930s e 1940s. Vêm à mente cenas de um escritório mal iluminado, de quantidades de tabaco e álcool que nos deixariam a nós, homo sapiens inferiores, mais com voz do Batman do que com o charme e o aguçado intelecto com que Humphrey Bogart fazia tanto damsels in distress e as femmes fatales (e a nós também, ufa) ficar sem pinga de sangue. Tal como em muitos desses filmes, parece que em Pecaminosa, as regras existem para ser contornadas.

Mal o jogo começa, tomamos contacto com a personagem principal, Souza, John Souza. Que originalidade, um detetive (provavelmente americano) chamado John, de descendência diga-se lusitana, mas eis o twist, o seu nome é Souza, com “z”. Para um mercado mais internacional, talvez este pequeno pormenor não salte ao olhar, mas no teclado crítico do tuga, tal infâmia não passa ao lado. Será isto um representativo do humor do jogo? Será isto um sinal do porvir? Não percam os próximos parágrafos, porque nós também não! Como podem ver… não é difícil fazer humor referencial para o público português. Souza é um ex-polícia (nada previsível), alcoólico (ver os parêntesis anteriores) e consumido pelo seu passado. Até aqui, tudo parece ser tão genérico como o comprimido que tomamos para a garganta irritada, mas como vamos ver, tanto para o bem, como para o mal, Pecaminosa é um jogo que quer ser diferente. 

Souza é visitado por três fantasmas. Não, não é Natal e Souza não se vai tornar uma pessoa melhor no dia seguinte. Estes são os fantasmas de três vilões que Souza fez com que não precisassem mais de segurança social. Seria de pensar que Charlie “Two Angels” quisesse vingar-se do homem que o matou, mas aparentemente esse não é o seu estilo. Este quer apenas evitar ter de arder no inferno para toda a eternidade e oferece a Souza uma lista de tipos a eliminar. Tivesse este fantasma, cuja cara é estilizada nas figuras dos dia dos mortos mexicano, um voz um pouco mais profunda e estaríamos perante um autêntico Raymond Reddignton da série Blacklist. Para tornar mais doce a sua oferta, o manager da banda Anjos fala sobre a possibilidade de Souza reencontrar o seu parceiro perdido.

Sendo Souza um veterano detetive da polícia e um homem sem nada a perder, seria de esperar que Pecaminosa nos atirasse com mistério, enredo e ação de cortar a respiração. Um desses elementos ficou pelo caminho no desenvolvimento deste jogo, contudo.

Quando finalmente tomamos o controlo de Souza, após uma cutscene inicial que quase pareceu a eternidade de tormentas prometida a Charlie “anjos papudos”, rapidamente nos apercebemos que este jogo tem um controlo fluído e que a facilidade de movimento e rotação terá um papel preponderante no seu decorrer. Com teclado e rato, funciona como qualquer shooter, onde WASD controla o personagem omnidirecionalmente e o rato trata de apontar. Os botões do rato servem para o ataque e defesa e dominar estes controlos significará a diferença entre um tiro certeiro, ou ter de despejar uma incessante bateria de chumbo para matar uma ratazana a quem parece que devemos dinheiro.

“1 da manhã… e aí vão 2 da manhã!!”

Após uma pequena exploração e um pequeno tutorial, aprendemos as bases dos controlos do jogo. Fora do quarto e antes de começarmos a explorar os cantos à cidade, deparamo-nos com talvez um dos inimigos mais poderosos do jogo e que também é um dos mais frequentes, um verdadeiro Zubat de Pecaminosa, o saco de lixo. No nosso primeiro encontro, pensamos logo que talvez fosse este o boss final, pois só após uma incessante batalha (8 socos), o normalmente frágil saco se desfez. Mal sabíamos nós que esta seria apenas a primeira de muitas batalhas deste género. Existe um inventário de fácil acesso, através de hotkeys, um comando especial de dash e a interação com o mundo é satisfatória. Tudo acontece no devido tempo e os menus do jogo funcionam sem chatear. Falar com os NPCs que preenchem a cidade é feito com uma ação simples e, na maior parte dos casos, pouco input é necessário por parte do jogador. Pontualmente, aparecem opções de diálogo, mas o mais comum são verborreias de informação e uma ou outra piada por parte de Souza.

