Enquanto me preparo para que os eventuais neoliberais que possam estar a ler este artigo me queiram dar uma chapada na cara com a mão invisível do mercado, deixem-me já dizer que o conceito de bilionário é algo que me dá algum nojo. Estamos a falar de uma concentração pornográfica de dinheiro nas mãos de uma pessoa apenas, que por muita criatividade que tenha não terá esperança média de vida ou capacidade para o gastar. Ao mesmo tempo que biliões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza, e muitas destas até são trabalhadores desses mesmos bilionários.

Ver Jeff Bezos a compensar de alguma forma algumas problemas anatómicos seus com a construção de um pénis gigante para o levar para o espaço enquanto muitos dos seus trabalhadores têm que urinar para garrafas de plástico para não terem pausas nem serem penalizados, é daquelas coisas que apetece pegar na afamado mão invisível do mercado, colocá-la em forma de punho e dizer a um bilionário que é uma nova espécie de banco para sentar.

Antes que se estejam a espumar da boca a chamar-me comunista, podem estar bem enganados. Sou um social-democrata, apesar de reconhecer o capitalismo como (infelizmente) impossível de ultrapassar na sociedade actual, considero que tudo deve ser feito para garantir as melhores condições laborais e humanas a quem trabalha, e a quem produz a riqueza.

Ver dois bilionários de meia-idade com problemas capilares (e possivelmente inseguranças genitais) a torrarem milhões numa corrida ao espaço deve ter sido a inspiração para Golf Club Wasteland. Um jogo onde os bilionários se pisgaram da Terra quando esta teve um evento cataclísmico, apenas para um deles regressar anos depois ao planeta desolado para o ter como um campo de golf gigantesco.

Charley, o astronauta praticante de golf, tem assim a Terra só para si para “bater umas bolas”. São cerca de 35 níveis diferentes, criativos, que exploram a simplicidade mecânica deste puzzle game desportivo.

Cada nível tem um objectivo simples: colocar a bola no buraco no menos número de tacadas possível. Mas se isto é um desafio num campo aberto, imaginem nos destroços de uma cidade, num iate à deriva, ou num prédio que ficará para sempre com andaimes sem nunca ser terminado.

O modo de história permite-nos dar o número de tacadas que quisermos com o único objectivo para passarmos ser o de conseguir meter a bola no buraco. Mas novos modos vão sendo abertos para que o desafio corresponda a uma masterização das mecânicas do jogo: e obrigar-nos a chegar ao buraco com um número de tacadas pré-definido.

Já muitos jogos de puzzle com golf foram lançados no mercado, mas parece-me que a verticalidade que este jogo bidimensional obriga torna-o num desafio interessante e diferente.

E a temática, mordaz e acutilante, de utilizar as valentes disparidades económico-sociais como justificação para este delicioso jogo indie, com a Terra a ser um cemitério para toda a Humanidade que os bilionários transformaram no seu clube de golf privado.