Caçada Semanal #283

Não sei se amigos e familiares sportinguistas me vão escorraçar por afirmar isto, mas eu gosto bastante do Jorge Jesus. Não me entendam mal: adoro o Rúben Amorim, admiro a sua postura e tudo aquilo que tem feito com o meu Sporting, e não o trocaria nem por mil Jorge Jesus em que três deles traziam a Paula Rego às costas. Mas como figura, é impossível não gostar de Jorge Jesus: egocêntrico, vaidoso, tudo aplicado em alguém que podia ser o nosso tio da Mouraria que palita os dentes enquanto puxa desavergonhadamente as cuecas para cima agarrando o escroto pelo caminho. As pérolas linguísticas são eternas, e por muito que tudo isto soe jocoso, garanto-vos, não é. O mundo seria bem mais cinzento se uma figura magistral como o Jorge Jesus – o auto-intitulado mestre da táctica – não existisse. 

Se tivesse a possibilidade de interagir e de o apresentar ao maravilhoso mundo dos videojogos, gostava de pôr à prova o seu título com umas partidas de tactical RPGs/strategy games. Como estes dois indies que trazemos nesta caçada.

Timemelters [PC]

Timemelters é na realidade o jogo originalmente denominado Wicca, desenvolvido pelo co-criador de Sang-Froid: Tales of Werewolves e que teve a sua origem numa campanha de Kickstarter de sucesso.

A história passa-se no Séc. XVI na Escócia, numa época de caça às bruxas, aproveitando o folclore escocês na criação da esfera paranormal do jogo. 

Vivemos a pele de uma wicca, Teagan, que tem a capacidade de manipular o fluxo do tempo. Dos muitos poderes originais que Teagan tem acesso, um dos mais criativos é a possibilidade de nos deslocarmos no tempo para nos auxiliarmos a nós mesmos a enfrentar as hordas de monstros que nos querem ferir. As possibilidades estratégicas de nos “duplicarmos” noutro instante do combate, lado-a-lado com a nossa versão do passado.

A estratégia é em tempo real: somos um exército de uma pessoa com a nossa capacidade de utilizarmos iterações nossas como solados-mágicos ao nosso lado.

Não sendo visualmente brilhante, o ponto alto de Timemelters é a originalidade do acervo de habilidades de Teagan, que vão desde envelhecer árvores para que elas cresçam e sirvam de barreira até à capacidade de utilizar teleportes espaciais, mas também temporais.

A evolução e especialização de Teagan depende do nosso estilo e das escolhas que temos na árvore de evolução. Os upgrades aos seus feitiços vão depender muito da forma como nos adaptámos a jogar a este Timemelters.

Podemos jogar em co-op online, facto que ainda não pude experimentar porque o jogo ainda nem sequer tem data prevista de lançamento, mas Timemelters apresenta um grande potencial estratégico com as “brincadeiras” de manipulação da corrente do tempo que Teagan tem na manga.

The Protagonist: EX-1 [PC, Switch, Xbox One, PS4]

O jogo passa-se em 2113E no planeta Terra (não o nosso, leiam-no com sotaque inglês), durante uma ditadura militar que aplica a paz através da força. Com a identidade do Concelho de gestão tem identidade escondida do resto do mundo, obrigando a que todos os cidadãos tenham cuidado com as suas relações e com o que dizem, visto haver uma desconfiança que qualquer pessoa com quem interagimos possa ser um membro do Governo.

Somos parte de uma força de elite do Governo com a simples instrução EX-1, que significa eliminar uma facção nomeada pelo concelho como KL-T.

À medida que a história avança, temos a capacidade de nos revoltarmos contra a ordem dada pelos nossos superiores, ou levá-la a cabo sem questionar. Isto vai ramificar a história, numa premissa interessante que acaba por se perder na monotonia da jogabilidade.

A exploração e o combate funcionam em grelha, e é também assim que resolvemos alguns pequenos puzzles espalhados pelo nível. O mais frequente (que me fez lembrar Shadowrun: Returns mas a anos-luz da sua qualidade) é a necessidade de fazermos hacking a portas e outro dispositivos. Facto demasiado recorrente e torna a sua existência um aborrecimento pegado.

Há muito que The Protagonist: EX-1 poderia ter aprendido com jogos como XCOM (que ainda é o patamar do género), ou mesmo o supra-citado Shadowrun: Returns, para perceberem o quão desnecessariamente longo são os combates. 

É uma pena que os autores tenham sido insensíveis ao ritmo de um bom combate táctico e estratégico transformando o seu The Protagonist: EX-1 num genérico dos turn based tactical RPGs.