Quando saímos pela primeira vez para a rua, Pecaminosa mostra as suas cores. Uma cidade viva, com um aspecto noir delicioso, todo desenhado em adorável pixelart e que parece oferecer grandes possibilidades de exploração. Não podemos negar que ficamos completamente apaixonados pelo estilo. Desde os edifícios com nomes engraçados aos detalhes dos objetos do mundo, tudo parece ter sido criado e desenhado com grande atenção e parece estar no lugar certo. Até agora, contudo, ainda não nos tínhamos apercebido de uma das componentes mais charmosas deste jogo, o áudio. A música do jogo, que praticamente parece uma playlist do Spotify de jazz noir, inunda o jogo com uma sonoridade adequada e dá-lhe notas de autenticidade. Esta vai-se modificando conforme as situações e, de um forma geral, parece ter sido escolhida a dedo.

Ao deixarmos o transe do som e do aspeto visual, apercebemo-nos que existe um mini-mapa que demonstra o nosso objetivo e as várias ruas da zona onde nos encontrámos. Rapidamente nos apercebemos que podemos seguir em qualquer uma das direções e isto abre imensas oportunidades de exploração. E, como verdadeiros fãs de jogos abertos que somos, decidimos fazer isso mesmo, possivelmente obtendo itens que nos pudessem auxiliar na nossa demanda. Contudo, após uns 30 minutos de exploração, apenas encontramos NPCs que nos disseram uma ou outra informação não pertinente e muitos que se tivessem dito “blá, blá, blá Whiskas saquetas”, teríamos ficado a saber o mesmo. Resolutos, decidimos explorar os cantos da cidade até que encontramos uma tampa de esgoto que nos dava acesso à área subterrânea da cidade. Infelizmente, após uma sangrenta batalha com uma ratazana, padecemos e chegamos a Game Over. Claramente que ainda não estávamos prontos para aceder a esta área e decidimos voltar apenas quando tivéssemos uma arma que pudesse enfrentar a grotesca criatura.

“precisão é tudo”

Navegar pelo mapa é bastante simples. Podemos escolher a zona para onde queremos ir, podemos atravessar as zonas através de táxi, ou caminhando. O nosso objetivo está assinalado no mini-mapa, pelo que é fácil encontrar o destino. Após algumas pequenas fetch quests, finalmente encontramos a nossa arma (que afinal de contas, era igual a todas as outras). Artilhados, com sede de vingança, decidimos descobrir o que o Mestre Splinter escondia nos esgotos. Voltamos à tampa de esgoto, descemos novamente e enfrentamos a ratazana e os seus três ou quatro primos, fazendo uso da nossa nova arma para os desfazer em pedaços. Após uma exploração, contudo, apenas munições e itens curativos pareciam popular o esgoto. Infelizmente, isto foi algo recorrente ao longo de todo o jogo. Apercebemo-nos que estas zonas opcionais apenas ofereciam a oportunidade de adquirir mais experiência (para efeitos de grinding e subida de nível) e farming de itens ou dinheiro.

Depois de algumas missões, apercebemo-nos que o que experienciamos nesta primeira saída, seria recorrente ao longo do jogo. Sem dúvida que não falta exploração e locais bonitos com NPCs e alguma história, mas estes não oferecem side quests e a única razão para nos aventurarmos para fora da estrutura linear do jogo é para obter itens ou dinheiro. O nosso mapa vai-se preenchendo com os “pontos de interesse”, mas numa cidade tão grande, pouco há para fazer. Pelo menos, ao obtermos os hieróglifos …ah… ícones do mapa, parece que estamos a fazer algo significativo. Avançando um pouco mais no jogo, notamos que a progressão neste se resume a ir até um ponto no mapa, interagir com os NPCs, ir até outro ponto no mapa, fazer os NPCs mais violentos perderem peso drasticamente e repetir até encontrar um dos bosses. 

Pelo meio do jogo, apercebemo-nos que Souza consegue melhorar as suas habilidades, não só porque adquire mais dinheiro e consequentemente mais munições, como também sobe de nível. Através de um sistema que esperamos que não infrinja quaisquer copyrights, podemos aumentar a capacidade de Souza no L.I.F.E (Luck, Intelligence, Force, Endurance). E não, o Souza, não usa sabres de luz. Aumentando cada uma destas, surgem novas escolhas de diálogo nas conversas com NPCs (ver: Fallout), que podem determinar se Souza tem de fazer a sua pistola falar ou não, aumentam-se velocidade, força e outros atributos, fazendo com que Pecaminosa tenha alguns elementos de RPG. Finalmente, após algum treino, podemos voltar a defrontar os famigerados sacos de lixo, apenas para nos apercebermos que continuam a ser mais resistentes que aquele pão da avó que deixamos no armário no verão passado.

