A minha Xbox One S está transformada numa espécie de media center, algo que dá razão à sua infame apresentação. Recentemente, imagine-se, decidi instalar lá um jogo para jogar. A minha escolha recaiu em The Art of Rally. Essa escolha revelou-se fantástica, mas também me levou a confirmar que a consola já passou o seu período da vida útil.

Tal como dá para suspeitar pelo nome, estamos perante um jogo de corridas de rali. Os gráficos são-me um bocado difíceis de descrever, mas são um bocadinho voxelizados, se é que posso dizer isso, especialmente a assistência que caracteriza as pessoas como divertidíssimos caixotes. Esta simplicidade criou algo que creio nunca ter visto, uma assistência viva, inserida na acção, que imagino que apenas não seja em maior número por limitações de sistema. Já por esta, chapéu tirado. Excelente!

A música é maioritariamente electrónica, com algumas das faixas a lembrar jogos cyberpunk. É bastante boa. Os sons dos carros são distintos entre si, embora eu não saiba propriamente confirmar se é um som realista, já que não conheço a maioria dos carros ao vivo. Há alguns detalhes que me fazem suspeitar que não, por exemplo, os programadores deram-se ao trabalho de inserir o som dos travões a chiar, no entanto esse som é igual para todos os carros. Será no entanto que os travões chiam de maneira diferente? Epá, não me aborreçam!

Também estou indeciso entre descrever este jogo como arcade ou simulador. Tem muito de ambos. Por um lado, o estilo tipo Micromachines com gráficos nada realistas, não ser possível mudar o setup do carro, e a impossibilidade de jogar do interior do carro empurra para um jogo arcade, por outro o estilo de condução, a forma como não perdoa o nosso erro e a maneira como parece querer negar-nos aquela diversão descomprometida que temos nos jogos casuais, obrigando-nos a manter a concentração constantemente remete-nos para um simulador.

The Art of Rally vive de mensagens contraditórias. Das primeiras lições que nos quer dar é que as derrapagens são nossas amigas, mas a verdade é que os carros que têm potência suficiente para as fazer de forma consistente só aparecem muito mais tarde, o que nos leva a um de dois cenários, não termos os slides a que estamos habituados, ou nos despistamos com maior frequência ao tentar fazê-los. O que descobri foi que, mesmo quando já tinha acesso a carros mais potentes, era mais fácil e algumas vezes até mais rápido, evitar derrapar e procurar conduzir como se fosse um carro de turismo. Claro que isso é explicado pela própria física, mas parece que corta um bocado o espírito habitual que tenho num jogo de rali, no qual passo um terço do jogo com o carro de lado e a deslizar nas curvas.

Os saltos sofrem o mesmo problema. Certo que isto é algo que já começa também a acontecer com outros simuladores, mas neste jogo saltar é praticamente sinónimo de acabar fora de pista. Optei recorrentemente por abrandar sempre que me cheirava que as rodas do meu carro iriam sair do chão, e usualmente tinha razão. Salvo raras excepções sempre que arriscava lá acabava eu fora de pista, a bater num antílope que ficava ali imune ao choque com o carro, enquanto eu não me conseguia livrar dele.

Há, lá pelo meio, um rali na Alemanha cuja estrada tem lajes de ambos os lados (parecem túmulos), que forçam uma condução muitíssimo precisa, quase que a negar aqueles cortes de estrada à mafioso que todos nós fazemos, e eliminando a margem de erro habitual que a berma costuma oferecer. A isto acresce que a detecção de colisão funciona de forma estranha. Já mencionei os animais no parágrafo anterior, que funcionam como paredes de betão, mas ainda é pior dar um toque a baixa velocidade, pois o carro não desliza, cola, isto é, a resposta ao mínimo toque é um pião, quando o que se espera é que em determinados ângulos o carro avance, mesmo tocando em algo. É estranho.

Ou seja, este jogo procura entrar no mundo dos simuladores e, na minha opinião, que o seja. Pegando no comando é isso mesmo que parece.

O jogo tem alguns modos, incluindo um online em que comparamos os nossos tempos com o de outros pilotos por todo o mundo, mas o modo mais usado será certamente o de carreira.

No modo carreira temos acesso à categoria mais baixa do desporto e a cada pódio desbloqueamos uma nova prova e, usualmente, um novo carro. Cada categoria tem um punhado de provas que depois de concluídas nos desbloqueiam a categoria acima. O croqui é sempre este.

Este sistema quase que funciona como a história do mundo dos ralis, pois acaba por seguir a sua evolução. Associado a isso, cada um dos carros tem meia dúzia de linhas que dá um cheirinho de como foram feitos. O jogo não tem licenças oficiais, funciona como ir comprar roupa à feira, pois todos sabem que a Adodas imita a Adidas, a Like imita a Nike e a Reetruck a Reebok. Isso não me criou confusão nenhuma. Os carros são perfeitamente identificáveis. O nome dos pilotos funciona da mesma forma, e não posso deixar de mencionar o meu favorito, o francês Anthony Bousseta.

É pena cada categoria não ter uma classificação final, apenas temos uma classificação por prova, porém isso permite que consigamos escolher um carro diferente a cada prova o que me fez testar todos os carros. Engraçado, olhando para o aspecto do jogo, pensamos que será indiferente o carro que escolhermos, mas cada um deles se conduz de forma diferente. Percebe-se essa diferença. Essa diferença estende-se às condições atmosféricas que também alteram a aderência e visibilidade da pista.

Estranho é a sensação de velocidade ser baixa, embora a percepção de perigo seja alta, isto é, embora nos pareça que estamos a conduzir devagar, mesmo nas categorias mais potentes, parece que o próximo despiste está à porta, inclusive nas rectas. Ajuda a isso o grafismo do jogo causar alguns problemas, já que algumas árvores isoladas na estrada não tenham sido bafejadas pelo sistema que permite ver o carro através de paredes ou vegetação mais densa, tirando-nos a percepção de espaço por períodos.

Não ajuda o hardware não ser o melhor. A Xbox One S já não correu o jogo da forma mais fluída em todas as provas. Quando começavam a aparecer mais assets no ecrã a queda de frames era praticamente constante, e isso não é aceitável nos jogos de corrida, tendo sido essa a razão que me fez parar de jogar ainda antes de desbloquear tudo o que havia para desbloquear, já que este problema só piora com o aumentar da velocidade.

Seria de esperar que os programadores jogassem com isto, mas cada categoria repete imenso dois ou três ralis, o que faz com que se o problema existir num, espalha-se por praticamente toda a duração dessa categoria.

The Art of Rally foi uma grande surpresa. Já tinha ouvido falar dele e queria jogar. Não pedi nada para abrir uma folga para testar estes jogos mais pequenos e há que dizer que adorei todo o tempo que o passei a jogar. Embora seja difícil categorizá-lo acho que tem tudo para agradar a gregos e troianos sendo uma recomendação fácil para todos os amantes, como eu, de jogos de corridas. Ahhh, e está no Game Pass. Que serviço…