Cris Tales aparece descrito no Steam como “uma linda carta de amor indie aos JRPGs clássicos com uma nova perspectiva”. Na minha perspectiva, apesar de ter uma história muito interessante, só me fui forçando a continuar para tentar encontrar a magia que algumas pessoas esperavam que tivesse. Até desistir, não a encontrei.

Cris Tales começa cheio de potencial. Admito que talvez tenha esperado demasiado do jogo após as primeiras horas. É, de facto, um JRPG que tenta introduzir algumas mecânicas interessantes às tradicionais batalhas por turnos e enquanto no-las ensinam nós começamos a imaginar as combinações que podemos fazer com esse sistema… o potencial é enorme. Passo a explicar.

Controlamos Crisbell, uma criança que descobre que consegue controlar o tempo e ao mesmo tempo consegue ver o passado e o futuro, além disso as acções que realiza no passado, com a ajuda dum curioso sapo chamado Matias, reflectem-se no futuro. Esta mecânica é usada quer nos combates, quer a solucionar puzzles fora deles. Como seria de esperar não estamos sozinhos no mundo, temos uma party com outros elementos cada um com as suas habilidades, sendo as interacções entre estas o eventual sumo das batalhas. Por exemplo, temos a possibilidade de com um elemento efectuar um ataque de água e com Crisbell transportar o inimigo para o futuro onde este vai aparecer enferrujado, podemos transportar um elemento para o passado onde vamos semear uma planta que, após voltarmos ao presente, vai envenenar todos os inimigos nessa área, podemos transportar um inimigo para o passado tornando-o um jovem sem os seus poderes mais fortes, … contudo estas dinâmicas tornam-se repetitivas ou mesmo pouco proveitosas, por muito divertidas que pareçam no papel, aliás é tão frequente a preparação destas combinações custar tanto a optimizar que me via maioritariamente a preferir o combate simples, já que era a maneira mais eficiente de derrotar os inimigos, especialmente após a evolução das nossas personagens. Esta peculiaridade faz com que, ao contrário doutros jogos que tentaram dar outro charme ao combate por turnos como Xenoblade Chronicles ou Child of Light este se vá tornando muito mais aborrecido com o progresso na história. Eu devo ter parado sensivelmente a meio, considerando os mundos onde me falta ir.

Há uma componente de evolução dos personagens, em que para além de se tornarem mais fortes aprendem novas habilidades. Para irmos subindo de nível é importante fazermos as missões acessórias, mas cedo me aborreci delas, mesmo sabendo a sua importância, cingindo-me àquelas que não implicavam desvios da missão principal. Na minha opinião ajudava o sistema de preço de itens ser mais equilibrado, pois é muito penalizador para a nossa carteira fazermos essas missões, por norma cravejadas de repetitivos inimigos. Uma maneira de simplificar o combate é, repito, fugirmos ao que o pode tornar mais divertido. É um jogo muito desequilibrado nas suas mecânicas.

Já a história do jogo é bastante intrigante e, existindo uma razão para agarrar alguém, é com ela. Claro que algumas das premissas em que assenta inicialmente são um bocadinho cliché, mas a partir daí há sempre algo que acrescenta uma informação ao drama, que constrói uma narrativa diferente e, de forma geral, vale bem a pena seguir os diálogos. Acrescento que o trabalho de voice over é bastante bom para um jogo indie. Por vezes gostava de ter a opção de calar os bonecos, mas isso não foi o caso neste jogo.

Graficamente extremamente apelativo Cris Tales é um chamariz para os olhos pois a persistente imagem de fundo despoleta a curiosidade. O nosso personagem envolto num triângulo, aparentemente sem justificação é, no mínimo dos mínimos, intrigante.

Com uma selecção musical bastante competente eu tenho que dizer que as componentes técnicas do jogo estão bastante bem executadas.

Termino mencionando um aspecto que não consigo entender. Joguei o jogo no PC dentro do serviço Game Pass. O jogo pode ser jogado em consola, PC e cloud. O que podemos deduzir com isto? Que há uma compatibilidade com cloud saves. Não há. Esqueçam. Cada equipamento cada save. Não há cá pão para malucos. Para mim, incompreensível. Tive dois saves ao mesmo tempo e isso até criou um conflito nos achievments, não me tendo reconhecido alguns deles, talvez por andar a jogar em dois PCs ao mesmo tempo. Não considerei isto, pode ter sido só de mim.

É uma pena Cris Tales não atingir o seu potencial. Há momentos em que a mensagem que nos tenta transmitir chega a ser confusa, pois o que nos impele a fazer as mecânicas querem que evitemos. Não sei até que ponto isto poderá ser afinado com o simples equilíbrio de mecânicas e valores ou se é esta a intenção final do programador. Nota-se a milhas que o jogo foi bastante pensado e feito com imenso cuidado, mas talvez falte o desafio para o fã de JRPGs, e garantidamente não fornece o estímulo necessário para trazer o jogador que não gosta de lutas por turnos, como é o meu caso. Estar preso neste limbo, apenas alicerçado numa boa história e gráficos lindíssimos, faz-me ter alguma dificuldade em perceber quem é o seu público alvo e saber a quem o recomendar. Esperem, por vezes esqueço por completo um novo público alvo, o jogador que subscreve o Game Pass. São subscritores do Game Pass? Têm um tempo livre? Deem-lhe uma chance e pode ser que convosco faça o clique que não fez comigo.