O meu primeiro contacto com pintura digital foi há cerca de 21 anos, ainda com o velhinho Corel Painter, que me acompanhou até 2004, ano em que transitei (sem nunca mais mudar) para o Adobe Photoshop. Nessa época a pintura digital era uma verdadeira incógnita para estudantes e jovens artistas (e não só), e o pouco que se sabia passava pela troca de informações na Faculdade entre colegas.

Longe estava o advento das revistas dedicadas exclusivamente à pintura digital, à abertura de fóruns de internet, e tutoriais em canais de YouTube. Uma época em que a Wacom dava os primeiros e sólidos passos para se cimentar como o standard da indústria (coisa que pode não ser tão consensual nos dias de hoje).

Não só pela minha formação e profissão, mas sobretudo pelo facto de ser professor de Ilustração há 10 anos que tento estar actualizado em soluções actuais que tenham um bom rácio entre investimento e retorno do ponto de vista de materiais artísticos digitais. Como dizia, longe vai o tempo em que o topo do investimento era uma Wacom Cintiq, um objecto quase indispensável para qualquer ilustrador/artista digital, uma das únicas formas de desenhar directamente num ecrã mas que custava alguns milhares de euros.

A competição vai quebrando monopólios, vai obrigando a que as empresas vão democratizando os valores de acesso aos seus objectos, e vai criando novas soluções por vezes em locais inesperados.

O Microsoft Surface foi uma dessas soluções, mas viria a ser a Apple, especialmente com o seu iPad Pro – ainda que as restantes versões de iPad funcionem – a definir o actual standard para pintura digital, com a app ProCreate a desafiar o Photoshop pela hegemonia do mercado, pelo menos em mobile.

Ver surgir uma proposta similar para uma plataforma inesperada, a Nintendo Switch, foi algo que me apanhou de surpresa. Mais do que uma sequela das versões do software lançados para a Nintendo DS e a 3DS, Colors Live quer assumir um papel de entry level nos softwares de pintura digital, muito graças ao seu periférico exclusivo: a SonarPen.

Qualquer pessoa que utilize de forma recorrente software digital de pintura vos dirá que talvez mais importante do que a plataforma, é a sensibilidade da caneta/lápis físicos que utilizam como interface entre a vossa mão e o ecrã. Um local onde a nova Apple Pen domina e onde a Wacom sempre dominou, mas que, pensando nas limitações técnicas da Switch, requereram uma solução inventiva.

Quando desenhamos num ecrã, queremos que o dinamismo do nosso gesto seja tão similar quanto possível à experiência, por exemplo, de desenhar com um lápis real, onde a intensidade da grafite no papel depende muito da pressão impressa com o lápis.

Dada a incapacidade técnica de transmitir estas informações de pressão via interface da ponta do lápis e o ecrã da Switch, o que os criadores da Collecting Smiles fizeram para circundar este problema é realmente original. A SonarPen não “sente” a nossa pressão, mas, visto que ela não é wireless e tem de ser conectada à porta jack, a sua ponta de sonar transmite informações de frequências acústicas que traduzir a força da nossa pressão no ecrã e que são interpretadas pelo software para entender o dinamismo do nosso gesto.

É óbvio que dado o facto de que a sensibilidade acaba por ser feita por sistema de sonar e não por toque directo, o software inclui de base informações de palm rejection – impedindo que o mero encosto da nossa mão dê inputs ao software e que façamos rabiscos indevidos.

Olhando para Colors Live, e depois de o experimentar durante um par de horas, fica-se com a sensação que pode ser uma porta de entrada para quem se esteja a estrear na pintura digital, mas apenas para aqueles que só têm acesso a uma Nintendo Switch. Para todos os outros, entre o investimento de um bom software gratuito para PC/Mac, ou comprar o ProCreate para iOS, Colors Live falha por ampla limitação.

Comecemos por questões técnicas associadas à própria Switch. O tamanho máximo de criação de imagens é de 2560 x 1440, amplamente insuficiente, dependendo da resolução associada, para quem quiser utilizar Colors Live para produção para offset.

O máximo de 10 layers permitidos podem ser suficientes para alguns artistas, mas para a grande maioria (e também a maioria dos projectos) estas dez camadas são insuficientes para albergar a produção semi-profissional de ilustrações.

A falta de ubiquidade de formatos de imagem é outro dos problemas. Praticamente todos os softwares de imagem permite abrir e/ou exportar ficheiros em formato .psd ou .tiff com as camadas preservadas. Colors Live na Switch permite apenas exportar em .png, e fazer download desse imagem comprimida e com as camadas fundidas através de um browser, ficando nós com os originais em múltiplas camadas “presos” a um software nativo da Nintendo Switch.

Como já devem ter percebido – ao contrário do que alguns reviewers têm escrito sobre Colors Live – ele não é nem um jogo nem uma ferramenta pedagógica. É um software, puro e duro, sem qualquer elemento de ensino associado. Quem mergulhar à espera de diferente está perfeitamente enganado e/ou não tem o mínimo de noção de qual o objectivo de um software de produção de imagem. Permitam-me uma metáfora absurda: quando vão comprar um lápis de grafite 3B (não se esqueçam que a temperatura está a mudar e que terão de adaptar o vosso gesto ao efeito que o clima tem no vosso lápis), não esperam que com ele venha associado qualquer curso de desenho, pois não?

Essa é a postura com que têm de partir para Colors Live, se por alguma razão sentirem que ele é uma boa resposta para as vossas necessidades: é um software puro e duro, que ainda por cima teve de “martelar” os botões da consola no seu software. Dispõe de um sistema de desafios diários que são mais incentivos à prática da pintura do que qualquer elemento de gamificação.

Colors Live, e em especial a sua SonarPen são uma solução inventiva de como tornar a Switch uma porta de entrada para a pintura digital, ainda que tenha muitas, muitas limitações do ponto de vista técnico. Só consigo vê-la a responder às necessidades de alguém que esteja num ponto de entrada e que só disponha de uma Switch. Mas mesmo para esses, quando quiserem dar o passo em frente, terão de apostar noutra plataforma.

Para quem tem uma tablet, seja Android ou Apple, ou PC/Mac, o investimento ficará pouco mais perto do que adquirir a SonarPen, com a diferença que será não só uma resposta como porta de entrada, mas também como sistema de profissionalização. Algo que o Colors Live nunca na vida será.