Novelas visuais são jogos que estão sempre fora da minha esfera de interesse, mas se lhe juntarem um componente de dungeon crawler a combinação pode eventualmente despertar a minha curiosidade. Provavelmente nem assim despertaria, Boyfriend Dungeon só despertou a minha atenção por estar no Game Pass. É giro mas está longe de ser um jogo essencial.

Boyfriend Dungeon é um misto de simulador de relacionamentos amorosos com um dungeon crawler. Qualquer um desses componentes é pouco interessante e parco em opções. O nosso personagem é criado por nós, embora eu admita que simplesmente cliquei no randomizar, e o início da história coloca-nos a passar as férias numa cidade propícia ao envolvimento amoroso, algo a que o nosso boneco não está habituado.

Esse foi para mim o primeiro “mas que raio”, pois passamos de forma imediata duma pessoa que não tem qualquer interacção social para a maior namoradeira da Arrentela e arredores.

Os alvos da nossa relação são pessoas que têm a habilidade se transformarem em armas, armas essas que posteriormente usamos para lutar nas masmorras. Todos esses personagens têm histórias, géneros e orientações diversas, pelo que provavelmente cada pessoa se conseguirá identificar com, pelo menos, um deles. O que acabou por me acontecer e, em última análise, me direcionou imediatamente para uma personagem, foi ter achado o início das histórias muito desequilibrado, isto é, algumas das motivações de cada personagem eram aborrecidas ou aparentemente egoístas, e embora com o desenvolvimento dos relacionamentos eu tenha ficado a considerar que a maioria delas eram afinal interessantes, nenhuma delas criou um sentimento negativo consoante a nossa relação evoluía, pelo que não tive qualquer motivo para alterar a minha preferência inicial.

Os relacionamentos progridem às lufadas, com cada personagem a ter 6 níveis estanques de relação. Cada um desses níveis tem um nível máximo de experiência que se atinge com o tempo passado juntos na masmorra e não progride mais que esse máximo até termos um novo encontro. O jogo possibilita-nos trocarmos de arma a cada novo nível da masmorra e foi dessa forma que fui evoluindo um punhado de relacionamentos ao mesmo tempo. Essa evolução não é difícil, mas por vezes preza-se a enganos, quer por desperdiçarmos presentes quando os damos sem haver na altura hipótese da relação progredir, quer pela falta de opções e momentos para tornar a relação amorosa ou apenas de amizade. Esses momentos existem, apenas são pontuais, não constantes.

Um dos pontos que está a criar bastante controvérsia é o antagonista da história. Na prática funciona como um stalker e não há maneira de evitar ou contornar a sua presença no jogo, afinal ele é o vilão e a trama está dependente da sua personagem. Somos prevenidos para esse facto antes do jogo começar, mas o grosso da polémica é não ser perceptível o quão asquerosa a personagem se torna. Embora eu não tenha tido esse sentimento de asco, nem tenha qualquer trauma que despolete algum reflexo condicionado, tenho que admitir que joguei o jogo sem saber do que se estava a discutir nas redes sociais e sempre que possível evitei a interacção com o boneco, o que só por si é sinal que me causou desconforto.

Bem, e andar pelas masmorras? Curto e grosso, não é nada de especial. Todo o combate é feito corpo a corpo. Isso só por si não remete para grande variedade. Os programadores tentaram dar um estilo diferente a cada arma, mas não conseguiram muito bem atingir o objectivo. Certo que muda a velocidade e alcance de cada uma delas, mas eu joguei sempre da mesma forma. Temos dois ataques, o principal que é mais rápido e com potencial para fazer combinações simples, o secundário que é mais demorado mas mais forte, também permitindo que consigamos atacar de posições mais afastadas e uma habilidade, que vai desde disparar uma bola de fogo, a adormecer inimigos, colocar turrets ou invocar um fantasma para ajudar. O poder das armas está associado ao grau de relacionamento que temos com a pessoa em si, sendo que cada novo grau desbloqueia um novo poder da arma, cada um deles imperioso para a nossa progressão nas masmorras.

O objectivo das duas masmorras disponíveis é enfrentarmos os nossos medos, lutando contra inimigos alusivos a esses mesmos. Na primeira lutamos contra telemóveis ou televisões (entre outros), na segunda contra copos de Daiquiri e colunas de som (mais uma vez, entre alguns outros). Temos um boss intermédio a meio dos 10 níveis de cada masmorra e outro no final que posteriormente me deixou a pensar se seria obrigatório lutar contra ele para concluirmos o nosso percurso.

Durante cada run podemos encontrar várias zonas secretas que nos brindam com receitas para construirmos material cosmético ou habilidades. Também encontramos locais de descanso que nos permitem evoluir os nossos relacionamentos. Muitas vezes esses locais providenciam informação acessória a cada personagem que, embora não seja essencial à história, é engraçada de saber.

O loot do jogo é bastante generoso. Vamos recolhendo componentes para podermos fabricar as sucessivas receitas que encontramos nas masmorras. Não há propriamente uma penalização por morrermos. Limitamo-nos a sair da masmorra, mantendo tudo o que apanhámos em cada run, isso torna o jogo dinâmico, embora algumas vezes me tivesse aborrecido ter de passar por diversos encontros para subir o nível de relacionamento com os diferentes personagens entre cada uma dessas mesmas runs.

Admito que a conjugação de ambos os géneros me permitiu tolerar a componente de novela visual ou dating simulator, ao me introduzir algo divertido para fazer pelo meio, porém nenhuma das componentes me parece especialmente interessante, e dada a suposta assimetria de públicos alvo, não vejo porque razão uma pessoa que não goste de novelas visuais não prefira escolher um dungeon crawler mais competente, sendo que o contrário também se torna verdade. Boyfriend Dungeon é um jogo competente sem ser particularmente bom em nada. É importante voltar a mencionar a situação do stalker. Se isso for incomodativo este jogo é imediatamente para evitar, caso não seja é um jogo divertido capaz de nos ocupar uma dezena de horas caso queiramos concluir todas as linhas de história, além disso, onde mais podemos lutar contra uma versão demoníaca de Himura Kenshin, Battosai o Esquartejador?