Caçada Semanal #277

Dá-me um irreal, um imaginário…dá-me um irreal” foi desta forma que João Loureiro abriu um dos seus maiores êxitos musicais, décadas antes de ter problemas aeronáuticos. Mas com tantos jogos de simulação, apetece-me mudar a letra do Irreal Social para algo mais próximo de “Dá-me um quase real, um simulacro, dá-me um quase real. Vamos simular… por aí”.

Os simuladores – que depois de Goat Simulator e Surgeon Simulator – existem em todas as formas e feitios, têm no mercado AA mas especialmente no mercado indie algumas das suas propostas mais… tresloucadas. Os dois jogos que trazemos hoje são apenas alguns desses exemplos.

Going Medieval [PC, Linux]

Esta caçada vai começar de uma simulação macro, a de uma colónia medieval, para o particular. Num caminho de escala que se vai aproximando cada vez mais da simulação individual. Going Medieval, lançado em Junho em Early Access, é esse exemplo. Um simulador que nos coloca a sobrevoar e a supervisionar uma pequena povoação na turbulenta e perigosa era Medieval.

Em plena pandemia, mergulhar em Going Medieval é agarrar uma pequena aldeia medieval inglesa do Séc. XIV acabadinha de sair da pandemia, onde 95% da sua população pereceu perante a praga. Temos, portanto, a necessidade de construir uma nova povoação do zero, e temos de recolher os recursos básicos para servirem de pedras basilares a esta nossa colónia pós-pandémica.

A micro-gestão da nossa comunidade é a palavra de ordem. Não nos resta apenas a tarefa de construir e planear as construções e a disposição do nosso aldeamento. Ou gerir e antever as necessidades de recursos e fortificações perante os muitos perigos que os nossos colonos possam encontrar, sejam eles naturais ou humanos, em especial os ataques de outras tribos que tentam saquear os nossos recursos.

Mas a micro-gestão de atribuir tarefas aos nossos colonos e de planear o seu dia, entre trabalho e lazer, de forma a manter os seus níveis de felicidade (e saúde) elevados. 

As semelhanças com RimWorld são inevitáveis e as expectativas do que é que Going Medieval poderá vir a ser quando estiver finalizado são elevadas. Com um ambiente enquadrado no tema e uma direcção artística de laivos low-poly, este jogo que nos chega pela mão da The Irregular Corporation é um dos melhores e mais promissores colony sims dos últimos anos.

Just Die Already [PS4, Nintendo Switch, PC, Xbox One]

Just Die Already foi desenvolvido por Armin Ibrisagic e por outros dos criadores originais de Goat Simulator, chega-nos mais um potencialmente infame e ridículo jogo de simulação. Para trás Inrisagic e companhias deixaram os bodes e outros caprinos para apontar a sua imaginação à simulação geriátrica… mas exagerada como é o seu apanágio.

O enquadramento narrativo do jogo é a de um mundo onde as crianças já não nascem, e portanto não existe ninguém para contribuir para as nossas reformas. Cabe-nos fazer coisas cada vez mais perigosas e infames para recebermos senhas de reforma que nos tragam os cuidados de um lar.

Controlamos um idoso (ou uma idosa) e temos de nos evadir de um lar. Depois de o conseguirmos fazer – e de uma sequência em que não só nos ambientamos com a física de boneca de trapos, mas também com a possibilidade de interagirmos com quase tudo – o mundo é uma ostra. Neste caso, por “ostra” entenda-se a capacidade de semearmos o caos e de exprimirmos toda a nossa maldade pelas mãos trémulas de um velhote numa fúria destrutiva e vândala.

A destruição que o jogo nos permite levar a cabo e a Física são herdadas de outros simuladores de comédia. Com a possibilidade de renascermos infinitamente, o nosso velhote assume o papel de um psicopata sem nada a perder, e tudo nas suas mãos pode tornar-se uma arma. À semelhança do Deathstroke e do Bullseye (isto só para dar igual destaque a personagens das principais editoras de BD).

E qual o objectivo, para além da óbvia insanidade de controlar um velhote pelas ruas de uma cidade e semear o caos? Para estender a loucura subjacente a Just Die Already os seus criadores implementaram um sistema de pontuações e de combos à la Tony Hawk’s Pro Skater, o que nos obriga a ser cada vez mais criativo na nossa fúria destrutiva.

Just Die Already é insano, mas menos não se esperaria das mentes que contribuíram para que simulador fosse nos dias de hoje sinónimo de comédia. Ah, e desde há alguns dias Just Die Already tem mods PVP, porque ter velhotes à pancada é a razão para a indústria dos videojogos existir, aparentemente.