Perdoem-me desde já a apropriação a IPs alheios a este jogo, mas não pouparei esforços neste texto para que joguem – ou pelo menos experimentem – Song of Farca. Se a imagética do Rubber o permitisse, espalhava seios desnudos pelo meio das frases, só para vos abrir o apetite para este indie…

Song of Farca colocou-me na pele de Isabella Song, imigrante latina na ilha mediterrânica ficcional de Farca. Na pele, mas só a dos dedos, que Isabella está em prisão domiciliária durante todo o jogo e portanto só interagi com o mundo através do seu computador. Para ganhar a vida, esta mulher de cabelo à Wanda Stuart trabalha como Detective Privada, além de ser uma exímia hacker – o que permite que a jogabilidade de Song of Farca esteja contida em poucas mecânicas.

Na metade de cima do ecrã vemos o apartamento de Song, na de baixo o seu computador, com o qual só conseguimos interagir quando a protagonista está sentada à secretária (a esmagadora parte do tempo). Este é um jogo de aventura em que me foram dados contratos de trabalho com vários personagens e cuja resolução depende de dois tipos de investigação – quando hackeava as várias câmaras e dispositivos eletrónicos de um local para encontrar pistas e quando interrogava pessoas ao telefone e as confrontava com as conclusões na sequência dessa recolha.

A metade de cima é poucas vezes usada, com algumas animações entre capítulos. É um trabalho sedentário o da protagonista.

Neste último ponto – que sem desprimor ao primeiro, é o mais interessante dos dois – os momentos em que se avança a narrativa são quando alguma afirmação do nosso interlocutor faz subir o seu ritmo cardíaco ou dilatar as suas pupilas, o que significa que o temos de confrontar com alguma prova ou conclusão. Nisto a minha experiência levou-me rapidamente para a brilhante série de Phoenix Wright: Ace Attorney e os seus interrogatórios no banco dos réus – a sensação que Song of Farca me deu foi muito próxima. O mesmo se pode dizer da satisfação de compelir um personagem a falar sobre o que me interessava.

Objection!

Vamos falar sobre satisfação. Não aquela que seios desnudos costumam propiciar, antes a belíssima envolvente narrativa que a Wooden Monkeys tão bem escreveu, tanto no world building como nos personagens. Já vos escrevi que Farca fica algures no Mediterrâneo. Imaginem a ilha de Malta, mas com a pujança corporativa do Luxemburgo e com um toque da diversidade cultural de Londres, remetida depois para um futuro poucas décadas à frente do nosso em que o poder de facto provém das corporações e não dos Governos. Uma espécie de distopia cyberpunk na sua infância, onde uma realidade urbana é muito semelhante à nossa mas ainda mais carregada de tecnologia, violência e desigualdade. E onde fui surpreendido por uma alusão a um cão robô desaparecido cujo triste destino seria ser sodomizado por uns quantos tarados em Portugal. Espero mesmo que essa malta na Rússia da Wooden Monkeys não nos veja a todos assim – e por isso deixo esta visão alternativa:

É assim que se deve retratar Portugal!

A princípio só resolvi casos corriqueiros de detective privado – uma pessoa desaparecida aqui, um desenterrar de esqueletos acolá. Gradualmente os vários casos e personagens revelam-se interligados pela nossa Isabella, com quem achei impossível não empatizar, à medida que fiz amizades, romance ou inimigos que me levaram ao ponto de toda a nação de Farca estar em jogo, submersa pela espionagem industrial e intriga corporativa em torno da qual o dinheiro e o poder se encontram em igual abundância.

Pese o ocasional sarcasmo da protagonista, o jogo não perde o seu foco distópico e mais sombrio, apenas com os toques suficientes de Humanidade aqui e ali – especialmente na Inteligência Artificial que me apoiava em vários casos – para tornar este futuro palatável e, acima de tudo, muito credível. Song of Farca quis também passar uma mensagem muito óbvia de coragem face à tirania, mas ao ponto de isso estar subjacente nas várias decisões que tomei para ramificar a história – as decisões que culminam no final idealizado pelos criadores são aquelas que requrerem mais coragem a tomar e que nem sempre parecem lógicas tendo em conta a informação da qual dispunha para as tomar.

