Caçada Semanal #278

Alguém que gosta realmente de videojogos não se importa com as plataformas em que joga, o que quer saber é dos próprios jogos. A resposta certa à pergunta “qual é a tua consola favorita?” é simplesmente “sim”. Seja a jogar numa PlayStation, Xbox, Switch, iPad, calculadora Texas Instruments ou um frigorífico inteligente, não importa a plataforma: importa o conteúdo. 

No meu caso não é por uma questão de preferência que a grande maioria do meu tempo de jogo é passado no computador, mas sim por ser o meu local de trabalho e por ter apenas uma TV em casa. E foi no PC, ao alcance do clique do rato que jogámos estes 2 indies desta semana.

Strangeland [PC]

Se há género que tem o seu habitat natural no PC – ainda que tenha tido muitas incursões pelas consolas – são os jogos point ‘n click, ou aventuras gráficas como eu continuo a preferir chamar-lhes.

É interessante como o mercado independente continua a ser um berço fértil de tantos jogos do género, e foi sem surpresa que vimos chegar Strangeland, uma peculiar aventura gráfica dos mesmos criadores de Primordia e Blackwell Legacy.

Se há condecoração que lhe posso atribuir (especialmente em tempos de Olímpiadas) é a medalha de ouro de point ‘n click mais surreal e bizarro que já joguei. Strangeland passa-se numa feira popular de terror, numa atmosfera que só poderíamos definir como algo retirado de pesadelos.

O excelente argumento mas pesado e alegórico mescla-se de forma orgânica com o ar desolador de todo o jogo, onde os laivos tétricos deixam antever o impacto que Strangeland tem em nós, com o seu tom negro, diametralmente oposto às habituais aventuras gráficas.

O jogo arranca com loop de suicídio que temos obrigatoriamente de assistir, de uma mulher que se atira para um poço sem que consigamos impedir, e este é apenas o primeiro de muitos cenários com um tom pesado que encontramos pelos cenários de Strangeland.

Com uma excelente direcção de arte desenvolvido com suporte a ilustração digital com uma paleta negra e opressiva, Strangeland é uma das aventuras gráficas mais memoráveis que já joguei.

 

Beautiful Desolation [PC, PS4, Switch]

Um exercício de História alternativa é, na maioria das vezes, sinónimo de potencial narrativo quase infinito. Vejamos o caso de Beautiful Desolation, um videojogo que se passa no belíssimo ano de 1985 (terá existido melhor ano para se nascer?), dez anos depois de uma estrutura alienígena, a Penrose chegar à África do Sul e trazer a sua tecnologia em contacto com a Humanidade.

Volvida uma década, esse contacto com a aparentemente inocente tecnologia da Penrose causou alterações tão profundas aos seres humanos, que as mutações nos aproximaram-nos do ponto de não retorno da extinção.

O ambiente de Beautiful Desolation relembra os Fallout clássicos pela sua isometria, ainda que os autores tenham desenvolvido este mundo pós-apocalíptico com um misto literal do que é descrito no seu próprio título: um misto de beleza desoladora onde a Natureza vai rapidamente reclamando o espaço à intervenção humana. Sem qualquer combate à vista, os perigos e obstáculos deste títulos são resolvidos como o mais tradicional das aventuras gráficas.

Com um elenco de voice acting de alta qualidade, Beautiful Desolation é uma aventura gráfica que nos conta uma história complexa num mundo interessante que é tão similar, mas tão diferente do nosso. No entanto, o enredo não deixa de ser ligeiramente críptico, com os autores a deixarem-nos propositadamente às escuras sem saber o que fazer e para onde ir. O excesso de fetch quests e de backtracking (que estendem artificialmente o jogo) somado à encriptação ocasional da própria narrativa acabam por manchar a experiência que tinha tudo para ser memorável.

Com uma excelente direcção de arte, o potencial de Beautiful Desolation poderia ser cumprido na sua totalidade se os seus autores o assumissem como uma experiência mais curta, onde cada elemento que o compõe seria absorvido no ritmo apropriado.