Ainda hoje acho curioso como é que alguém que nunca gostou de jogos de cartas tradicionais, como sueca e até poker, viria a ser tão fã de jogos de cartas como um todo, que olharia com ansiedade para todos os jogos de tabuleiro e videojogos que as utilizassem como base mecânica. Esse alguém, como devem ter percebido, sou eu.

Se essa paixão por jogos de cartas é evidente, também é sobejamente conhecido o meu fraquinho por roguelikes e roguelites. Há algo na tentativa-erro e no exercício de tentar chegar cada vez mais longe, captando parte da progressão que me evoca os meus tempos de criança, e as minhas portas de entrada no mundo dos videojogos.

Misturas entre jogos de cartas ou jogos tradicionais com roguelike já experimentei de quase tudo. Entre o recém-descoberto vício em Dicey Dungeons e a forma brilhante como utiliza os dados como elementos de ataque (inspirado, obviamente, em grandes jogos de tabuleiro) e Solitarica, que transforma um corriqueiro jogo de Solitário num turn based RPG, tinha dúvidas que a utilização de Poker como linguagem do combate viesse a fazer algo diferente do que outros jogos já tinham feito anteriormente.

Mas, contrariando as minhas dúvidas, Poker Quest rapidamente me mostrou o porquê de ser tão diferente, e de conseguir implementar um mindset próprio a esta nouvelle vague de roguelikes com elementos mecânicos de jogos físicos.

Lançado no Steam em Early Access após algum tempo de levedura no Kongregate, Poker Quest é o fruto do trabalho dos últimos anos da Playsaurus, que se tornou famosa com o lançamento dos dois jogos da série Clicker Heroes.

O sistema de navegação segue os preceitos tradicionais destes novos roguelikes: orientamo-nos por um mapa com ramificações, onde escolhemos que desafios (e que previsão de retorno) tomaremos em cada um dos troços que decidamos prosseguir.

Existe, porém, um custo de comida por cada passo que damos no mapa, e se tivermos de nos mover sem termos o pagamento de comida para o fazer, começamos a perder HP. Este é um equilíbrio difícil entre exploração e o custo de o fazer, visto que o HP é indubitavelmente o mais importante do jogo, já que é tão difícil de curar e tão fácil de sangrar (literal e metaforicamente) os nossos preciosos pontos de vida em combate, mas também fora dele.

O jogo tem previstas 15 classes com estilos de jogos, equipamentos e habilidades únicas – materializadas, obviamente, em cartas especiais – e que requerem uma mão específica de poker para serem activadas. Estas classes vão sendo desbloqueadas e vão mudando profundamente a nossa abordagem ao jogo.

O número de cartas que nos são reveladas e ao inimigo dependem de factores passivos, de características intrínsecas à nossa classe e à definição do adversário, ainda que possam ser melhoradas e alteradas à medida que vamos avançando no jogo.

O combate dá-se por turnos e conseguimos ver pelas cartas reveladas que poderes vão os inimigos poder usar no seu turno. Como existem cartas ocultas na mesa para o oponente temos de tentar calcular as probabilidades de estar ali a carta que lhe interesse para poder activar um poder mais mortífero.

Poker Quest apresenta uma profundidade mecânica nos seus combates e diversidade de inimigos, assim como uma excelente utilização de um baralho de cartas normal enquanto base para um RPG por turnos. Mesmo para quem não conhece a fundo as mãos e terminologia do poker, basta-nos passar com o rato sobre um determinado termo que um pop-up nos explica exactamente que cartas constituem determinada jogada. O resto, tal como no poker, é cálculo de probabilidades e uma dose equilibrada de sorte e azar: saber que skills usar, se defensivas ou ofensiva, é a diferença entre o sucesso e o término precoce de uma run.

Com a introdução dos damage over time como o sangramento ou o envenenamento a nossa gestão dos nossos parcos pontos de vida tornam-se ainda mais difíceis e desafiantes de fazer, obrigando-nos a conhecer a fundo não só as habilidades da nossa classe mas também a escolher racionalmente os inimigos que decidimos defrontar na nossa jornada.

O jogo possui ainda diversos recursos limitados, como moedas (para comprar novo equipamento), gemas (que podem ser usadas para trocar por comida, por exemplo) e fichas de poker que servem para atordoar o adversário. Gerir estes recursos é parte da sagacidade de push your luck de Poker Quest e saber quando os gastar pode ser a diferença entre ter uma playthrough com moderado sucesso ou o falhanço total.

Para além do modo de campanha, Poker Quest tem daily runs, para além do modo de campanha, impelindo-nos a voltar ao jogo diariamente.

Poker Quest é surpreendentemente profundo, e é daqueles jogos desafiantes que partem, de forma genial, de premissas de conhecimento geral, que neste caso é o poker. A forma como se interliga esse jogo de cartas de azar a um high fantasy turna based RPG com uma grande complexidade mecânica é o segredo para um dos mais interessantes videojogos de cartas deste ano 2021.