Caçada Semanal #279

Pudessem as dores de cabeça do mundo ser resolvidas tão facilmente como o fazemos no interface homem-máquina dos nossos jogos, e seríamos bem mais felizes.

Seja a procurar alguém querido na Zona de Exclusão de Chernobyl ou a disfarçar o que pode ser o crime perfeito, estes 2 indies mostram-nos o poder de um clique em mundos… virtuais.

Chernobylite [PS4, Xbox One, PS5, Switch, Xbox Series]

Começo com uma batota. Chernobylite, uma das grandes surpresas deste Verão, não está confinado ao PC. Mas, com uma grande essência de first person shooter no seu âmago – e refutem à vontade, mas ainda acho que FPS são nativos de PC, e que a sua existência em consolas é apenas um mal-menor – a melhor forma de experimentar este jogo do estúdio The Farm 51, criadores de Get Even, é mesmo com um rato na mão.

Neste survival horror shooter com laivos de RPG controlamos Igor Khymynyuk, um Físico de Chernobyl que procura a sua namorada Tatyana na Zona de Exclusão.

Acredito que parte do sucesso comercial que este Chernobylite tem tido se deve à atmosfera maravilhosa que os seus autores conseguiram criar, onde a névoa é tão densa e realista que é quase tangível. Onde os espaços de Chernobyl, tanto os urbanos abandonados como os da Natureza isolada, parecem tão credíveis quanto aqueles que vemos de imagens do local.

Graças à contaminação da radioactividade existem criaturas mutantes que nos perseguem, para além de outros humanos que nos tentarão impedir de levar a cabo a nossa missão. Mas com a escassez de munições cedo percebemos que o jogo nos empurra a adoptar uma postura de furtividade ao invés de andar a disparar contra e tudo e todos.

As escolhas que fazemos nas interacções vão definir as nossas alianças – as pessoas que nos vão acompanhar e que juntar-se-ão a nós na nossa base. É interessante de ver as múltiplas ramificações e o impacto dessas escolhas que são literalmente reconhecíveis sempre que morremos. Quando acordamos desse estado de pós-morte estamos num ambiente onírico onde conseguimos ver e interagir com as nossas decisões.

A evolução do estúdio The Farm 51 entre o lançamento de Get Even em 2017 e este Chernobylite é impressionante, mas é indubitável que a capacidade de criarem um ambiente aterrador e tenso é o grande argumento de reconhecimento deste jogo que muitos julgavam que seria apenas um sucedâneo de STALKER, mas que é mais do que isso.

 

Overboard! [PC, Switch]

Desenvolvido pelo estúdio Inkle, criadores de Heaven’s Vault, em Overboard! controlamos Veronica Villensey, a protagonista, recém-casada em lua-de-mel num cruzeiro e que acabou de assassinar o marido na sua cabine.

O nosso objectivo é claro: chegar a Nova Iorque sem os outros passageiros ou a tripulação detecte o crime ou que nos reconheçam como os verdadeiros criminosos. Temos de conseguir passar incólumes durante oito horas para podermos chegar à Grande Maçã em liberdade e desaparecer na multidão.

Overboard! é um whodunnit ao contrário: nós sabemos que somos os assassinos mas queremos mascarar o nosso crime, criando dúvidas nas pessoas que estão connosco no navio.

Dada a forma como esta visual novel foi criada, com múltiplas ramificações e tantos outros finais, há muita rejogabilidade dado que cada playthrough é bastante curta. É curioso referir o género visual novel, já que este jogo me faz lembrar o segundo caso do primeiro Dai Gyakuten Saiban, o spinoff da série mais famosa do género.

O cruzeiro tem 9 áreas distintas onde interagimos com vários personagens, e onde vamos tomando decisões que nos podem fazer passar por culpados, ou enganar e desviar as atenções. 

Overboard! é meio puzzle game, em que a história vai ramificando mediante o que alcançamos e visual novel no seu desenrolar, sendo que é nestas multiplicidades de enredo que em muitos dos finais que vamos atingir vamos ser apanhados e presos.

Com uma direcção de arte deliciosa e incontáveis finais diferentes, Overboard! é uma prova da forma como os criadores indie têm aprendido a reinterpretar um género que durante anos era um quase exclusivo do mercado japonês.