Como todos os telefonemas são representados através de uma troca de mensagens escritas, os traços emotivos da protagonista e restantes personagens tornam-se especialmente distintos. A relação amorosa da anterior, que só muito perto do fim entendemos como catalisador para todo o desenlace final, é outro ótimo exemplo de escrita, já que envolve duas mulheres mas podiam bem ser dois seres vivos de qualquer género ou orientação sexual que a história seria a mesma. Admito que por ser uma relação homossexual, enraizou-se mais em mim a empatia para com as injustiças contra minorias na ilha de Farca, mas sem que – e é aqui que creio estar a doce subtileza da escrita – se esforce muito para as tornar evidentes ou gritantes, dando-lhes a naturalidade que todas estas relações interpessoais merecem. Se não servir um propósito ao lore ou à narrativa, não faz falta no jogo – é assim que deve ser.

Uma AI que aprende connosco.

No que diz respeito ao desafio, Song of Farca está cozinhado no ponto que eu gosto. Tal como os meus seios preferidos, perfila-se-me como natural. Ao nível dos interrogatórios, falhar o impacto de uma conclusão (onde associamos dois factos recolhidos na nossa investigação) permitia-me sempre testar as restantes combinações até que uma resultasse. Já existem pontos-chave na história suficientes em que as minhas decisões não tiveram volta a dar e alteraram a restante história para causar esse efeito.

É nos puzzles de hacking e vigilância onde a jogabilidade é mais interactiva. Rapidamente se percebe que para investigar um local – interior ou exterior – implica hackear o máximo de câmaras possível para cobrir todo o terreno e entender o que fazer. O objectivo alterna entre descobrir múltiplas pistas (notas escritas, computadores, telemóveis, etc) ou conduzir pessoas no espaço a determinado local ou a tomar determinada acção. Muitas vezes temos acesso a drones que, para criarem alguma distracção, pegam num isqueiro numa parte da divisão para atear fogo a uns documentos noutra parte. Às vezes é necessário desencriptar palavras-passe ou descodificar mensagens crípticas de forma a obter um código numérico para abrir um cofre ou uma porta. Sequências por vezes diabólicas que envergonharam os meus outrora 90% de raciocínio abstracto dos testes psicotécnicos do 3.º ciclo.

“Bom, com estes resultados podes ser o que quiseres! Menos matemático”

Song of Farca está nesta altura a €16,79 no Steam. Passei 12 horas tranquila mas avidamente a devorar o seu conteúdo numa primeira playthrough. O jogo tem pouco mais de dois meses e já se encontra tremendo valor num preço destes – mais do que o vosso típico indie de poucas horas, com colecionáveis e rejogabilidade como os jogos dos crescidos. Se tiverem dúvidas se isto é para vocês, há uma demo no Steam que equivale ao segundo capítulo, onde se tem um pouco de todas as mecânicas do jogo, bem como alguns twists narrativos.

Song of Farca não está no radar de praticamente ninguém, salvo um punhado de acérrimos portais que se dedicam aos indies. Outros membros do galinheiro com mais rodagem de indies que eu terão o seu faro apurado para os trabalhos com mais potencial. No meu caso, ainda acho que é o jogar extensivo de muitos títulos que nos permite encontrar as pérolas e trazê-las à vossa consideração, por entre o meio de demasiados títulos olvidáveis, algumas coisas que preferíamos não ter jogado, uma mão cheia de bons trabalhos e um ou dois títulos realmente memoráveis como este.

Se os visuais não seduzirem, o estúdio não tiver pedigree ou um site mainstream não fizer uma análise, dificilmente estas obras obtêm o alcance que merecem. Como se para nos chamarem à atenção, os jogos tivessem todos de ter seios grandes e voluptuosos. Que depois se calhar vamos a ver e não interessam a ninguém.

Quando prometo seios, é a sério.