Para aumentarmos essas habilidades, temos então de fazer Souza matar todos os NPCs menos amistosos. Isto não é difícil, pois o sistema de combate de Pecaminosa é, na verdade, muito acessível. Basicamente, se jogaram Alien Shooter, sabem que a melhor solução é fugir do inimigo na direção contrária enquanto lhes apresentam uma sandwich de chumbo. Sejam ratazanas, cães, gangsters ou qualquer coisa que se mexa (ou não, até caixotes e sacos de lixo recebem o mesmo tratamento), a estratégia é a mesma. Infelizmente, Pecaminosa não varia muito a sua fórmula, lançando, quase sempre, o mesmo tipo de inimigo. Isto faz com que os combates sejam fáceis e previsíveis. Quando entramos numa área, não é necessário desenvolver uma estratégia de qual o inimigo mais importante a matar, basta fugirmos de forma a que estes nos persigam e clicar no botão de disparar. Embora o combate se torne interessante em certos momentos, em particular no início do jogo, onde damos prioridade ao combate corpo-a-corpo ao invés do uso de armas, ou durante as batalhas de boss, que requerem a descoberta de padrões e gestão de munições, Pecaminosa peca por não incluir outros elementos que pudessem tornar os encontros mais interessantes. Os inimigos atacam sem estratégia e desde o momento que entramos no círculo de deteção deles, perseguem-nos como se fôssemos a única Playstation 5 na Black Friday. Honestamente, o único problema que vão encontrar durante o jogo é a gestão das munições. Para facilitar a jogabilidade, todas as armas usam a mesma munição e entendemos esta decisão por parte dos desenvolvedores. Gerir o seu uso e não derreter tudo com a caçadeira pode fazer a diferença entre acabar o capítulo e ter de fazer backtrack para uma loja.

Para além de novas armas, Souza consegue adquirir novo vestuário. Isto é algo que achamos fantástico, pois abre a possibilidade de termos vantagens. A sua gravata da sorte, um fato de polícia e SPOILER MOMENT AVOIDED, mas não mais do que isso. Esta é uma feature que consideramos mal-aproveitada. Podia ter sido expandida com uma ou outra sidequest onde após eliminarmos uns tipos que contribuem pouco para a sociedade, obtínhamos umas sapatilhas neon que davam +2 de endurance, por exemplo. 

E assim, combate a combate e fazendo o mais óbvio trabalho de detetive, vamos progredindo no jogo e avançando na história. E é aqui que o jogo, que até agora parecia estar grounded na realidade com um pequeno toque de misticismo, nos dá mais voltas que o Tony Hawk com esteróides. Claro que já sabíamos que íamos ter de enfrentar bosses com poderes “diferentes” e até talvez o Carlinhos se tornasse um oponente, mas de onde raio é que saíram as aranhas gigantes? Os bicharocos do Starship Troopers decidiram fazer um cameo? Já dissemos que esta parte é no meio de um deserto? Para além de parecer uma área de “encher chouriço”, rapidamente nos apercebemos que podemos fazer dash por ela toda, sem nunca nos chatearmos com um inimigo. E foi isso mesmo que fizemos. Entre algumas piadolas e grandes referências pop (Brooklyn 99, anyone?), Pecaminosa acaba por nos levar com a sua narrativa “diferente”. A escrita por vezes soa um pouco cringe, mas talvez seja essa a intenção e aconselhamos que não levem a história tanto a sério. Se entenderem este jogo como uma paródia do início ao fim, sem dúvida que será uma melhor experiência.

“Isto está aquecer”

Contudo, há um ponto que não podemos deixar passar. Souza é talvez o detetive mais abençoado de sempre. O Batman quer ser como ele. O Sherlock só sonha e nem o Gadget com a sua gaita de beiços com GPS consegue ter a capacidade mágica de saber sempre onde encontrar as pistas e o seu próximo destino. Para um jogo em que a personagem principal faz check em todas as caixinhas para ser um detetive, pouco trabalho de deteção é feito. Era esse elemento que esperávamos quando o iniciamos. Poder analisar pistas, falar com diferentes NPCs e interligar informações. Seguir setas não é trabalho de detetive. O filho da nossa vizinha tem dois anos, come areia e morde o rabo do nosso gato e sabe fazer isso.

Em suma, Pecaminosa é um jogo que entretém durante um fim-de-semana, com uma história engraçada e diferente e algumas boas ideias. A sua execução podia ser melhor, em particular na forma como nos deixa com vontade que ofereça mais exploração, mais diversidade de conteúdo e que não nos leve tanto ao colo. É uma joia de se ver e ouvir (embora jazz, em algumas cenas, talvez não fosse a melhor opção) e cujos controlos fluídos parecem parecem manteiga quente em pão de forma. Tal como o cheirinho de torradas, deixou-nos com fome de algo mais.